quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ternura

Dorme, em algum canto do mundo, a Ternura verdadeira,
em meio a fitas de cor, afetos, divagações.
Dorme a Ternura entre amigos,
entre abraços repousados,
sem receios,
nem temores...
Dorme a Ternura numa gaveta secreta,
num céu azul de janeiro,
numa manhã de neblina,
olorosa, suspendida,
por uma aurora cor de rosa
Dorme a Ternura em jardins,
em flores de âmbar,
no debruado das pétalas pressentidas,
no exílio branco da rosa inefável
A ternura dorme no lírio,
noivo da Alma
Adormece nas tardes alheadas,
nos olhos dos girassóis
Dorme a Ternura da Vida aninhada na flor da cerejeira,
entre poemas dúbios que a minha Alma sonda
nas espiras voláteis que alçam-se do sândalo ao ar
Dorme a ternura nas rendas das ondas
que ardem ao ócio do mar,
no vôo airoso da gaivota
Dorme, em algum canto do vento, a Ternura verdadeira

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Última chamada

Hoje vivem em mim todos estes sonhos esparsos que as noites depositaram em meus braços lentamente
Vive esta fragilidade impotente de saudades rumorosas maiores do que as noites,
imensas como o inominável negrume bailando imprecisamente entre as estrelas
que caminham junto ao silêncio das palavras sem movimento,
escravas de um único sonho que dorme
Por escusos motivos dei-me a tristezas
Monotonia do tempo passando sem ter um lugar onde eu pudesse dizer: "isto sou eu"
Lívidos medos selados adejando das folhagens transtornando as horas com sons e mistérios
Hoje sonham em mim a menina das Fortaleza e três palavras que lhe disse: "eu te amo"...  
mas acho que ela não acreditou,
ou não as ouviu, por ser tarde demais,
por ser longe demais o indefinido momento de abraçá-la
Por já ter passado o tempo do amor em seu coração
Talvez não tenha entendido o significado insuportável das três palavras
Quem sabe?
Quando eu fui embora os rios vazavam em sorvedouros os cheiros da sua pele
Meus olhos a acompanharam de longe no rigoroso inverno que se tornou o vasto saguão do aeroporto
Nos perdemos no saguão do aeroporto ou foi a tristeza que nos separou para que eu pudesse chorar sem que ela visse?
O tempo passou por mim e deixou esta inefável bilha de melancolia onde antes havia um olhar
Não tenho mais tempo para as dores que estremecem: choro
Choro o choro calado e seco, orvalhado e tonto de tanta sofreguidão
E aflijo-me olhando a tarde entristecer despegando-a de mim
Meus olhos já não a vêem,
mas meu corpo tece a tez e os traços de tudo que nela eu amo
Antigamente...
Antigamente era outro tempo que atravessa a minha vida a dar risadas góticas,
a escancarar o amarelo de certas palavras que doem dentro de mim,
palavras como afeto, carinho, atenção, cuidados e desbotada e puída pelo tempo e pelo uso a palavra "saudade"
Saudade...
Escrita assim parece doce.
Tem som de doce sendo comido às lambidinhas
Tem visgo de doce borbulhando dentro do tacho
Tem cheiro inocente de doce entremeado às mãos da criança a juntar barro
Tem a vida e a morte faiscando indubitáveis jardins de olhos voltados para ontem
Verte no ar o verde cheiro da chuva
E tudo mais sob o céu recende à solidão

domingo, 23 de outubro de 2011

Flutua

Na tua ausência, onde jasmins adormecem, tudo flutua
Flutuam teus olhos oblongos
Tua boca carmesim
Flutuam teus passos adocicados
Flutuam, mas não te trazem pra mim
 
 
Flutuam as manhãs de afagos e carinhos
Flutuam as noites de murmúrios e cuidados
Flutua a nívea flor entre poemas no jardim
A flor que vive sozinha
Sozinha... ai, por que vive assim?
 
 
Na saudade que sinto de ti tudo flutua
Flutuam meus sonhos cheios de poesia e você
Flutuam os aromas de ânsia e de benjoim
Flutua o Destino reverberando o Universo
Flutua o Destino, mas não te traz para mim
 
 
Flutua a lágrima em meus olhos solitos
Flutua a tua voz sobre a sombra quieta do amor
A noite flutua um chamamento sem fim
Chama a noite o sentimento que vive tão só
Sozinho... ai, por que vive assim?
 
 
Na lembrança do que não vivemos tudo flutua
Flutuam os instantes esquecidos no que não pôde existir
Flutuam os insensíveis beijos cansados, enfim
Flutua o amor sozinho nas cores da madrugada
Sozinho... ai, que triste, já esquecestes de mim?
 
 
Tudo flutua... soprado na brisa que anda à solta,
porém nada se mexe,
nem teu perfume...
nem a minha saudade.
 
 
 
Imagem: Olga Sinclair

sábado, 22 de outubro de 2011

Manhã


Quando a manhã surge equilibrando-se por sobre a aurora e os sonhos recendendo à noite e à lua
meu primeiro pensamento é teu
pensamento que o raio de sol borda na névoa acesa que cobre os telhados
a escrever teu nome em cinco sentidos sonhado
pelos negros olhos macios da madrugada
e corro a ver para além do céu recém molhado de azul
os teus olhos,
sonhos entreabertos na sombra leve entre as pétalas do silêncio e os amarelos da aurora
onde um sino oscila e dobra aos sons transparentes das palavras e do meu sentimento,
aonde pássaros cantam dedilhando o instante... tão devagar...
momento efêmero e tão frágil
deixando na auréola do dia palavras que são só tuas
e que eu não posso te entregar,
perdido ramalhete de rosas orvalhado de distância,
te aguardando em meu coração
para além deste tempo ritmado,
para além dos tênues traços curvilíneos da ilusão.
A noite, quando perpassa o céu com suas sensíveis cantigas,
sussurrando teu nome à minha alma,
diz que posso te esperar
a lua que vai passando por aqui tão devagar,
mansamente, a caminho de outros céus...
de tardos mares...
de Fortalezas,
reflete vastidões e singelezas
espargindo em mim o vulto da tua lembrança
e o vulto da tua lembrança em mim também é você
Você...
úmida rosa,
lírio de ausência,
sândalo ao vento...
por quem espero no rastro das estrelas que enlaçam a noite trêmula,
por quem espero em caminhos extintos
revirados de ânsia e de saudades por onde vim
Por quem espero para que venhas gostar de mim...
                                                  ...e que leve-me contigo.
Imagem: Olga Sinclair

sábado, 21 de maio de 2011

Tempo


Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos.

Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho.

Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino.

O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração.

Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele.

Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência

Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minha própria dor.

Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão.

Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz.

Ah! o Tempo...
           este instante precário e denso, cativo e  imanente,
           onde a alma flamejante engendra o engano de existir.


Imagem: Olga Sinclair

sábado, 14 de maio de 2011

Na primeira manhã

Na primeira manhã

Alceu Valença


Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como um bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos
Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão.

sábado, 7 de maio de 2011

O doce mistério da vida




 

Alberto Caeiro

Num Meio-Dia de Fim de Primavera


Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar