domingo, 15 de abril de 2012

O circo

Ficou no campinho de terra dos anos 60/70 o circo
entre risos de uma alegria macia que enchia a vida do bairro
e que fluia no ar pelos remendos da lona esgarçada
Ficou nos longos pés do palhaço Pururuca
a jogar no público, assustado, baldes de confete
a expectativa de um banho de água que acabava em confetes
Como um gesto tão simples podia nos sacudir de tanto rir?
Ficou na face fascinante dos leões e seus rugidos
que nos prendiam às tábuas da arquibancada
o esquecimento das feras que habitavam a vasta pobreza
O domador e seu chicote de estalo que fazia qualquer bicho obedecer
o que dizer de mim
cada estalo eu me encolhia como se fosse em mim
aquele leão bem que podia ter se rebelado
para apagar de mim aquele sobressalto ao estalo do chicote
na escuridão entalada dentro de mim
estilhaçando o relâmpago nos meus olhos
Olhos girando junto com as motos no globo da morte
A voz, um fiozinho branco no coração apertado
em cada volta das motos
que se cruzam
e se perpassam
tão rentes
tão próximas
que a custo mantemo-nos nas arquibancadas
e ai de quem piscar os olhos
pode perder a manobra mais radical da tarde
pode perder a oportunidade de ajuntar no abismo do desconforto
o som da tarde rarefeito nos rumores dos motores
enquanto uma vida se faz aqui dentro divergente da que se faz lá fora
sob os lares fortuitos onde se debruçam as crianças nas esquinas do medo 
Restam as arquibancadas dançando ao som da pouca bandinha
A respiração presa no vôo dos trapezistas
A tarde quente roubada à sensualidade das pernas das bailarinas
Moleque não presta
Moleque não pode ver pernas de mulheres nestes anos 60/70
E no final do espetáculo tinha as lutas de telecatch
Os Reis do Ringue
A molecada toda delirava com os golpes dos lutadores
O bem, o tempo todo, à mercê do mal
mas no fim, sob os olhos atentos dos leões e nossos,
o bem triunfava
A aquibancada delirava naqueles anos 60/70

Ficou no país do ame-o ou deixe-o um gosto de sangue
de membros quebrados a estocadas
Ficou nos caminhos manchados de pólvora onde gravitavam
fuzís e feras trajadas de ternos
qual varejeiras verde-oliva
Ficaram os porões escuros onde a vida se derramava junto com a água suja das latrinas
Nos anos 60/70 lutava o bem contra o mal sem se saber quem era quem
Lutava-se em nome da pobreza e da agonia
e os mortos daí resultantes não foram lembrados num fantasmagórico mistério surreal
E a pobreza e a agonia, deitada em berço esplêndido, sonhava com futebol, carnaval e bunda de fora e cachaça
Não tinha tempo nem jeito para identificar e cinjir o brutal sono dos justos
Tudo um grande silêncio mantido sob as solas dos coturnos
um grito sufocado no capítulo da novela
Nos anos 60/70 vivíamos o nosso Gulag que mastigava e engolia pessoas inteiras sem deixar nenhum vestígio
Mas por que me comovo com estas histórias?
Tinha-se futebol o ano inteiro
Carnavais e mulatas que eu nunca namorei
A cachaça estava quase de graça
Por que sofrer se as manhãs e as tardes e as noites ordinárias traziam o aroma da brisa
e os cadáveres não deixavam nem cheiro?
Houve uma tristeza em 66 que só quando me afasto do espelho percebo
enquanto a arquibanda de miseráveis delirava naqueles anos 60/70
Ficaram nos anos 60/70 o meu sorriso de menino e a dor lacinante do facho aceso da ignorância nos recônditos da minha casa onde a tarde roxa se dissolvia na minha saliva e nas minhas lágrimas
porque eu chorei quando o chicote estalou em mim
e se esvaía lá no fundo a minha vontade de viver
Ficou em meu coração de 60/70 a dor que eu nunca soube dizer
a dor que eu nunca pude entender
e que ficou zoando dentro de mim
tonitruando nos meus dias e nas minhas noites
pulsando em fome
delirando em poemas que eu não sabia
adormecendo na história do Patinho Feio
primeiro livro
que incendiou minha mente e deixou esta sensação de eu ser outro
e nunca mais eu fui o mesmo
e nunca mais eu me achei
nem nunca mais me deixaram dormir
agora cochilo sobre os joelhos
e ainda choro a outra metade da dor

