Querida amiga,
aos ventos deste mês de março
neste primeiro e lindo dia de outono
onde a luz do sol colhe uma flor canora e bela pra te dar
neste primeiro e lindo dia de outono que não se pode aprisionar
entre azuis madrigais e arpejos de estações aladas
a poesia se sacia entre/mentes
Enquanto no final da tarde
os pássaros voltando pros ninhos
uns em bandos
outros sozinhos
fazem da vida solidão
um inverno
os fragmentos de uma noite
ou será mera ilusão?
folha seca
vento inerte
gesto mudo
em tua mão
Alguém pergunta se queres
viver as garatujas do passado?
se queres ser a personagem que alguém te atribuiu?
se queres arder na fogueira onde queima tua agonia?
A cadência rotineira das folhas caídas pela manhã acende os dias
acende as consciências
nas cúmplices madrugadas eloqüentes
de voz doce e macia
onde o trova/dor
em silêncio
solidário
cala
um poema solitário
pungente
prenhe
de sonhos
insone
insano
ingente
por mil razões escondido
sob pedras na correnteza
de um rio
que verseja silente
este outono poesia
que deita
folhas secas dentro da gente

quarta-feira, 21 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
Poema manuscrito
Semeia as tuas palavras
pequenos grãos
de uma poesia
tão só
tão tua
soando
a silêncio
de uns olhos castanhos
esverdeados
Ausentes
Noturnos
Ígneos
Amoráveis
Lindos
Estetas
Prismas
Poéticos
nuas
e úmidas
as palavras
matam
nossa sede
pendendo
uma
a
uma
da espuma
da nossa ânsia
onde
o tempo
cai
sem resposta
só
o
silêncio
a gota de orvalho
o acaso
entendem
o que eu não sei
te dizer
o abraço
singelo
e premente
que não te dei
o beijo
que se perdeu
nos campos
ingênuos
para além do rio
e do labirinto
inquieto
das lembranças
na tua cama
o silêncio
infindo
é
um poema
manuscrito
no teu corpo
não declamado
sem voz
um poema
que ficou
ecoando
no grito inócuo
ecoando
nos espelhos quebrados
do dia a dia
que nos traduzirá
dentro em breve
dizendo
o reflexo
aflito
do quanto não somos
inconscientes
que estamos
da nossa irredutível
evanescência
ígnea
Poetisa, lança teu poema à terra
deita teus olhos entre as estrelas
esvazia a tua taça
e embebeda de sonhos
a tua alma menina
Dá-me teu pé
para o beijo
disse à flor o jardim
flertando
com a incompletude
da evolação
da vida
e seu velho tema
pequenos grãos
de uma poesia
tão só
tão tua
soando
a silêncio
de uns olhos castanhos
esverdeados
Ausentes
Noturnos
Ígneos
Amoráveis
Lindos
Estetas
Prismas
Poéticos
nuas
e úmidas
as palavras
matam
nossa sede
pendendo
uma
a
uma
da espuma
da nossa ânsia
onde
o tempo
cai
sem resposta
só
o
silêncio
a gota de orvalho
o acaso
entendem
o que eu não sei
te dizer
o abraço
singelo
e premente
que não te dei
o beijo
que se perdeu
nos campos
ingênuos
para além do rio
e do labirinto
inquieto
das lembranças
na tua cama
o silêncio
infindo
é
um poema
manuscrito
no teu corpo
não declamado
sem voz
um poema
que ficou
ecoando
no grito inócuo
ecoando
nos espelhos quebrados
do dia a dia
que nos traduzirá
dentro em breve
dizendo
o reflexo
aflito
do quanto não somos
inconscientes
que estamos
da nossa irredutível
evanescência
ígnea
Poetisa, lança teu poema à terra
deita teus olhos entre as estrelas
esvazia a tua taça
e embebeda de sonhos
a tua alma menina
Dá-me teu pé
para o beijo
disse à flor o jardim
flertando
com a incompletude
da evolação
da vida
e seu velho tema
sábado, 17 de março de 2012
Silêncios
Ania, ouve
é o silêncio
estará sozinho?
pega o papel
a caneta
ouve
nas dobras
das horas
a quietude
da noite
desenha
tuas palavras
bonitas
pra eu ler
nosso silêncio
inefável
a nossa voz
incompleta
a ausêndia
queimando aos poucos
os nosso passos
que ainda não partiram
poemas são como
abraços
não precisam de voz
só precisam de nós
para afagar
c carícia esquecida
no gesto
nas palavras
mudas
fortes
delicadas
guardadas nos lábios
presas na escuridão
Ania,
escreve
tuas palavras
dentro
do meu coração?
