Na manhã sabendo a brasas e ao árido destino
desvelando as pedras soltas do sertão
mora a minha meninice
e os sonhos semeados na terra seca
e plangente da caatinga teimando
em ser seca e inundada de sóis
com o ar se dissovendo de quente
na iniludível sensação de que tudo, ao longe,
ondula sob a luz que alumia a casa de barro
e o terreiro crostoso
onde a vida morria silenciosa e triste
naqueles ermos de 1960
Eu comia nacos das paredes de barro da casa
e o gosto do barro esturricado
se impregnava no meu jeito de
ser menino com fome...
(e sede)
A terra rodopiando nos redemoinhos
As árvores nuas, incompreensíveis,
de mãos decepadas,
levadas pelo vento e pela poeira,
que sobe rumorejando de todos os cantos
O ar enfadado cuspindo siscos nos meus olhos
na minha pequenina sombra e vontade
avesso da vida sem arco-íris
Somente o ar ondulando
como quem se banha no fogo
pedindo às gotas salobras
de um rio que fosse, por compaixão,
saísse do seu leito
e viesse lamber o chão crestado
Ah, se um rio passasse por aqui...
pelos dias desgostosos de Itapetim...
sem serenos nem orvalhos
Destino de cada um
guardado na esperança que um dia chova
uma chuva igual à da minha imaginação
Meu irmão me chamava de "Zominho"
enquanto eu chorava, sem saber, a vida
que nem bem tinha começado
já se acabava impregnada por trás da poeira
Embaixo a poeira
em cima o solzão cavando covas com as unhas
nos dias que se arrastavam compridos
a morte marcando encontro com meu medo
Medo de que?
Medo de tudo!!!
Medo daquela casa
Cujo gosto eu levava na garganta
Medo da vida poeirenta que o tempo ia engolindo
Medo da solidão que doía e eu não sabia
porque ela não se mostrava
Éramos três sobreviventes daquela lenta agonia
minha mãe, Dema, e eu e mais uma que morreu
e que vive aqui no meu poema,
na minha voz da infância, cansada e transitória,
os dias ressequidos pela solidão...
Éramos três: minha mãe, Dema e eu...
e aqulela solidão que chorava em nossos olhos
No meio da noite a casa estalava e gemia
à passagem do vento
escorregando por debaixo da porta
acordando o silêncio
que só ouvi coisa igual quando conheci o mar
muito tempo depois
Depois de uns anos cansados e tristes
O mar virou amanhã
E cingiu-se aos meus sonhos
amagalmou-se à minha vida
como o pranto salgado que eu nem sabia chorar
e que confundia as imagens baças
do terreiro embraseado
mudando a aparência das coisas e das gentes
berço de fogo onde minguavam nossas vidas
sob nosso olhares e gestos fatigados
sem amanhãs
sem voz de sinos
sem pão
somente o tempo zanzando no nundo
tingindo de vermelho as manhãs
No fim de tarde
botando no céu um grão de lua branca,
estrelas tão sozinhas como os meus passos
descalços e vacilantes naquelas estradas sozinhas
Às vezes, adormecia chorando a fome inconsútil...
sempre aquela mesma fome que andava pelo sertão,
pelos pés de paus secos
que de noite se mostravam como espectros
se agitando nas ilusões que o vento cria
Mistério inaudito da vida e do mundo
são estas coisas do sertão,
e as lágrimas que derramei num tempo tão longe
e que como gota de vela noturna
derramam-se em meu coração
(...)
Ainda o gosto de barro seco e de ausência
Ainda a presença daquele sol urinando no sertão
em tantas manhãs sem orvalho
e tantos dias sem flor
e tantas noites
da onde saltavam infernos do chão deserto
onde só chovia os anos amarelados
pela poeira que transpassava a refração
das nuvens ígneas
que ficaram da minha infância
Imagem: Joan Miró

segunda-feira, 17 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Manhã
A manhã nasceu
por entre as nuvens branquinhas,
por entre gorjeios de passarinhos,
cheirando a cravos e rosas
que o vento roubou aos teus cabelos
É a primavera que se derrama
nos campos de mimosas flores
é o dia trazendo estórias
que um dia foram amores
e que se vão enquanto a vida queima-se
(em fria tristeza)
A manhã nasceu
em carícias azuis
cores afogadas em ilusão
dobrados em origamis
os pequenos barcos de solidão partindo dos cais
(ouves?
