segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ausência


Vou me ausentar do blog, por tempo indeterminado, para participar de concursos de poesia.

A criação, preparo e encaminhamento dos poema para os concursos é algo que demanda dedicação integral e tem, também, a imposição da maioria dos concursos de só aceitarem material inédito, não podendo ter sido publicado anteriormente nem em blogs, portanto, o que estou fazendo agora vai tudo para os concursos ou para um "banco" de poemas a serem utilizados para este fim.

Sendo assim, agradeço a todos que vêm me acompanhando aqui no blog este tempo todo.

Um grande abraço a todo(a)s.

Como um até logo deixo o texto abaixo que não é meu, mas que eu gostaria que fosse.

Hokusai

Desde os 6 anos
que eu tinha a mania de desenhar
a forma das coisas.
Quando eu estava com 50 anos,
tinha publicado uma infinidade de
desenhos;
Mas tudo que produzi antes dos 70
anos de idade não é digno de ser
levado em conta.
Aos 73 anos aprendi um pouco
sobre a verdadeira estrutura
da natureza,
dos animais, plantas, pássaros,
peixes e insetos.
Em consequência,
quando estiver
com 80 anos de idade
terei realizado mais e mais
progressos;
aos 90,
penetrarei no mistério das
coisas;
aos 100,
por certo terei atingido uma fase
maravilhosa,
e quando tiver 110 anos de idade,
qualquer coisa que eu fizer, seja
um ponto ou uma linha, terá vida.

Escrito aos 75 anos de idade por
mim,
outrora chamado Hokusai,
hoje Gwakio Rojin, o velho louco
por desenhar.

Waly Salomão
In Poesia Total. Pags. 217/218. Editora Companhia das Letras. 2014.


Eu vou, mas eu volto... Não sei quando, mas eu volto.

Espero que seja antes dos 110 anos.

Beijos!!! (Para as meninas) Abraços!!! (Para os meninos)

Ou vice-versa, ou tudo junto, tanto faz.

domingo, 17 de maio de 2015

Súplica


Pai,

perdoai a nossa inércia

assim como nós perdoamos

a quem nos tem debicado

não deixeis cair o parco pão

no chão conspurcado

pela nossa apatia

e pela nossa "candura"

livrai-nos dos néscios

e da submissão

Amém

sábado, 16 de maio de 2015

Recordações


na tela
branca do computador
sem riscos de rasuras e rasgos
provoca-me
este dilema
de coabitar
com a palavra urdida em barro
do qual comi
e que me nutriu
tímido moleque com uma fome aguda
e insopitável
no meio do nada
do pó
ignorado pela vida (frágil fio)
tão nua e depauperada como eu
como o terreiro abastado de nada
que não me matou por pura condescendência
como a existência encardida
pela poeira voejante e vermelha
entrando pelos cabelos
imiscuindo-se com a pele
torrentes deletérias
pejadas de sentidos ignotos
e sons conspícuos
cativos e patéticos
encerrando numa bola de fogo
vermelha
a tarde entrecortada de penumbras
que a noite vem imolar

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Vadiagem da luz


Sob um sol vermelho alcaloide
um galo antropoide dá o aviso
e nasce mais um dia para a vadiagem da luz
a névoa veste a manhã com trajes
de gaze, organdi e celuloide
os pássaros pousam nas árvores arcaicas e gentis
pipilam tanta melodia
trinam várias fantasias orvalhadas
que a madrugada pôs nas pétalas e no sossego do dia
os pássaros sacodem tremores para debicar o orvalho
se enroscam na neblina hesitante
na paisagem acesa pelas primeiras luzes
no vai e vem da ponte sobre o rio
por onde caminham o vento e o pranto pequeno
de um pequena vida cujas lembranças cabem
 nas linhas da palma da mão

o dia se esquece no trilar dos pássaros
enche a vida de retóricos sons
um cão ladra para um tempo antigo
demasiado antigo para que um outro cão responda
ladra sem entender a manhã
cotonadas pelas nuvens nuas
que não envelhecem
indiferentes ao tempo que passa pálido
sem sequer existir
envelhecendo e envilecendo
o homem e o seu drama
que não entende o engodo das horas
e seus sofismas
e seus combates irracionais
e o medo do que virá com a noite

a manhã levanta-se do verde mar
a brisa traz o aroma salgado da maresia
o horizonte começa a se incendiar delicadamente
enquanto a madrugada não se acaba
nada que soe como um segundo sequer
nem o ruído dos minutos
nenhum estrondo de horas
o tempo pingando em âmbulas
rangendo espicaçado em relógios
não existe

os pássaros cantam para os poetas
e para as folhas que só deixaram a ausência
caídas no quintal do poeta
sem pressa
sem ruído
sem estrondos ao passar do tempo
com poeiras pingando sol
querendo ser as virtuoses canções
tocadas por uma criança em seu tambor de lata
cantam para as suas palavras silenciosas,
pudentes e nuas
num céu cotonado de maio
num céu sem telhados
por onde entram os anjos penitentes
etereamente despidos
num céu azul pendoado e profundo
orvalho pendendo das flores
os pássaros cantam canções
apascentando o meu mundo