é o silêncio
estará sozinho?
pega o papel
a caneta
ouve
nas dobras
das horas
a quietude
da noite
desenha
tuas palavras
bonitas
pra eu ler
nosso silêncio
inefável
a nossa voz
incompleta
a ausêndia
queimando aos poucos
os nosso passos
que ainda não partiram
poemas são como
abraços
não precisam de voz
só precisam de nós
para afagar
c carícia esquecida
no gesto
nas palavras
mudas
fortes
delicadas
guardadas nos lábios
presas na escuridão
escreve
tuas palavras
dentro
do meu coração?
quinta-feira, 15 de março de 2012
Poema aberto
Pela noite colorida
incendiada
pelos olhos verdes
da lua
pelo poema aberto
à deriva
pela fogueira rubra
da solidão
perpassa o perfume
do teu nome
o perfume distraído
do teu colo
pudesse eu olhar os
teus olhos
naus do antigo porto
indistinto
olhos que espero e que
não chegam
espero os teus lábios
doces de afeto
espero a manhã para
acordar tua nudez
uma manhã distante
inacabada
a manhã que deita
sobre nós
sussurando poesia
que florescerá
sobre o branco
sobre a silhueta do
dia
(Ania Poesia)
incendiada
pelos olhos verdes
da lua
pelo poema aberto
à deriva
pela fogueira rubra
da solidão
perpassa o perfume
do teu nome
o perfume distraído
do teu colo
pudesse eu olhar os
teus olhos
naus do antigo porto
indistinto
olhos que espero e que
não chegam
espero os teus lábios
doces de afeto
espero a manhã para
acordar tua nudez
uma manhã distante
inacabada
a manhã que deita
sobre nós
sussurando poesia
que florescerá
sobre o branco
sobre a silhueta do
dia
(Ania Poesia)
quarta-feira, 14 de março de 2012
Poema III (para Ania)
Nossas palavras e gestos tão
quietos
Nossos olhos que adormecem nas tardes como os
girassóis
Nossos lábios que dizem sílabas e sons
solitários
Nosso peito a pulsar dentro de versos lindos, meigos
e tristes
como o pungente olhar perdido nas fogueiras acesas
no meio da noite
queimando a vida
logrando enganar as lágrimas
tão só nossos estes soluços
Nossas mãos singelamente entrelaçadas sobre
o nada
Nossos pés a caminhar pelo momento que
escorre
e que me levou até você
e que te trouxe pra mim
Nossa capacidade de acalanto esquecida entre nossos medos e
a eterna sombra
Nossa sede de encantamento e do passo pro abismo inelutável
que é a vida
Por tudo isto, Ania
Te encontrar, amiga minha, nesta tênue esquina do tempo
de memórias furtivas
onde descansam meus sapatos de nuvens
onde passo a limpo meus sonhos de outrora
sonhos onde me escondo desde criança
te encontrar foi encontrar estes tantos sonhos na noite
terna
doce lembrança
onde a diáfana luz da lua iluminava teus olhos esverdeados de
menina
O minuano, cingido aos teus cabelos,
deita à madrugada perfumes de roseirais
Me diz, Ania, me diz, em quantos outros milênios brevissímos já nos
encontramos?
E por quanto tempo vivemos a solidão inacessível da primeira
estrela?
Os dias e os anos caindo gota à gota sobre as nossas pálpebras
cerradas
sobre a nossa espera
num monótono ping-ping
lavando a mudez do eco luzindo na madrugada
Ania, que importam as estrelas se não vejo os teus olhos
na infinda amplidão dos campos de trigo?