são as velas ao vento)
É a primavera que se derrama
no mar incerto
pressentido
de águas maduras
quando a brisa faz chorar as ondas
A manhã nasceu
calando os sonhos que falavam de ti
apagando as estrelas
num céu que sobreviverá a nós
nas noites ensimesmadas e andarilhas
É a primavera que se derrama
na terra do nunca
no tempo do era uma vez
sobre o jogo das cinco pedrinhas
girando, girando, como astros hieráticos
A manhã nasceu
A primavera se derrama
Gorjeiam os passarinhos
Nos campos de mimosas flores
Em carícias azuis
No mar incerto
Calando os sonhos que falavam de ti
Na terra do nunca
Mora a minha meninice
E os sonhos semeados na terra seca
E plangente da caatinga teimando
Em ser seca e inundada de sóis
Com o chão tremelicando de quente
Eu comia as paredes da casa
E o gosto do barro esturricado
Se espalhava no meu jeito de
Ser menino com fome...
(e sede)
Tudo, tudo...
é sonho e fantasia
(até a fome, até a sede)
por isso escrevo com a ponta do dedo
nas águas da lagoa
o lado avesso das palavras
e ponho-as a secarem ao vento
peregrino e ígneo
invisível
como esta farsa insofismável dos dias
que se sucedem em sombra e luz
em sim e não
andrajos da ilusão do tempo
que não existe partilhado
morrendo a cada segundo
cronometrando a loucura da vida
e das culpas inauditas
amalgamadas às lágrimas dos anos
A manhã nasceu
e pôs-se a passo no caminho
a arder em versos
a sussurrar o silêncio azul
que a aurora
despeja no som das palavras
determinando o que é flor
e o que é pedra
o que está vivo
o que é inevitavelmente morto
O impossível acorda em cada manhã...
insolente...
cândido...
onipotente...
eterno devir
Imagem: Luna Lee Ray
por entre as nuvens branquinhas,
por entre gorjeios de passarinhos,
cheirando a cravos e rosas
que o vento roubou aos teus cabelos
É a primavera que se derrama
nos campos de mimosas flores
é o dia trazendo estórias
que um dia foram amores
e que se vão enquanto a vida queima-se
(em fria tristeza)
A manhã nasceu
em carícias azuis
cores afogadas em ilusão
dobrados em origamis
os pequenos barcos de solidão partindo dos cais
(ouves?
são as velas ao vento)
É a primavera que se derrama
no mar incerto
pressentido
de águas maduras
quando a brisa faz chorar as ondas
A manhã nasceu
calando os sonhos que falavam de ti
apagando as estrelas
num céu que sobreviverá a nós
nas noites ensimesmadas e andarilhas
É a primavera que se derrama
na terra do nunca
no tempo do era uma vez
sobre o jogo das cinco pedrinhas
girando, girando, como astros hieráticos
A manhã nasceu
A primavera se derrama
Gorjeiam os passarinhos
Nos campos de mimosas flores
Em carícias azuis
No mar incerto
Calando os sonhos que falavam de ti
Na terra do nunca
Mora a minha meninice
E os sonhos semeados na terra seca
E plangente da caatinga teimando
Em ser seca e inundada de sóis
Com o chão tremelicando de quente
Eu comia as paredes da casa
E o gosto do barro esturricado
Se espalhava no meu jeito de
Ser menino com fome...
(e sede)
Tudo, tudo...
é sonho e fantasia
(até a fome, até a sede)
por isso escrevo com a ponta do dedo
nas águas da lagoa
o lado avesso das palavras
e ponho-as a secarem ao vento
peregrino e ígneo
invisível
como esta farsa insofismável dos dias
que se sucedem em sombra e luz
em sim e não
andrajos da ilusão do tempo
que não existe partilhado
morrendo a cada segundo
cronometrando a loucura da vida
e das culpas inauditas
amalgamadas às lágrimas dos anos
A manhã nasceu
e pôs-se a passo no caminho
a arder em versos
a sussurrar o silêncio azul
que a aurora
despeja no som das palavras
determinando o que é flor
e o que é pedra
o que está vivo
o que é inevitavelmente morto
O impossível acorda em cada manhã...