sábado, 14 de abril de 2012

Girassóis

A tarde chove sobre os telhados
trazida pelos ventos que arrastam
nuvens pra debaixo das telhas
manchadas pelos rios
debruçadas sobre a vida
escondendo constelações
que se amontoam
nas platibandas
no céu tingido de cinza
onde estrelas viajam a milhares de quilômetros por hora
expandindo o Universo
no mesmo instante em que uma criança morre
diante da minha indiferença
como um sonho que se acabou
como um aprendizado
sob a chuva passando por aqui
neste exato momento
apagando nos caminhos que andei
o som e o cheiro da poeira dos meus passos
tanto caminhei em direção ao mar
e mergulhei nas suas águas o amplo dissentir
que traçou tão fundo a minha vida
tantas mortes
tantas vidas
vividas diante dos espelhos
onde se calam os meus silêncios
e as vozes do que fui
a imagem no espelho não sou eu
nada diz dos momentos irrrefletidos
dos meus tormentos noturnos
nada diz dos ecos irrefletidos da minha alma
que ressoam na tarde
ressoam no tempo nu
em meio a um campo de flores
e gavetas repletas de imgens desbotadas
que molham o sol onde me vejo
em cada aurora canora
em que a flauta mói o rumor dos pássaros
vestindo a árvore de negro e marulhos
na eternidade que a manhã vaza em dourados
bibelôs de vento e bruma
e se acaso
na chuva da manhã o sol se apagasse
dentro da sua própria vertigem
dentro do labirinto de ferro das nuvens
negando a sua própria existência?
e se acaso
no tardar lento do dia a criança morresse
pelas ruas da sua vida pequena
de desamor
de abandono
um cão sem dono
sem palavras que a definam
o seu (des)gosto (asco?) pela vida
sem afeto?

Definham minhas palavras que nada dizem
diante de tanta dor
Minhas palavras almoçam e jantam
Minhas palavras riem com meus lábios
a matraquear em meio ao espanto da solidão
enquanto a criança morre
despida de vida
nas ruas a sua prisão
lenta
nos bueiros e vãos
da cidade de merda
ratos
baratas
e esta pústula a lhe cobrir o corpo
é o que lhe coube

No fim de tarde tendendo a dourados e vermelhos
olho da minha sacada
do alto dos meus oito andares
onde moro
e pressinto: a vida é uma roda morrente e inelutável!!!

Só sinto falta de girassóis para chorarem comigo

Imagem: Bernadette Triki

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Aonde eu estaria

Acordo,
Penso em você
Penso aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
se meus braços não tivessem
enlaçado a tua cintura e os teus gestos?
Aonde eu estaria se meus olhos ainda soluçassem
a tua ausência e o teu silêncio
e a minha boca passasse as estações
sorvendo o mel que era a tua primavera?

Ainda é abril na clausura das rosas
nos regatos consumidos pela nudez das tardes
pela solitude dos ventos
Ainda é segredos na inexorabilidade do outono
que se desdobra sob o céu cinzento
aonde inexprimiveis pássaros cantam bacarolas
e a vida se esquece cheia de encanto
Ainda é demora a palavra que te conhece
e que ainda arde em minha pele quando a brisa passa
vermelha e cobre e diz teu nome junto à minha janela

Penso...
Aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
se o amor é vasto e louco
e basta apenas um pouco
destas àguas afogadas no esquecimento
como um rio engolido pelo mar
para eu lembrar do teu rosto nos poemas que leio
na poesia oculta (longe)
num tempo de pássaros e flores
nas manhãs ondulando ao vento nos beirais dos dias

Aonde eu estaria
neste dia e nesta hora
barco sem vela
mares demorados
areias ancoradas ao destino
olhos cansados
as mãos presas ao passado
que envelhece interminavelmente

Não me procures
esquece-me dentro dos espelhos
na praia anoitecida
no silêncio
despido de perguntas
ocultanto sílabas
cortando o ar
não me digas adeus
não te despeças
não me diga seus motivos
que a palavra pode ser dura
a palavra magoa e fere
e lenitivos não têm a menor valia

