segunda-feira, 12 de março de 2012

A lua e o dia

Acabou-se a noite
Já está lá fora um dia perpassando
Um céu azul clarinho
Persuasivo
Que a manhã faz, mas não diz
Azul cantata
Barcarola
Com doces versos azuis ritmados
Pra lua que não foi embora
E se aquece
E se esquece ao sol
E busca meus olhos para se sentir desejada
A lua, ardente de insônia,
Tremeluzindo amor no silêncio
Dos negros passarinhos
Que deixam as árvores assim que a manhã abre as janelas do dia
Faz do dia um rascunho de poema
Que vai deixando de ser poema enquanto escrevo
Com os meus olhos ensimesmados de sonhos
Cativos de uma dor
Ou de um medo
Sólido
Como a minha solidão
A solidão da lua
Ou a solidão do soneto que não fiz
Letra a letra
Como um veneno suave
Impregnando lembranças que não existem
Saudades que eu nunca quis

domingo, 11 de março de 2012

Luz de vela

Luz de vela
acende-se no céu a primeira estrela
a tarde é um retrato 3x4
colorido
num céu tendendo a lilás
num fim de tarde de abril
pendoado
Além da estrela de olhos abertos
olhos de menina que se acendem na prata da lua
arde a chama da vela
bruxuleante
ornada pelo ruído crepitante
do silêncio com que se queima
sob um céu furta-cor
escorre-lhe a parafina
assim como quem chora
uma lágrima quente e constante
como quem chora
uma insofismável saudade de si
assim como a onda indo embora do rochedo
A noite se apascenta dos últimos raios de sol
Tão longe a madrugada
e seus cantares
sabores da poesia brotando
deusa emprenhada do dia
e suas nuanças de cor
parece um verso...
é dor!
E a poesia?
a poesia se declama
e se derrama
e me lambuza todo o tempo
A poesia espia
bem dentro do meu olhar
nas tarde de sílabas sibilares
na tarde e seu andar de anjo da guarda
e sua multidão de cores adejando o olhar da noite
A poesia espia as palavras que moram nas ruas
e nos ares silenciosos
moram na chuva miúda
num reino muito falante
é só parar pra ouvir
o diz-que-me-diz-que arfante
entre estes silêncios de agonia
Há palavras que ouvi das velas acesas da infância
nas noites sem energia elétrica
quando o céu era um truque
todo ornado de estrelas
e a gente acendia as velas que embalavam nossos corações
e a nossa imaginação
As palavras das velas se riam de si e de mim
bamboleando ao rítmo da brisa
meu coração tremia completamente nu
sob a indiferença das chamas
E eu ficava ali, sentado,
ouvindo o que a chama da vela tinha pra me dizer
pensando no que ela dizia
intensamente
colhendo estrelas cadentes
como se fosse a primeira vez que me despiam dos meus fantasmas
O tempo compulsivamente passando por mim
queimando o redundante ruído do tagarelar da mente
queimando a vela
e acendendo sonhos
que devagarinho
encheram-me a vida de luares
que o vento na chama desenhou
e nunca mais fiquei sozinho

sábado, 10 de março de 2012

Ania

Te encontrar
Entre tantas palavras de acalanto
Neste silêncio negro do meu teclado
Do teu segredo
Espiando teus olhos
Como quem olha o céu procurando a lua
E só acha uma estrela tão brilhante
Como devem ser os olhos de Ania
E pressente dentro da noite
Estrelinhas quebradiças dançando na sua rua
Quem é
Ania?
A voz do anjo que me fala as coisas mais bonitas
As coisas encantadas
A pipilar no coração da gente
Meu dia te procurou
O mais desnudo dos meus dias te procurou
Vertendo luzes andarilhas
Nos caminhos que desconheço
Revirando flores
Enovelando ventos
Interpretando os suspiros que corriam para o mar
verde azul demorado
Olhando as frestas das portas entreabertas
Por estas mãos macias a escutar
E a apagar os meus passos malbaratados
Sem métrica
Sem rima
Poemas inacabados
Poemas mortos
Olhos de um anjo dormindo no teu sonho
A triste sina de ser poeta
E não encontrar a palavra que se escreve com a tule das nuvens
Não encontrar o gesto entre o nevoeiro na noite funda e sozinha
Na noite que abraça o mundo
E faz os girassóis dormirem em teu quarto, Ania
Não te encontrei neste luar antigo
Nem nesta noite menina
Criança
Que cresceu, escura, em volta destas estrelinhas tirante à azuis
Acho que tu te pareces com as cantigas de ninar
Canta, Ania, uma cantiga pra mim
Só pra eu confirmar, quase adormecido,
que é tua a voz que me põe a dormir todas as noites
cantando lendas de príncipes e princesas do reino das poesias falantes
Ania, tuas palavras me entrelaçaram
Fitas azuis e calmas
Felizes
Como este teu jeito encantador de dizer que sou poeta
Poeta...
Folheio tuas palavras,
Releio
Procuro um sentido
Uma finalidade
Poeta...
O que será que você quis dizer com isto?
Poeta é azul
Como as fitas calmas
Assim como são rubros e doces os teus lábios, Ania

(...)

A noite tem som de folhas secas
Já há estrelas a fremir de sono
A lua, idolente, diz poesias a perambular

(...)