insolente...
cândido...
onipotente...
eterno devir
Imagem: Luna Lee Ray
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Metade sonho
As estrelas tremeluzem,
dolentes,
sob o sussurro da brisa que vem do mar
despertando lentamente entre dois silêncios,
entoando cantigas de ausência
levando consigo o que fui,
Plange o passado com sua voz de saudade
Onde está tudo aquilo que o tempo me tirou
transmudando em fantasia e soluço
o retrato que me devolvia ao ontem,
os meus livros de páginas branquinhas
aonde eu escondia os meus sonhos,
a luz pungente da tarde,
onde, os olhos negros de Pingo?
Nos fins de tarde adormecidos em puro ouro,
em azuis de solidão
murmuram os crepúsculos dos dias
aonde as flores choram
sob a chuva que enleia os brocados da tarde
envolvendo a vida em luz purpúrea,
embebido
na memória,
nas estórias
dos poetas,
na perenidade dos versos
nas estrelas,
na eternidade da lua
na palavra que escreve
o teu nome na aragem
A palavra é só som e signo
espalhados pelo vento
sobre os jardins silentes
se não embebe a emoção
e a encharca,
e a diz em voz ingênua e pueril,
dramática,
como quem diz o imenso "adeus",
como quem responde "vem"
Vem,
que os meus sonhos fazem
dos segundos incognoscíveis momentos
gotejando sobre o ondeante aroma da noite
e seus véus de névoas de linho rendados,
de ilhas que fogem embriagadas,
desta amplidão que ressoa os versos
nus que te ofereço
como a um círio iluminando
o teu silêncio...
enquanto a chuva cai
sobre as pétalas das flores que choram
murmurantes
como o suspiro do mar incontentado
como o ângelus murmurado pelo vento
nas praias desertas,
nas folhas da janela insone
como os versos de enternecida poesia
com aromas de madrugadas
e braços nus,
pele macia da ilusão,
sonho marchetado pela adaga da vida
talhando lua e estrela
na solidão da manhã tendendo a azul
que delicamente desponta
por entre retalhos de névoas e de nuvens
úmidas,
como úmidos são os olhos que não podem mais
olhar para o mar inconcluso
feito de "era uma vez",
dos papéis de seda,
de infância
e de poesia,
a mais flamante,
colhida na saudade dos teus olhos
esquecidos nas estrelas
das noites esculpidas em barro
e rimas
Suavemente a noite derrama-se sobre o poema
com seus véus de musselina
O dia não teve a menor pressa
de se fazer olvido,
passado de segredos tão sós
como as palavras antes de pousarem
em tessitura nos versos
do meu monólogo fremente
O ocaso inscreve seu traço negro
apagando flores e espinhos na terra
desvelando a lua no céu
como se fosse uma rosa branca
brincando de solidão
nas noites em que sou ilha,
pequeno mundo
inquieto,
rumores de poesia
metade sonho infantil,
metade o infinito aberto
sobre um átimo de vida...
que vem no vento brando e frio
deste final de inverno
molhando os lírios de orvalho,
sombras
e aliciante nostalgia
posta no ar de pelúcia
de um mundo de faz de conta
que só existe em mim
assim como a rosa só existe
para determinado jardim,
olente adorno para as letras
com as quais tento esquecer
a outra metade do sonho
que ainda trago dentro de mim
Imagem: Fernanda Cordeiro
dolentes,
sob o sussurro da brisa que vem do mar
despertando lentamente entre dois silêncios,
entoando cantigas de ausência
levando consigo o que fui,
Plange o passado com sua voz de saudade
Onde está tudo aquilo que o tempo me tirou
transmudando em fantasia e soluço
o retrato que me devolvia ao ontem,
os meus livros de páginas branquinhas
aonde eu escondia os meus sonhos,
a luz pungente da tarde,
onde, os olhos negros de Pingo?