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Alma seca


A alma vagando ao léu, dentro de escura prisão, sufoca dolentes suspiros

apaga os pássaros
e a manhã já não canta da brisa a sua canção

apaga as flores no jardim
e as cores de entre os canteiros se vão

apaga a lua lasciva
e a noite adeja por sobre a sesmaria da ilusão

apaga a vida
e a quimera que a sustinha desvela-se em escuridão

apaga o amor
e a tristeza perambula nos adros da solidão

apaga a compaixão
e as dores dirigem-se à ponte e atiram-se às águas, sem remissão

apaga o poema
e evolam-se os versos rabiscados e insontes no mundo, como rosa em botão

e, por fim, apaga a si mesma
e torna a mística quimera
rosa impressentida brotando na escuridão

Profano


na rua antiga e sozinha caminham os ventos
manchados pelo vermelho
das vozes aflitas
das multidões deambulantes
assenta o pó impalpável
da incerteza
e voa
o voejar descompassado
e vagaroso
esvoaçando no ar pesado da tarde
esgueirando-se pelas nuvens úmidas
prestes a chorar
suspirando em meio aos jardins ditosos
derrubando folhas das árvores
nos lagos angustiando  os outonos
com remorsos de todas as folhas do mundo
revolvendo infâncias
gira a terra e os basculhos da rua
em opacos rodamoinhos

caminham os ventos
tirando chapéus
desarrumando cabelos onde antes havia uma flor
pulsando belezas como o coração que estremece com a gente
no tremeluzir  fluído das palavras e da impermanência
os ventos descem das árvores
levam suas forças ao chão
giram o destino,
o segredo,
giram o redemoinho
repete,
por mero hábito,
sacudir quintais,
saudades
e desencontros
caminham,
levando o dia encardido pela mão
o tempo se ri do ventos
o tempo não existe
bem feito!
as folhas fogem
as nuvens escondem memórias
cuidadosamente denodadas
os ventos e seus mistérios
como vieram se foram
e a rua voltou a ser
a rua da vida inteira

na rua antiga, agora,
como fuga para os olhos
como missa e oração
só caminham o homem,
o tormento
e seu cão
magérrimos todos
antigos
passos insontes
passado, desde sempre, querendo morrer
um morte provisória
interrigna
sem interessar mais aos caminhos
a morte poderia vir do rio
da dor que sobe e desce no peito
do seu naco de fome
do progresso do país
que quanto mais cresce
menos o vê
podia morrer da indiferença
do sono no papelão
cama pra dois
ele e o cão
podia morrer antes que a minha retórica pedante o alcançasse
inexoravelmente
comovida
e profana
destino de bicho
almoço no lixo
um pão urdido de pedra
num mundo feito de fome
severo
e pobre
para aqueles que já nasceram mortos
e vagueiam em degredo por uma vida que não é deles
mas é preciso fazer o caminho
fechar a porta do medo
para si e para o cãozinho
deglutir até o fim o que os deuses
por bem resolveram brinda-lo
alheios à morte
única verdade que nos chama todos os dias
comamos osso e pedra
ou a mais fina iguaria

Fosse


fosse o vento este mantra
que recita sons como rouxinóis
poemas sem asas
seria anagrama metafísico da sempre mesma solidão

fosse o mantra este silêncio no tempo
entoado como augúrio pelas nuvens rubras e suas chuvas lilases
comovendo as palavras que deslindam o poeta e os seus versos vãos
seria a intangível canção do Ângelus soando na tarde como oração

fosse o silêncio o adejar das asas de uma borboleta
em sua plena singeleza e sua inefável estesia
evocando flores na varanda onde a tarde dormia,
sorvendo sonhos e pensamentos do dia
seria o som das letras roçagando a página em branco,
esperando a inebriante voz do poema acontecer

fosse a borboleta o signo primordial e holístico da existência da alma
e o vento trouxesse a transparência da sombra e o aroma dos lilases
trouxesse a imponderável sentença de morte imanente à existência
seria o consumir-se inopinado do fogo aceso e o fumo espiralado
que evola-se da candeia impregnada de devir que é a vida