Verdes castanhos
Verdes cativos
Como a haste do trigo que ainda não maturou
Teus olhos são o princípio da saudade que eu sinto ontem
e que me leva pelas linhas inconstantes da tua boca ternura
bruma
somente
E se a saudade tem teu nome brincando no meio da rua
pés descalços
vestido de alcinhas?
E se é flor o teu nome?
Olhos de jade, as saudades se enchem com as nossa lágrimas
Ania, deita-te aqui no meu peito
Vem ouvir tanto luar
de uma noite que mora e medita na minha melancolia
nascida da tristeza nos olhos da ensimesmada avozinha
que me diz de sombras e véus do passado que os pássaros
trarão
Ai de mim, Ania, que sou só lembranças
dos tempos que ainda virão
Imagem: Rosely Siebert
quietos
Nossos olhos que adormecem nas tardes como os
girassóis
Nossos lábios que dizem sílabas e sons
solitários
Nosso peito a pulsar dentro de versos lindos, meigos
e tristes
como o pungente olhar perdido nas fogueiras acesas
no meio da noite
queimando a vida
logrando enganar as lágrimas
tão só nossos estes soluços
Nossas mãos singelamente entrelaçadas sobre
o nada
Nossos pés a caminhar pelo momento que
escorre
e que me levou até você
e que te trouxe pra mim
Nossa capacidade de acalanto esquecida entre nossos medos e
a eterna sombra
Nossa sede de encantamento e do passo pro abismo inelutável
que é a vida
Por tudo isto, Ania
Te encontrar, amiga minha, nesta tênue esquina do tempo
de memórias furtivas
onde descansam meus sapatos de nuvens
onde passo a limpo meus sonhos de outrora
sonhos onde me escondo desde criança
te encontrar foi encontrar estes tantos sonhos na noite
terna
doce lembrança
onde a diáfana luz da lua iluminava teus olhos esverdeados de
menina
O minuano, cingido aos teus cabelos,
deita à madrugada perfumes de roseirais
Me diz, Ania, me diz, em quantos outros milênios brevissímos já nos
encontramos?
E por quanto tempo vivemos a solidão inacessível da primeira
estrela?
Os dias e os anos caindo gota à gota sobre as nossas pálpebras
cerradas
sobre a nossa espera
num monótono ping-ping
lavando a mudez do eco luzindo na madrugada
Ania, que importam as estrelas se não vejo os teus olhos
na infinda amplidão dos campos de trigo?
Verdes castanhos
Verdes cativos
Como a haste do trigo que ainda não maturou
Teus olhos são o princípio da saudade que eu sinto ontem
e que me leva pelas linhas inconstantes da tua boca ternura
bruma
somente
E se a saudade tem teu nome brincando no meio da rua
pés descalços
vestido de alcinhas?
E se é flor o teu nome?
Olhos de jade, as saudades se enchem com as nossa lágrimas
Ania, deita-te aqui no meu peito
Vem ouvir tanto luar
de uma noite que mora e medita na minha melancolia
nascida da tristeza nos olhos da ensimesmada avozinha
que me diz de sombras e véus do passado que os pássaros
trarão
Ai de mim, Ania, que sou só lembranças
dos tempos que ainda virão
Imagem: Rosely Siebert
terça-feira, 13 de março de 2012
Algumas vogais
Um dia destes
quando os rios
retorcidos
talhados em brasa
passarem à tua porta
desenhando poemas
eternamente vadios
nas folhas secas
de um outono
saido dos teus pincéis
lembra que meus olhos
ainda não te viram
e tudo que fazem é sonhar-te
Vê, Ania, que o vento leva
pra longe o que eu escrevo
o que me escreves
Sabes, Ania,
nos rios morrem os portos
morre um céu que humanamente
anoitece
morrem os sonhos
que o tempo não soube tramar
Ania, Ania,
teu nome me chama rindo
da minha noite mal dormida
Tua poesia fica um tempo
me olhando
como os olhos de Deus
como os olhos da vida
saudosamente
leves
eternos
como os teus versos
doce poetisa
quando os rios
retorcidos
talhados em brasa
passarem à tua porta
desenhando poemas
eternamente vadios
nas folhas secas
de um outono
saido dos teus pincéis
lembra que meus olhos
ainda não te viram
e tudo que fazem é sonhar-te
Vê, Ania, que o vento leva
pra longe o que eu escrevo