Nos fins de tarde adormecidos em puro ouro,
em azuis de solidão
murmuram os crepúsculos dos dias
aonde as flores choram
sob a chuva que enleia os brocados da tarde
envolvendo a vida em luz purpúrea,
embebido
na memória,
nas estórias
dos poetas,
na perenidade dos versos
nas estrelas,
na eternidade da lua
na palavra que escreve
o teu nome na aragem
A palavra é só som e signo
espalhados pelo vento
sobre os jardins silentes
se não embebe a emoção
e a encharca,
e a diz em voz ingênua e pueril,
dramática,
como quem diz o imenso "adeus",
como quem responde "vem"
Vem,
que os meus sonhos fazem
dos segundos incognoscíveis momentos
gotejando sobre o ondeante aroma da noite
e seus véus de névoas de linho rendados,
de ilhas que fogem embriagadas,
desta amplidão que ressoa os versos
nus que te ofereço
como a um círio iluminando
o teu silêncio...
enquanto a chuva cai
sobre as pétalas das flores que choram
murmurantes
como o suspiro do mar incontentado
como o ângelus murmurado pelo vento
nas praias desertas,
nas folhas da janela insone
como os versos de enternecida poesia
com aromas de madrugadas
e braços nus,
pele macia da ilusão,
sonho marchetado pela adaga da vida
talhando lua e estrela
na solidão da manhã tendendo a azul
que delicamente desponta
por entre retalhos de névoas e de nuvens
úmidas,
como úmidos são os olhos que não podem mais
olhar para o mar inconcluso
feito de "era uma vez",
dos papéis de seda,
de infância
e de poesia,
a mais flamante,
colhida na saudade dos teus olhos
esquecidos nas estrelas
das noites esculpidas em barro
e rimas
Suavemente a noite derrama-se sobre o poema
com seus véus de musselina
O dia não teve a menor pressa
de se fazer olvido,
passado de segredos tão sós
como as palavras antes de pousarem
em tessitura nos versos
do meu monólogo fremente
O ocaso inscreve seu traço negro
apagando flores e espinhos na terra
desvelando a lua no céu
como se fosse uma rosa branca
brincando de solidão
nas noites em que sou ilha,
pequeno mundo
inquieto,
rumores de poesia
metade sonho infantil,
metade o infinito aberto
sobre um átimo de vida...
que vem no vento brando e frio
deste final de inverno
molhando os lírios de orvalho,
sombras
e aliciante nostalgia
posta no ar de pelúcia
de um mundo de faz de conta
que só existe em mim
assim como a rosa só existe
para determinado jardim,
olente adorno para as letras
com as quais tento esquecer
a outra metade do sonho
que ainda trago dentro de mim
Imagem: Fernanda Cordeiro
domingo, 9 de setembro de 2012
O dia nasce
A manhã despe-se da névoa
que lhe cobre de saudades
e níveas histórias
ternas como os lagos
diante dos primeiros raios de sol,
deixa cair a névoa sobre a relva,
ofegantes lábios de linho roçando as flores.
No horizonte os primeiros raios dourados
brincam com as hastes dos sonhos
e o lusco-fusco da noite
que se esquecem à passagem do vento.
O céu mergulha num rio de águas acesas.
Cantam, como um mistério das manhãs,
os pássaros pretos desta ilha
e suas dunas serpenteando
bêbadas de brisa e de cor
e seus silêncios balbuciando poesia
e desta solidão cativa
que une minha alma ao mar.
Cantam os pássaros pretos
enquanto o rosto rubro do dia
surge por entre a copa das árvores
e as primeiras letras de um poema
pousam nas asas da borboleta.
Dobra o sino o agora,
que o vento leva embora,
leva as desinências da noite
e os versos de amor que te fiz
sem tu quereres,
sem tu saberes,
que o amor que eu te tinha
acalentará a lembrança do teu nome
e o teu não.
Escuta!
é a voz do vento lá fora
é a manhã e seu estro
na qual eu me vejo
para a qual estou vivo
e pela qual faz-se imperativo
a opção inelutável pela vida.
E cantarolo o momento
de lilases feitos de outroras,
de azuis feitos de agoras,
de laranjas leves como
os sonhos
eternos como os caminhos,
como a alma das palavras
e a meiguice do silêncio,
como este segredo conducente,
ardente,
de inefáveis vermelhos
guardados.
Goteja o dia a sua inocência
em dulcissímas fragrâncias.
Goteja a luz ao transpassar a janela,
amontoando minutos pelo chão,
indeléveis como "nunca mais".
