
terça-feira, 17 de maio de 2016
Passado
sopram os ventos
a aurora acorda sobre as flores
[sobre as cores
a canção encontra lembranças
a alma suspira e recorda
tantos momentos da infância
todas aquelas crianças
que fui
em meio ao perfume doce de terra molhada
que sou
em meio ao inverno silencioso andando na madrugada
o amor...
quem sabe um dia
se derramará no deserto
[decerto
do meu coração
e ouvirá o silêncio
se desmanchando em perdão
e os sonhos abandonados
por tanto tempo guardados
em tantos lugares incertos
em meio à solidão
virão de lugares tão longe
e se deixarão ficar
níveas flores de algodão
a noite compassadamente fecha os olhos
[e dança
seus passos ritmados de escuro
a madrugada é a derreada lembrança
de um tempo infrangível e maduro
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Quano a palavra chegar
a janela começa ali
onde o horizonte junta-se ao mar
trazendo lágrimas salgadas
pra dentro do meu olhar
trazendo tanta promessa
e noites todas sem pressa
abrindo-se bem devagar
o sonho começa ali
onde o eterno ilumina os mundos
e o sonho tem os saberes
dos meus desejos profundos
a vida começa ali
onde o amor junta-se ao amar
e o sentimento parece
água que vai me afogar
trazendo a flor partilhada
entre o espinho e o nada
entre o escuro e o luar
a poesia começa ali
onde o tempo junta-se aos mundos
onde o eterno junta-se ao mar
onde os barcos deixam as velas
como inefáveis telas
abertas e soltas pra navegar
quando a palavra chegar
domingo, 15 de maio de 2016
A tolice dos medos
desnudo
caminho estradas de cinzas
com passos de ilusão
em noites de ausência e de solidão
o vento incerto traz o passado
põe nossos instantes ao meu lado
estremeço
espero a noite percorrer-me
dizendo teu nome
recordando teus gestos
dizendo do teu toque na minha pele
onde ainda habita os teus dedos
entre lembranças
segredos
sob insones sentidos
sob a tolice dos medos
sábado, 14 de maio de 2016
Nada detêm a fera
nada detêm a fera
nem o grito estrondoso
nem o soco vigoroso
nem a tocaia da espera
nem o latejar da veia
nem o rosnar dos cães
nem a litania das mães
nem a nossa cara feia
nem a luta cotidiana
nem os muros que erguemos
nem toda a força que temos
nem o fio da durindana
nada detêm a fera
nem mesmo o asco do povo
nem mesmo a Verdade e o Novo
nem mesmo o fogo e a Quimera
nada detêm a fera
nada detêm a trapaça
do golpe no sonho da massa
ignorando o sol nas flores da praça
nada desata a mordaça
da estória e seu patrão
oprimindo os que não tem pão
com a verborragia e a farsa
nada detêm a fera
e a sua malta vadia
apagando a luz do dia
enquanto a manada espera
nada,
nada como esta lei do cão
que anda de traição em traição
neste mambembe país
onde tudo está por um triz
terça-feira, 10 de maio de 2016
Falo do tempo
falo do tempo
e do engodo do tempo
e da posse do tempo
e dos gestos do tempo
como se soubesse do momento do abandono
do minuto sedento
bebendo os dias vazios de canções
espiando as horas nas noites inúteis
devolutas
falo do tempo
como os homens falam de si
como os sussurros falam dos ventos nas madrugadas
como o cicio pensa músicas em minha boca
e a noite fala de tudo
falo do engodo do tempo
e do desespero incessante do tempo
agoniando a incontornável existência
enchendo de ânsia e mistério
os fragmentos esparsos da vida
falo da posse do tempo
e da distância esquecida nos caminhos
sinuosamente cansados
estertorantes e tristes caminhos
longos como os longos dias perpassados de solidão
e o lamento da vida passando incontida como os pensamentos
falo dos gestos do tempo
e aqui as flores nascem
a estrela cintila
a lua dança nos ventos
o amor semeia mundos
a ausência faz suspirar
o outono quer germinar
e o sentimento balança
como as ondas do mar
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Nascentes
vesti de ausências as noites
o avesso da lua
a lágrima derradeira
adormeci
sem nome que me acalentasse
sem palavra que me embalasse
apenas o escuro infatigável
é urgente
apenas o engano do tempo
mata-me
apenas o segredo e o silêncio dos nascentes
reverberam a ternura do orvalho nos lagos de águas magoadas
apenas o teu nome pergunta por mim
no meu poema
enquanto na folha de papel
misturo letras indecifráveis
garatujas doloridas
ajuntadas com as mãos trêmulas da madrugada
enquanto as velas dos barcos
esperando do vento o grito
dentro da névoa das manhãs
são sombras brancas
gravando de saudades o infinito
Imagem: Claude Monet
domingo, 8 de maio de 2016
Estrangeiro
e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória falsa dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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