sábado, 17 de março de 2012

Silêncios

Ania, ouve
é o silêncio
estará sozinho?
pega o papel
a caneta
ouve
nas dobras
das horas
a quietude
da noite
desenha
tuas palavras
bonitas
pra eu ler
nosso silêncio
inefável
a nossa voz
incompleta
a ausêndia
queimando aos poucos
os nosso passos
que ainda não partiram
poemas são como
abraços
não precisam de voz
só precisam de nós
para afagar
c carícia esquecida
no gesto
nas palavras
mudas
fortes
delicadas
guardadas nos lábios
presas na escuridão

Ania,
escreve
tuas palavras
dentro
do meu coração?

quinta-feira, 15 de março de 2012

Poema aberto

Pela noite colorida
             incendiada

pelos olhos verdes
                    da lua

pelo poema aberto
                 à deriva

pela fogueira rubra
              da solidão

perpassa o perfume
           do teu nome

o perfume distraído
             do teu colo

pudesse eu olhar os
               teus olhos

naus do antigo porto
                 indistinto

olhos que espero e que
                 não chegam

espero os teus lábios
           doces de afeto

espero a manhã para
     acordar tua nudez

uma manhã distante
              inacabada

a manhã que deita
              sobre nós
sussurando poesia

que florescerá
                      sobre o branco
sobre a silhueta do
                              dia

                       (Ania Poesia)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Poema III (para Ania)

Nossas palavras e gestos tão
quietos
Nossos olhos que adormecem nas tardes como os
girassóis
Nossos lábios que dizem sílabas e sons
solitários
Nosso peito a pulsar dentro de versos lindos, meigos
e tristes
como o pungente olhar perdido nas fogueiras acesas
no meio da noite
queimando a vida
logrando enganar as lágrimas
tão só nossos estes soluços
Nossas mãos singelamente entrelaçadas sobre
o nada
Nossos pés a caminhar pelo momento que
escorre
e que me levou até você
e que te trouxe pra mim
Nossa capacidade de acalanto esquecida entre nossos medos e
a eterna sombra
Nossa sede de encantamento e do passo pro abismo inelutável
que é a vida
Por tudo isto, Ania
Te encontrar, amiga minha, nesta tênue esquina do tempo
de memórias furtivas
onde descansam meus sapatos de nuvens
onde passo a limpo meus sonhos de outrora
sonhos onde me escondo desde criança
te encontrar foi encontrar estes tantos sonhos na noite
terna
         doce lembrança
         onde a diáfana luz da lua iluminava teus olhos esverdeados de
         menina
O minuano, cingido aos teus cabelos,
deita à madrugada perfumes de roseirais
Me diz, Ania, me diz, em quantos outros milênios brevissímos já nos
encontramos?
E por quanto tempo vivemos a solidão inacessível da primeira
estrela?
Os dias e os anos caindo gota à gota sobre as nossas pálpebras
cerradas
sobre a nossa espera
num monótono ping-ping
lavando a mudez do eco luzindo na madrugada
Ania, que importam as estrelas se não vejo os teus olhos
na infinda amplidão dos campos de trigo?
Verdes castanhos
Verdes cativos
Como a haste do trigo que ainda não maturou 
Teus olhos são o princípio da saudade que eu sinto ontem
e que me leva pelas linhas inconstantes da tua boca ternura
bruma
somente
E se a saudade tem teu nome brincando no meio da rua
pés descalços
vestido de alcinhas?
E se é flor o teu nome?
Olhos de jade, as saudades se enchem com as nossa lágrimas
Ania, deita-te aqui no meu peito
Vem ouvir tanto luar
de uma noite que mora e medita na minha melancolia
nascida da tristeza nos olhos da ensimesmada avozinha
que me diz de sombras e véus do passado que os pássaros
trarão
Ai de mim, Ania, que sou só lembranças
dos tempos que ainda virão

Imagem: Rosely Siebert

terça-feira, 13 de março de 2012

Algumas vogais

Um dia destes
quando os rios
retorcidos
talhados em brasa
passarem à tua porta
desenhando poemas
eternamente vadios
nas folhas secas
de um outono
saido dos teus pincéis
lembra que meus olhos
ainda não te viram
e tudo que fazem é sonhar-te
Vê, Ania, que o vento leva
pra longe o que eu escrevo
o que me escreves
Sabes, Ania,
nos rios morrem os portos
morre um céu que humanamente
anoitece
morrem os sonhos
que o tempo não soube tramar
Ania, Ania,
teu nome me chama rindo
da minha noite mal dormida
Tua poesia fica um tempo
me olhando
como os olhos de Deus
como os olhos da vida
saudosamente
leves
eternos
como os teus versos
doce poetisa