E o passado,
sem destinatário,
sem certeza,
sem gemido
e sem canto,
sem espelho que reflita a minha alma
meus sonhos,
meus mistérios,
meus caminhos,
meus versos (vozes) em mim mesmo
espelhado(a)s,
meus medos da vida,
que já não servem pra nada
meus ro(e)stos de solidão,
que nesta manhã,
tem sabor e cores
de eternidade,
o passado é como esta ilha
no inverno
e as aparas do sol
que as aves trazem do mar...
para um céu azul e eterno.
Eternidade onde as lembranças
fiam as Vidas ensimesmadas
e fluem rios e cascatas
de fontes oscilando
entre nuvens de algodão
e o sol clamando por ser fogo,
entre as miríades do tempo
(que tudo cura)
e a poesia vagando
rumo ao mar inexorável da ausência.
Tão sutís se fazem as manhãs
na esteira das noites que morrem
tantas vezes quantas eu morri
indagando a mim mesmo
sobre a criança que espia à distância
o humano que em mim perece.
As horas se mostram tardias,
definitivas.
Há solidão na flor,
no crepúsculo,
no avesso do meu destino,
há solidão nas minhas mãos,
nos meus passos,
em plena rua.
Plausível poder tocá-la,
sentir seu acre perfume,
vê-la brotar nos campos
onde o orvalho veste de rendas
a alba dos curtos dias de inverno
e molha o canto que o vento traz
junto com a primavera,
que chega devagar
aragem nos ramos,
como se respondesse a mim.
Estou só...
em um campo verde entrecortado
pela poesia sempre terna,
que brinca noite e dia
sob a minha janela caiada,
de silêncios atados ao nada.
A aurora faz das estrelas quietude
O dia nasce...
fazendo da senda mais um dia
diante da eternidade dos dias
Longe da vida toca um sino
A noite em cores se transforma
O dia nasce...
Estou só
Imagem: Joan Miró
que lhe cobre de saudades
e níveas histórias
ternas como os lagos
diante dos primeiros raios de sol,
deixa cair a névoa sobre a relva,
ofegantes lábios de linho roçando as flores.
No horizonte os primeiros raios dourados
brincam com as hastes dos sonhos
e o lusco-fusco da noite
que se esquecem à passagem do vento.
O céu mergulha num rio de águas acesas.
Cantam, como um mistério das manhãs,
os pássaros pretos desta ilha
e suas dunas serpenteando
bêbadas de brisa e de cor
e seus silêncios balbuciando poesia
e desta solidão cativa
que une minha alma ao mar.
Cantam os pássaros pretos
enquanto o rosto rubro do dia
surge por entre a copa das árvores
e as primeiras letras de um poema
pousam nas asas da borboleta.
Dobra o sino o agora,
que o vento leva embora,
leva as desinências da noite
e os versos de amor que te fiz
sem tu quereres,
sem tu saberes,
que o amor que eu te tinha
acalentará a lembrança do teu nome
e o teu não.
Escuta!
é a voz do vento lá fora
é a manhã e seu estro
na qual eu me vejo
para a qual estou vivo
e pela qual faz-se imperativo
a opção inelutável pela vida.
E cantarolo o momento
de lilases feitos de outroras,
de azuis feitos de agoras,
de laranjas leves como
os sonhos
eternos como os caminhos,
como a alma das palavras
e a meiguice do silêncio,
como este segredo conducente,
ardente,
de inefáveis vermelhos
guardados.
Goteja o dia a sua inocência
em dulcissímas fragrâncias.
Goteja a luz ao transpassar a janela,
amontoando minutos pelo chão,
indeléveis como "nunca mais".
E o passado,
sem destinatário,
sem certeza,
sem gemido
e sem canto,
sem espelho que reflita a minha alma
meus sonhos,
meus mistérios,
meus caminhos,
meus versos (vozes) em mim mesmo
espelhado(a)s,
meus medos da vida,
que já não servem pra nada
meus ro(e)stos de solidão,
que nesta manhã,
tem sabor e cores
de eternidade,
o passado é como esta ilha
no inverno
e as aparas do sol
que as aves trazem do mar...
para um céu azul e eterno.
Eternidade onde as lembranças
fiam as Vidas ensimesmadas
e fluem rios e cascatas
de fontes oscilando
entre nuvens de algodão
e o sol clamando por ser fogo,
entre as miríades do tempo
(que tudo cura)
e a poesia vagando
rumo ao mar inexorável da ausência.