Que bom, Ania,
que você veio.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Eternamente

Eternamente
é
ter
na
mente
o amor
que acordou nas madrugadas
nas noites de ausência
nas noites de espera
que foi passando
acariciando
meu coração
pelos tempos
atemporais
pelos instantes
inexoráveis
carícia
como
recordar o ar dançando
num jardim tranqüilo
enquanto um passarinho
toma banho de  poeira
na tarde que recita as frases
de amor ainda não ditas
vogais adormecidas
canções solúveis
perfumando
o jardim
com
a hora
de chegares
como
o mimo
de um dia
te ler num poema
onde uma palavra  miúda
te faz surgir por inteira
como um dia
solto no tempo
marcado
para
te
encontrar
e te
amar
e eu nunca estou
quando o amor vem
e, então, fica esta saudade
de mim
e de ninguém
uma saudade
eterna
mente
terna
mente
eternamente
é terna
como um poema livre
brincando com palavras
prestes a desabar
e
ter
na
mente
e acabar

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toada do amanhecer

Segue pela aléia de tílias marchetadas
entoa tua voz
para que ela polvilhe
a neblina espessa do antigo espelho
solitário
avivando as imagens dos poemas no devir
Espera a tarde que zumbe
as cores delirantes do crepúsculo
como um sol tombado
morrendo sob o manto da noite
amarrado aos passos ébrios
do dia que escorre pelas vidraças como um regato
úmido de brancos e carmins
Segue teu caminho de pedras laceradas pela aspereza dos teus nãos
Abranda teu olhar no amor
no grito da vida
na canção flamante da ternura
Acalenta a lua semeando o momento anterior
erguendo-se antiga sobre a vida ressequida
num céu de nuvens rotas
descosidas
Amealha para ti os astros da noite que te velam à beira do caminho
Acolhe a solidão imanente das estrelas
e seus mistérios cintilantes
e seus prantos lívidos
coruscando seus olhinhos silenciosos e profundos sobre ti
Cria teus mundos como se ainda fosses o anjo cálido que habita o teu coração
Segue o sonho que a tua poesia te sugere
assim como um girassol curva-se e segue a luz que o anima
E, então, a aurora dissolverá os véus da noite
que se desmanchará
apertando contra o peito o renascer da Eternidade
sem se ver
olhos fechados
jardim de estrelas tiritantes
réstias de luzes entregando-se ao azul do dia
sideral
oirado pelas luzes da manhã
acordando os nenúfares
sussurrando o vosso olhar
bebendo a escuridão nostálgica
tateando o perfume dos sândalos
entre os afrescos do dia que amanhece
sem gestos e sem palavras
alheio ao vosso espanto
ou a vossa indiferença
o dia
simplesmente acontece
junto com a brisa rubra soprando barcarolas
e o pé marcando contente
o ritmo do dia que amanhece
na vida que vai passando (sozinha)

terça-feira, 6 de março de 2012

Grano salis

Quando vieres da argila
e te puseres a vagar no mundo
em eterna fuga
olhos fechados
pelo níveo medo
coberto com os véus do silêncio
que se arroja em teu peito
véus que perpassam
o poente e a estrela
ecoando estranhos sons vazios
ouve a voz que te feriu
Semeia teu campo de
Amor
Sonho
Liberdade
e o infinito de tudo o mais
que pressentistes
O que procuras fora de ti
ó, homem?
se os passos do teu irmão
se as flores
as águas
os pássaros
os jardins repletos de luz
o céu
as estrelas
tua morte
são como tua Alma os vê
Contempla a vida
os enigmas e seus fantoches
encobertos pelo destino
embriagado
em esplêndidos vaticínios
Pousa teus olhos encarcerados
na fronte esguia do sol
que volteia as sombras do dia
e, junto com ele, arranca o vermelho
às baionetas e aos báculos
e faz de ti
a forja de um novo amor
que soa, ardente,
como o crepitar mudo
da Noite desnuda
sobre o peito da manhã

domingo, 4 de março de 2012

Indistinto

A tarde
Nem existia
Dentro dos dias escuros
Só havia laivos de claridade
Dentro do sortilégio das palavras escusas
Perplexas
Engolindo a luz
E o homem
Sem cores para acordar o dia
Procura entre o chão e a lua (que não via)
A sombra
Mesmo que diminuta
Dos dos sons que, em volta, ouvia
Quem é este homem
Que tateia
Em busca da lucidez?
As mãos molhadas pelas lágrimas
Na noite eterna
Que a ignorância fez
Quem é este homem que
Tateia despedaçando
O negro poço mudo?
Tateia só o medo
Dilacerado das guerras
Tateia somente o aço
De fio indistinto e sombrio
E só se apercebe
Do reflexo de si mesmo
Esquecimento 
E nostalgia
Correm rios
Esplendem flores
Voam pássaros 
Na tua noite
E não os verás
Não há olhos antigos,
Piedade,
Compaixão
Só vagos ruidos na escuridão
Em meio à noite caligem
Não há sorte
Somente o pranto
Dormitando triste
Em seus olhos de bronze
Em algum lugar fora da noite
Crepitam, trêmulas,
As chamas de um fogo
Ecoam
Ternura e vida
A brincarem
Nas espumas castas e surdas
Do dia que não veio