o que me escreves
Sabes, Ania,
nos rios morrem os portos
morre um céu que humanamente
anoitece
morrem os sonhos
que o tempo não soube tramar
Ania, Ania,
teu nome me chama rindo
da minha noite mal dormida
Tua poesia fica um tempo
me olhando
como os olhos de Deus
como os olhos da vida
saudosamente
leves
eternos
como os teus versos
doce poetisa
segunda-feira, 12 de março de 2012
Elegia
Houve tempo em que eu voava
E não era poéticamente que eu voava
Que quando eu voava eu nem sabia o que era poesia
Que o meu vôo era a poesia
Que aquela criança estranha que voava era poesia
Hoje eu pressinto que era assim
Que a poesia nos olha com um olhar inefável da criança que fomos
Ou que continuamos a ser
Apesar desta luz artificial esvaindo-se lentamente da lâmpada leitosa e fria
E que é pelos olhos da poesia que o mundo começa a fazer sentido
Só que naquele eu tempo eu não sabia
Naquele tempo o mais espetaculoso que eu fazia era voar
Não era sempre que eu voava
Era de vez em quando
À noite
Eu só voava à noite
Não me pergunte por quê
Lá em casa tinha um destes baús enormes
De alças nas laterais onde pode-se guardar desde roupas
Caraminholas, leviatãs, pente de cabelo, recordações
A faixa branca da primeira comunhão, o medo da danação
Até os sonhos, que aparentemente, não nos servem mais
Pois bem, nas noites em que me dava na veneta de voar
Minha rampa de lançamento era este baú
Era de cima do baú que que me projetava ao espaço
E voava
Voava inequivocamente
Como só pode e sabe voar um pirralho informe
Que nasceu comendo barro
E que sai do barro pra dentro das mãos de um céu de escura moldura
Pintalgado de estrelas azulzinhas como uma prece
E era lindo ver o bairro dormindo
Com suas ruas embaralhadas e amarelecidas pelas luzes nos postes afogados pela luz da lua
Eu gostava de ver lá de cima as luzes dos postes
Aquelas carreiras de pontinhos amarelos como velas acesas olhando a lua passar
Na noite dispersa
Na hora extrema das casas
Assimétricas
Repousando na noite quieta
Onde repousam os passos que carregam os dias pra lá e pra cá
A casa da dona Luiza
De tijolo à vista (não por estética, mas, sim, por falta de dinheiro para acabar a construção)
Com seu quintal encantado
Suas árvores frutíferas
As galinhas
Seu encantado porão onde moravam mistérios
Clandestinos fantasmas
Que habitavam o porão naquele mundo impálpavel
A casa de dona Luiza era, para nós crianças, o verdeiro Caminho Suave para o Egito e a Babilônia
Via, também, a coberto das nuvens mais baixas, a casa de dona Rosa
Que era um luxo pra mim e pras minhas carências de quase tudo
Casa grande de vários quartos
Tinha tv... planta carnívora a nos atrair para a sua cilada
Os móveis... vários e donos de tantos sonhos riscados a dedo na lama depois das chuvas
Mas, nemhum era páreo para o relógio cuco
De cima das minhas chinelas quase sempre em frangalhos
Eu ficava, estático, olhando o cuco marcar as horas
O meu mundo suspenso diante daquele som de bronze: cuco, cuco, cuco...
Lá de cima dava até pra ver a minha casa
Pequenina e irreparavelmente hermética na sua impotência de nos fazer parar de rir
Antes do choro convulso diante de mais uma criança debruçada sobre os olhos úmidos da dor
Enorme e inesquecível como são os sonhos e as esperanças de uma criança que voa
E que tem bolinhas de gude e piões no lugar do coração
A minha casa era de uma pobreza inata e devidamente atestada pelo poder público
Ou pelo público poder
Dá na mesma
Miséria não escolhe burocracias
Pode-se dizer que é fruto da mesma
Mas isto não vem ao caso
Estou voando
E quando vôo o mundo é perfeito
Não há misérias nem tristezas que me tire das alturas
Há só o silêncio noturno do vento passando em volta
Dos redemoinhos da minha infância
Um adjetivo que veio atraido pela luz dos postes lá embaixo
Me acompanha por um bom pedaço do vôo: deslumbrado...
