sábado, 7 de maio de 2011

O haver

O Haver

Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.
Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não tem ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionante e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas tomam por esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Poesia... não achei


Queria te mandar uma poesia, mas não achei nenhuma que se parecesse com você.
Nenhuma tinha estes olhos ternos, céus em dias claros, mares ao crepúsculo da manhã.
Nenhuma tinha estes cabelos de fios cor do trigo ondulando à luz do sol.
Nenhuma tinha a candura das tuas mãos, o perfil delgado dos teus dedos, a fome do toque.
Em nenhuma poesia encontrei o teu abraço que me enlaçava ternamente como gota azul do oceano.
Nenhuma tinha o convite do teu colo.
Nenhuma tinha a maciez da tua pele, rosa branca, lírio em flor. 
Nenhuma tinha este sangue rubro no qual teus lábios se expressam. 
Nenhuma trouxe o silêncio do contorno dos teus lábios em sussurro.
Nenhuma sabia sorrir como você sorria pra mim.
Nenhuma falava as palavras que me dizias e com as quais ainda faço os caminhos dos meus sonhos.
Nenhuma soava como soa tua voz quando dizes "felicidade".
Nenhuma trazia as letras do teu nome onde amanhecem os meus dias.
Nenhuma tinha a fragrância nua do teu corpo úmido de desejo.
Nenhuma tinha o arfar dos teus níveos seios durante o amor... corolas aveludadas, círculos de chamas.
Nenhuma tinha versos que se despissem como despe-se o teu corpo.
Nenhuma era saudade como são os beijos teus.
Nenhuma tinha esta agonia de liberdade que a tua alma tem. 
Nenhuma sabia da dor que você socorre.
Nenhuma tinha o ritmo dos teus passos quando caminhas na areia da praia.
Nenhuma poesia, nenhuma... não achei nenhuma poesia que pudesse te dar nesta noite.
Só achei estas palavras que o vento, em meio ao canto de um pássaro, sussurrou ao meu ouvido.
E estas palavras são tudo que tenho para te ofertar esta noite...
Poesia... não achei.

J L Silva

domingo, 1 de maio de 2011

Ondular

ONDULAR

Carla Furtado


O teu corpo adormecido sobre o meu
As tuas mãos abandonadas sobre mim
E nos meus olhos a beleza dos caminhos
Que juntos vamos caminhando até ao fim.

Estrelas ardentes flutuam no meu peito
Sinto-me noite, uma noite funda assim
Como a corrente de água limpa que transborda
Dessa nascente cristalina que há em ti

Ah! À nossa beira, amor, cresceram flores
Plantadas pelas nossas próprias mãos
O teu corpo de homem novo semeou
O que na minha terra fértil se fez pão

Sibilante a aurora nasce tão quieta
Traz o cheiro e a frescura dos começos
Como tu ao acordar trazes gaivotas
Assinalando tempestade em mares incertos

No teu perfil desenham-se as paisagens
Dos montes, das serras, dos altares
E de todas as coisas altas, fortes e eternas
Com que imprimes de saudade o meu olhar

Ah! À nossa beira, amor, cresceram mares
Veludo azul, azul de navegar
Correntes livres serenando imensidades
Sob o teu corpo no meu corpo a ondular

Hoje


Hoje já não queimam as
noites em seus fogos
cor de sangue. O fogo
fez-se mar intenso,
vaga sem fim.

Hoje a madrugada é precipício
a acolher rios de sonhos
que se precipitam como
chuvas molhando a lágrima
compassiva, a lágrima amarga e perdida

Hoje não te tenho mais,
não sinto mais meus lábios a viver
nos teus. Não beijo teus olhos,
não sinto teu corpo, só há o teu
perfume entre os meus braços

Hoje já não digo amor
O amor ficou cingido
ao passado nos silêncios
que ficaram junto a ti,
ao teu lado.

Hoje o silêncio tonitruante
das palavras não ditas
é o grão de poesia que
perpassa as pétalas das dores
a germinar no infindo adeus

Hoje, sonhos desfeitos,
vida sem lume, vida sem gosto,
minha alma galga auroras de sonhos
buscando em outros trejeitos
As linhas meigas do teu meigo rosto

J L Silva

Imagem: Olga Sinclair

sábado, 30 de abril de 2011

Senhorita

Senhorita

Zé Geraldo


Minha meiga senhorita eu nunca pude lhe dizer
Você jamais me perguntou
de onde eu venho e pra onde vou
De onde eu venho não importa, já passou
O que importa é saber pra onde vou
Minha meiga senhorita o que eu tenho é quase nada
Mas tenho o sol como amigo
Traz o que é seu e vem morar comigo
Uma palhoça no canto da serra será nosso abrigo
Traz o que é seu e vem correndo, vem morar comigo
Aqui é pequeno mas dá pra nós dois
E se for preciso a gente aumenta depois
Tem um violão que é pra noites de lua
Tem uma varanda que é minha e que é sua
Vem morar comigo meiga senhorita
Doce meiga senhorita
Vem morar comigo

Aqui é pequeno...

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Teus passos

na noite onde o silêncio
é o postigo antigo de um sentimento
ouço teus passos a andarem em mim
ficam, em mim, as marcas dos teus pés
como se areia eu fosse
ficam as gotas salgadas a escorrer
como se mar houvesse
entranho-me numa concha
como se ondas ouvisse
ficam na noite teus olhos de noites azuis
a derramar as fragrâncias de uma primavera
a soluçar os medos da noite inditosa
a arder a lembrança do que um dia foi Amor 
ficam os nãos versejados e a morrer
da morte mais intensa que em fumos se desfaz
morrem os não quando eles já não nos servem mais
a voz ouvida ao longo do vento sibilando
por entre as frestas de um passado envelhecido
entontece a flor que brota no seio da solidão
o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração
quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento
e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros
guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou...
...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva
a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos
a deslizar sigiloso na transparência dos  ventos errantes
desvelando a aragem silente do que de mim restou

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Poema XX

Poema XX

Pablo Neruda


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,

y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".
e tiritam, azuis, os astros, ao longe".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.
O vento da noite gira no céu e canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Yo la quise, y a veces, ella también me quiso.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.

La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como no haber amado sus grandes ojos fijos.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.

La noche está estrellada y ella no está conmigo.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.

Mi corazón la busca, y ella no está conmigo
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.

Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,

mi alma no se contenta con haberla perdido.
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,

y éstos los últimos versos que yo le escribo.
e estes, os últimos versos que lhe escrevo.