Esquece-me
que escolhi morrer com os versos
numa madrugada
alastrada de ternura
verde-água...
poesia

Imagem: Georges Barbier

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Maria

Há poesia no instante oculto
por este outono de abril
ameno
sob os ventos coloridos
das tardes ermitãs
há os pássaros que cantam
os finais de tarde que
entram pelas portas e
janelas
e já não se pode apagar
o horizonte traçado a giz
incendiado em vermelho
onde caem sóis atrás dos montes
incriados
dos seios dóceis da terra
enquanto o azeviche da noite
envolve o desamparo do dia
e brinca com o teu nome,
Maria
das tantas noites de estrelas
dos teus passos esquecidos
nos ruídos da noite
e entram pela minha janela
oferecendo teu corpo
que escorre pela minha cama,
Maria
por entre a febre do meio das tuas pernas
despindo meus quinze anos
despindo tua calcinha vermelha
teu perfume de rosas
tua boca mastigando as palavras
antes de dizê-las para o quarto
morrendo do teu gosto
teu corpo a me perguntar se gozei,
Maria
pergunta, Maria...
diz, Maria...
novamente
os indecifráveis nomes
do meu corpo no teu corpo
que o tempo passou sem teus olhos,
sem teus abraços,
sem nossos lençóis,
o tempo passou, Maria,
fazendo de tudo um passado
guardado em velhas gavetas,
inacabado em tanto amor
que quando lembro de ti, Maria,
já não te chamo pelo nome,
te chamo de minha flor
Maria,
a vida era tão pura entre os teus seios,
origamis de seda e de tule
carícias de beijos
que o tempo tornou lembrança
que o tempo passou,
Maria,
e trouxe tuas coxas,
trouxe teus lábios,
trouxe teus braços
trouxe teus olhos negros
teus negros cabelos
negros, negros, negros
como as nossas noites
feitas de sonhos girando
nos teus beijos de mulher
desejos roubados
de uma vida qualquer
faces no espelho
mentiras,
te perdi novamente...
...

No fim de tudo este silêncio
cansaço
palavras que o murmúrio escondeu
paixão nos poucos anos que eu tinha
Maria,
quando lembro de ti
no fim de tudo
eu sinto um carinho imenso
ficou as flores que nunca te dei
apressado que eu estava
para me arvorar um passado
onde eu pudesse viver minha nostalgia,
Maria.
Agora são 23 horas e 38 anos depois
Cada dia passou como o seu tom de saudade
às vezes tão lentos
às vezes com pressa
conforme seja gelo
ou seja fogo
o meu coração
que ainda é teu,
Maria
Tudo tão imperfeito
a vida afastou você de mim,
mas não te tirou dos meus sonhos,
do meu peito
inocência
amor guardado em canduras
vento soprando brisas em teus cabelos
brumas encobrindo a ausência
berço noturno,
cama,
linho,
Maria,
teu perfume é o temo de espera
nas madrugadas sem ti
do teu corpo fiz as margens
deste rio que volteava o teu mar
onde pus a navegar os meus bracos
como criança diante do encanto das águas
e como se desconfiasse que partias,
tu ias
Mar/ia.
E o meu medo
e o rumor dos teus passos
emudeceram a noite em um silêncio,
sílaba por sílaba,
insustentável
como a palavra angustiada
que eu tentei te dizer
mas que ficou só pra mim
olhando pela janela evasiva
que te trazia pra mim
Maria,
pra que rimar um amor tão antigo
se já não há mais janelas
e o passado dispensa salamaleques?
Maria,
tô indo embora
em meio a madrugada...

Eu menti,
Maria,
eu menti...