Eu e ele
Pairando sobre as vidas
E dissolvendo com as mãos lançadas a frente a frágil escuridão solitária da madrugada
Em mim persiste a lembrança de ver lá de cima o campinho de futebol
Tão tranquilo em sua prateada geometria
Da onde se desprende um grito de gol de cada menino descalço que por ali passou
Da onde corre a lépida bolinha de gude quando não tem jogo de futebol
Infinito bairro de Americanópolis
Uma flor que subiu ao mundo a esperar por mim
Suas ruas suspensas, impensadas
Escolheu pra mim a rua Maria
A rua que era Maria e que atravessou a minha infância e a minha vida
A rua Maria de Lurdes coexiste em mim até hoje
E quando choro é pra lá que eu vou
Como um filho a devassar a tristeza transida trazida pelo vento
Nunca contei a ninguém que eu voava
Contar pra que?
Ninguém ia acreditar
E ainda era capaz de eu perder o "dom" de voar
Eu não sei dizer quanto tempo estes vôos duraram
Mas até hoje sinto o encanto e o espanto de que um dia voei
E lastimo que já não posso voar
Não é que eu não possa
Poder eu sempre pude
Mas, eu desaprendi
E tenho muita pena de mim mesmo
Pena do meu menino por ter lhe privado de avoar por aí
O tempo tornou-se enfadonho
Um tempo em que tudo é oleografia
Assim como a chuva que se repete todo dia,
Na mesma hora
No mesmo lugar
Chuva e suspeições aos cântaros
Chuvas longas estas
Porém raras
Atônitas
São chuvas em preto e branco
Minúcias solitárias dos meus dias
Desta certeza indubitável que um dia hei de partir
Assim como cheguei:
Sem saber da onde vim
Sem saber pra onde vou
Este será meu último vôo?
Não sei
Eu desaprendi de voar e não pus nada no lugar
Não aprendi mais da vida do que o que vi das janelinhas dos meus trens de lata
E não tenho certeza se vou me lembrar do meu último vôo um dia
Mistérios
E teimosia
Pergunto se tudo é engano
Que vai esfarelando
O tempo e a poesia
E não era poéticamente que eu voava
Que quando eu voava eu nem sabia o que era poesia
Que o meu vôo era a poesia
Que aquela criança estranha que voava era poesia
Hoje eu pressinto que era assim
Que a poesia nos olha com um olhar inefável da criança que fomos
Ou que continuamos a ser
Apesar desta luz artificial esvaindo-se lentamente da lâmpada leitosa e fria
E que é pelos olhos da poesia que o mundo começa a fazer sentido
Só que naquele eu tempo eu não sabia
Naquele tempo o mais espetaculoso que eu fazia era voar
Não era sempre que eu voava
Era de vez em quando
À noite
Eu só voava à noite
Não me pergunte por quê
Lá em casa tinha um destes baús enormes
De alças nas laterais onde pode-se guardar desde roupas
Caraminholas, leviatãs, pente de cabelo, recordações
A faixa branca da primeira comunhão, o medo da danação
Até os sonhos, que aparentemente, não nos servem mais
Pois bem, nas noites em que me dava na veneta de voar
Minha rampa de lançamento era este baú
Era de cima do baú que que me projetava ao espaço
E voava
Voava inequivocamente
Como só pode e sabe voar um pirralho informe
Que nasceu comendo barro
E que sai do barro pra dentro das mãos de um céu de escura moldura
Pintalgado de estrelas azulzinhas como uma prece
E era lindo ver o bairro dormindo
Com suas ruas embaralhadas e amarelecidas pelas luzes nos postes afogados pela luz da lua
Eu gostava de ver lá de cima as luzes dos postes
Aquelas carreiras de pontinhos amarelos como velas acesas olhando a lua passar
Na noite dispersa
Na hora extrema das casas
Assimétricas
Repousando na noite quieta
Onde repousam os passos que carregam os dias pra lá e pra cá
A casa da dona Luiza
De tijolo à vista (não por estética, mas, sim, por falta de dinheiro para acabar a construção)
Com seu quintal encantado
Suas árvores frutíferas
As galinhas
Seu encantado porão onde moravam mistérios
Clandestinos fantasmas
Que habitavam o porão naquele mundo impálpavel
A casa de dona Luiza era, para nós crianças, o verdeiro Caminho Suave para o Egito e a Babilônia
Via, também, a coberto das nuvens mais baixas, a casa de dona Rosa
Que era um luxo pra mim e pras minhas carências de quase tudo
Casa grande de vários quartos
Tinha tv... planta carnívora a nos atrair para a sua cilada
Os móveis... vários e donos de tantos sonhos riscados a dedo na lama depois das chuvas
Mas, nemhum era páreo para o relógio cuco
De cima das minhas chinelas quase sempre em frangalhos
Eu ficava, estático, olhando o cuco marcar as horas
O meu mundo suspenso diante daquele som de bronze: cuco, cuco, cuco...
Lá de cima dava até pra ver a minha casa
Pequenina e irreparavelmente hermética na sua impotência de nos fazer parar de rir
Antes do choro convulso diante de mais uma criança debruçada sobre os olhos úmidos da dor
Enorme e inesquecível como são os sonhos e as esperanças de uma criança que voa
E que tem bolinhas de gude e piões no lugar do coração
A minha casa era de uma pobreza inata e devidamente atestada pelo poder público
Ou pelo público poder
Dá na mesma
Miséria não escolhe burocracias
Pode-se dizer que é fruto da mesma
Mas isto não vem ao caso
Estou voando
E quando vôo o mundo é perfeito
Não há misérias nem tristezas que me tire das alturas
Há só o silêncio noturno do vento passando em volta
Dos redemoinhos da minha infância
Um adjetivo que veio atraido pela luz dos postes lá embaixo
Me acompanha por um bom pedaço do vôo: deslumbrado...
Eu e ele
Pairando sobre as vidas
E dissolvendo com as mãos lançadas a frente a frágil escuridão solitária da madrugada
Em mim persiste a lembrança de ver lá de cima o campinho de futebol
Tão tranquilo em sua prateada geometria
Da onde se desprende um grito de gol de cada menino descalço que por ali passou
Da onde corre a lépida bolinha de gude quando não tem jogo de futebol
Infinito bairro de Americanópolis
Uma flor que subiu ao mundo a esperar por mim
Suas ruas suspensas, impensadas
Escolheu pra mim a rua Maria
A rua que era Maria e que atravessou a minha infância e a minha vida
A rua Maria de Lurdes coexiste em mim até hoje
E quando choro é pra lá que eu vou
Como um filho a devassar a tristeza transida trazida pelo vento
Nunca contei a ninguém que eu voava
Contar pra que?
Ninguém ia acreditar
E ainda era capaz de eu perder o "dom" de voar
Eu não sei dizer quanto tempo estes vôos duraram
Mas até hoje sinto o encanto e o espanto de que um dia voei
E lastimo que já não posso voar
Não é que eu não possa
Poder eu sempre pude
Mas, eu desaprendi
E tenho muita pena de mim mesmo
Pena do meu menino por ter lhe privado de avoar por aí
O tempo tornou-se enfadonho
Um tempo em que tudo é oleografia
Assim como a chuva que se repete todo dia,
Na mesma hora
No mesmo lugar
Chuva e suspeições aos cântaros
Chuvas longas estas
Porém raras
Atônitas
São chuvas em preto e branco
Minúcias solitárias dos meus dias
Desta certeza indubitável que um dia hei de partir
Assim como cheguei:
Sem saber da onde vim
Sem saber pra onde vou
Este será meu último vôo?
Não sei
Eu desaprendi de voar e não pus nada no lugar
Não aprendi mais da vida do que o que vi das janelinhas dos meus trens de lata
E não tenho certeza se vou me lembrar do meu último vôo um dia
Mistérios
E teimosia
Pergunto se tudo é engano
Que vai esfarelando
O tempo e a poesia
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