segunda-feira, 12 de março de 2012

Elegia

Houve tempo em que eu voava
E não era poéticamente que eu voava
Que quando eu voava eu nem sabia o que era poesia
Que o meu vôo era a poesia
Que aquela criança estranha que voava era poesia
Hoje eu pressinto que era assim
Que a poesia nos olha com um olhar inefável da criança que fomos
Ou que continuamos a ser
Apesar desta luz artificial esvaindo-se lentamente da lâmpada leitosa e fria
E que é pelos olhos da poesia que o mundo começa a fazer sentido
Só que naquele eu tempo eu não sabia
Naquele tempo o mais espetaculoso que eu fazia era voar
Não era sempre que eu voava
Era de vez em quando
À noite
Eu só voava à noite
Não me pergunte por quê
Lá em casa tinha um destes baús enormes
De alças nas laterais onde pode-se guardar desde roupas
Caraminholas, leviatãs, pente de cabelo, recordações
A faixa branca da primeira comunhão, o medo da danação
Até os sonhos, que aparentemente, não nos servem mais
Pois bem, nas noites em que me dava na veneta de voar
Minha rampa de lançamento era este baú
Era de cima do baú que que me projetava ao espaço
E voava
Voava inequivocamente
Como só pode e sabe voar um pirralho informe
Que nasceu comendo barro
E que sai do barro pra dentro das mãos de um céu de escura moldura
Pintalgado de estrelas azulzinhas como uma prece
E era lindo ver o bairro dormindo
Com suas ruas embaralhadas e amarelecidas pelas luzes nos postes afogados pela luz da lua
Eu gostava de ver lá de cima as luzes dos postes
Aquelas carreiras de pontinhos amarelos como velas acesas olhando a lua passar
Na noite dispersa
Na hora extrema das casas
Assimétricas
Repousando na noite quieta
Onde repousam os passos que carregam os dias pra lá e pra cá
A casa da dona Luiza
De tijolo à vista (não por estética, mas, sim, por falta de dinheiro para acabar a construção)
Com seu quintal encantado
Suas árvores frutíferas
As galinhas
Seu encantado porão onde moravam mistérios
Clandestinos fantasmas
Que habitavam o porão naquele mundo impálpavel
A casa de dona Luiza era, para nós crianças, o verdeiro Caminho Suave para o Egito e a Babilônia
Via, também, a coberto das nuvens mais baixas, a casa de dona Rosa
Que era um luxo pra mim e pras minhas carências de quase tudo
Casa grande de vários quartos
Tinha tv... planta carnívora a nos atrair para a sua cilada
Os móveis... vários e  donos de tantos sonhos riscados a dedo na lama depois das chuvas
Mas, nemhum era páreo para o relógio cuco
De cima das minhas chinelas quase sempre em frangalhos
Eu ficava, estático, olhando o cuco marcar as horas
O meu mundo suspenso diante daquele som de bronze: cuco, cuco, cuco...
Lá de cima dava até pra ver a minha casa
Pequenina e irreparavelmente hermética na sua impotência de nos fazer parar de rir
Antes do choro convulso diante de mais uma criança debruçada sobre os olhos úmidos da dor
Enorme e inesquecível como são os sonhos e as esperanças de uma criança que voa
E que tem bolinhas de gude e piões no lugar do coração
A minha casa era de uma pobreza inata e devidamente atestada pelo poder público
Ou pelo público poder
Dá na mesma
Miséria não escolhe burocracias
Pode-se dizer que é fruto da mesma
Mas isto não vem ao caso
Estou voando
E quando vôo o mundo é perfeito
Não há misérias nem tristezas que me tire das alturas
Há só o silêncio noturno do vento passando em volta
Dos redemoinhos da minha infância
Um adjetivo que veio atraido pela luz dos postes lá embaixo
Me acompanha por um bom pedaço do vôo: deslumbrado...
Eu e ele
Pairando sobre as vidas
E dissolvendo com as mãos lançadas a frente a frágil escuridão solitária da madrugada
Em mim persiste a lembrança de ver lá de cima o campinho de futebol
Tão tranquilo em sua prateada geometria
Da onde se desprende um grito de gol de cada menino descalço que por ali passou
Da onde corre a lépida bolinha de gude quando não tem jogo de futebol
Infinito bairro de Americanópolis
Uma flor que subiu ao mundo a esperar por mim
Suas ruas suspensas, impensadas
Escolheu pra mim a rua Maria
A rua que era Maria  e que atravessou a minha infância e a minha vida
A rua Maria de Lurdes coexiste em mim até hoje
E quando choro é pra lá que eu vou
Como um filho a devassar  a tristeza transida trazida pelo vento
Nunca contei a ninguém que eu voava
Contar pra que?
Ninguém ia acreditar
E ainda era capaz de eu perder o "dom" de voar
Eu não sei dizer quanto tempo estes vôos duraram
Mas até hoje sinto o encanto e o espanto de que um dia voei
E lastimo que já não posso voar
Não é que eu não possa
Poder eu sempre pude
Mas, eu desaprendi
E tenho muita pena de mim mesmo
Pena do meu menino por ter lhe privado de avoar por aí
O tempo tornou-se enfadonho
Um tempo em que tudo é oleografia
Assim como a chuva que se repete todo dia,
Na mesma hora
No mesmo lugar
Chuva e suspeições aos cântaros
Chuvas longas estas
Porém raras
Atônitas
São chuvas em preto e branco
Minúcias solitárias dos meus dias
Desta certeza indubitável que um dia hei de partir
Assim como cheguei:
Sem saber da onde vim
Sem saber pra onde vou
Este será meu último vôo?
Não sei
Eu desaprendi de voar e não pus nada no lugar
Não aprendi mais da vida do que o que vi das janelinhas dos meus trens de lata
E não tenho certeza se vou me lembrar do meu último vôo um dia
Mistérios
E teimosia
Pergunto se tudo é engano
Que vai esfarelando
O tempo e a poesia

A lua e o dia

Acabou-se a noite
Já está lá fora um dia perpassando
Um céu azul clarinho
Persuasivo
Que a manhã faz, mas não diz
Azul cantata
Barcarola
Com doces versos azuis ritmados
Pra lua que não foi embora
E se aquece
E se esquece ao sol
E busca meus olhos para se sentir desejada
A lua, ardente de insônia,
Tremeluzindo amor no silêncio
Dos negros passarinhos
Que deixam as árvores assim que a manhã abre as janelas do dia
Faz do dia um rascunho de poema
Que vai deixando de ser poema enquanto escrevo
Com os meus olhos ensimesmados de sonhos
Cativos de uma dor
Ou de um medo
Sólido
Como a minha solidão
A solidão da lua
Ou a solidão do soneto que não fiz
Letra a letra
Como um veneno suave
Impregnando lembranças que não existem
Saudades que eu nunca quis

domingo, 11 de março de 2012

Luz de vela

Luz de vela
acende-se no céu a primeira estrela
a tarde é um retrato 3x4
colorido
num céu tendendo a lilás
num fim de tarde de abril
pendoado
Além da estrela de olhos abertos
olhos de menina que se acendem na prata da lua
arde a chama da vela
bruxuleante
ornada pelo ruído crepitante
do silêncio com que se queima
sob um céu furta-cor
escorre-lhe a parafina
assim como quem chora
uma lágrima quente e constante
como quem chora
uma insofismável saudade de si
assim como a onda indo embora do rochedo
A noite se apascenta dos últimos raios de sol
Tão longe a madrugada
e seus cantares
sabores da poesia brotando
deusa emprenhada do dia
e suas nuanças de cor
parece um verso...
é dor!
E a poesia?
a poesia se declama
e se derrama
e me lambuza todo o tempo
A poesia espia
bem dentro do meu olhar
nas tarde de sílabas sibilares
na tarde e seu andar de anjo da guarda
e sua multidão de cores adejando o olhar da noite
A poesia espia as palavras que moram nas ruas
e nos ares silenciosos
moram na chuva miúda
num reino muito falante
é só parar pra ouvir
o diz-que-me-diz-que arfante
entre estes silêncios de agonia
Há palavras que ouvi das velas acesas da infância
nas noites sem energia elétrica
quando o céu era um truque
todo ornado de estrelas
e a gente acendia as velas que embalavam nossos corações
e a nossa imaginação
As palavras das velas se riam de si e de mim
bamboleando ao rítmo da brisa
meu coração tremia completamente nu
sob a indiferença das chamas
E eu ficava ali, sentado,
ouvindo o que a chama da vela tinha pra me dizer
pensando no que ela dizia
intensamente
colhendo estrelas cadentes
como se fosse a primeira vez que me despiam dos meus fantasmas
O tempo compulsivamente passando por mim
queimando o redundante ruído do tagarelar da mente
queimando a vela
e acendendo sonhos
que devagarinho
encheram-me a vida de luares
que o vento na chama desenhou
e nunca mais fiquei sozinho