Imagem: Marta Wiley

domingo, 8 de abril de 2012

Sob a noite

O olhar encantado
sonhando estrelas
dentro das noites
beslicando a vida
que bem longe demora
é assim que uns dias vêm
e outros vão embora
tudo que vem depois
entre um escuro
e uma aurora
são imagens que daqui de dentro
são as pressagas das daí de fora
Os finais de tarde
naquela rua Maria eram
o colo onde Deus dormia
e dos seus sonhos
bebia-se a água da sede
de vida e de poesia
deste fim de tarde
pousado neste fim de dia
onde os girassóis,
sufocados pela noite,
esbatem as cores das horas
deste sol primevo
das flores deste regaço de abril
Onde deixei minha infância?
Onde deixei os meus passos?
E a lama...
Onde deixei?
E a lama dos meus passos?
Meus passos de menino,
um sonho de Deus
O sonho de um final de tarde
com seu vermelho hermeneuta,
sua palavra sem excedentes
Brilha no olhar do homem
a primeira estrelinha
Brilha sobre a miséria do homem
a estrela que sai do hálito azul da tarde
e pulsa confundindo o coração do homem
Sob a noite,
o olhar encantado,
o homem sonha estrelas
sem saber que a estrela já brilhou
fora da Caverna de Platão,
onde alheio à vida só se vive de ilusão
Já brilhou e brilhará
para reis e generais,
proxenetas,
miseráveis,
banqueiros e
prostitutas
Brilha, levemente, no fundo da taça
onde bebemos, felizes,
a cicuta nossa de cada dia
Brilha a estrela na noite dos
teus esplendentes olhos negros
reverberando no arfar do mundo
a alegria das flores abertas
Agora,
enquanto a constelação,
pássaro azul,
faz-se em poesia
ronda a tua sombra quente,
o teu corpo nu,
nus os teus olhos negros,
a tua fome nua,
Maria

Imagem: Julius Bissier

sábado, 7 de abril de 2012

Adeus

A lua
cheia
pintada de amarelo puído
encardido
passeia num céu colorido
de um outono roubado
aos canteiros
de papel
onde escrevi o teu nome
onde escondi minhas lembranças
e onde a tua falta
murmura o que você nunca disse
diz um poema
de estrelas medievais
me conta ilusões à toa
guarda um segredo
um medo
em meio às flores no ar
canta a tua canção
dois dedos de meiguice
numa madrugada
teus olhos chegam de mansinho
e se vão antes que para os sonhos
tudo seja tarde demais
e teu nome nos meus lábios
seja um adeus
mudo adeus
nada mais

Imagem: Wassily Kandinsky

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Flores no ar

Não há encanto nas flores
nesta manhã que estremece,
que não me pertence,
esta manhã sem você
imóvel,
longeva
e distante
Entre sóis,
tempo
e espaço,
há a insônia do silêncio
que já faz parte de mim
e da minha pergunta
que me lembra sempre você
minha flor ausente,
cambiante
alegoria de um sonho gasto
que se enredou em mim
minha fuga feita de palavras
e rasbiscos que escapam das minhas mãos
trêmulas,
furtivas como o passado
O vento, em fuga,
apaga a bruma que o sol
vai tecendo,
seca o orvalho
na face das flores,
tece ausências
no longo percurso que a noite urdiu
até se dissolver na manhã lilás,
calada,
talhada em vapores azuis
como um casulo do mar
que entra pelo espelho latejante
e pretérito da minha solidão
Fecho os olhos
e o mar e o dia e o sol
são apenas borrões flamejantes
nesta manhã transparente
ao som do mar que bate na pedra solitária
e queima a imagem náufraga no espelho
onde sou um e sou vários
onde as minhas faces medram em meio às faces no espelho
ecos insonoros do mar vazio
sombra e luz
verdade e mentira
se movem no fogo em que ardo
Arde o fogo do sol
na minha face de nácar
como se o dia nunca tivesse me visto
como se a vida fosse apenas uma pausa
entre dois sonhos
e o nascer um despertar
dentro de um instante finito,
ilusório labirinto
onde a minha alma é essência
e a vida...
eterna ausência
Ausência de caminhos,
permeados de poesia,
assim, calados
sem falar de ti
ausência roubada de mim
vida e versos roubados ao grito
das minhas bocas díspares
Um grito que é cintilação e beleza
outro grito que é medo e ansiedade
Noite e dia
sol e lua
a flor que entre as minhas sombras floresce
a tarde que amarelece
enquanto meu coração anseia
pelas vozes que consomem-se e ardem-se
em barcarolas
que alongam-se em velhos mares
e nos séculos escondidos por entre o vento
e um soluço de amor
Não há lágrimas no vento esta manhã
Não há lágrimas
Só há uma flor sem nome
e pétalas de nostalgia
belas e tristes
no ar