Tão sutís se fazem as manhãs
na esteira das noites que morrem
tantas vezes quantas eu morri
indagando a mim mesmo
sobre a criança que espia à distância
o humano que em mim perece.
As horas se mostram tardias,
definitivas.
Há solidão na flor,
no crepúsculo,
no avesso do meu destino,
há solidão nas minhas mãos,
nos meus passos,
em plena rua.
Plausível poder tocá-la,
sentir seu acre perfume,
vê-la brotar nos campos
onde o orvalho veste de rendas
a alba dos curtos dias de inverno
e molha o canto que o vento traz
junto com a primavera,
que chega devagar
aragem nos ramos,
como se respondesse a mim.
Estou só...
em um campo verde entrecortado
pela poesia sempre terna,
que brinca noite e dia
sob a minha janela caiada,
de silêncios atados ao nada.
A aurora faz das estrelas quietude
O dia nasce...
fazendo da senda mais um dia
diante da eternidade dos dias
Longe da vida toca um sino
A noite em cores se transforma
O dia nasce...
Estou só
Imagem: Joan Miró
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Noite na ilha
Por trás das máscaras
e da iniqüidade
há mundos
sustentados
pela indiferença
que corroem
a alma,
pisoteiam
as flores
do jardim
onde as rosas
deixam cair
de cada pétala
a gota de orvalho,
o inicio da poesia
e a lembrança
de um outro rosto
que ficou dentro espelho
da infância.
Amordaçam
o coração
e o canto
estará morto,
arrastado
pelo frio pranto.
A maldade não se cansa
e amanhece ao meu lado
com seu traje roto
dormitando
as minhas culpas,
ocultas nos sorrisos
e nos beijos
vermelhos como a sede
que treme
no cântaro
onde minha boca te esqueceu.
Cântaro do soturno inverno
que esquece o outono
e mergulha nas sombras
das noites longas
onde dormem
as palavras que a tarde
disse olhando para
alguém depois de mim.
E, assim,
pisando as folhas
que cairam no outono,
a noite faz-se fuga
e abrigo das vozes
que o sonho e o vento do mar
exaurem à beira do abismo.
A vida em fuga,
a persona,
e os delirantes
sonhos infindos,
desconhecidos
até de quem os sonha,
num inverno
sem crepúsculos,
caem com a chuva,
adejam ao vento
que trouxe de longe
o engodo
das palavras
sem ânima.
Dorme nos escuros
o fogo diminuto
e solitário,
aflito,
na noite
onde o silêncio
burila a argila
e incendeia
o longo vôo do pássaro
adejando um novo arrebol.
Ergue-se a taça.
Bebo a silente cicuta.
Pouco me resta.
Bebo à noite
que me esconde de um mundo
para me expor as entranhas,
expor meus instintos mais
indizíveis,
em um outro mundo
tortuoso e irascível.
As noites
urdem
os ventos.
Longe,
no mar oscilante,
os barcos
são só recordações
e histórias,
povoando
de vagas
a ilusão.
O passado ressoa
atando as sombras
às tramas
dos dias que se afastam
no tempo incriado,
arrojando-se
pelas janelas
que tremeluzem
na sombra da luz
que vaza pela
greta
abandonada
dos pensamentos,
intentando,
por longo tempo,
por noites sem fim,
unir o sol à lua,
traçar caminho nenhum.
Só nuvens
que o vento arrasta
e o destino
palpita suas sombra
pelos longos
e impoderáveis dias.
Diante da janela
caminha a vida.
Tremem as tardes,
absortas,
cheias dos sonhos
da infância,
chamando nomes
ausentes.
Sozinho, deito a cabeça
na névoa,
que vem com o segredo
do canto hierático
e harmônico
que urde a noite
sem margens.
Um murmúrio
abraça o quarto,
traz esta estrela
perfumada
pelas palavras
que embalam e ofuscam
os crepúsculos irisados
e imóveis.
A luz derrama
sombras no dia
forjando a beleza
da chuva,
o canto hermético
da solidão,
o medo cansado,
a flor que brotou
entre as gretas
nas letras dos poemas.
No horizonte a noite
corre,
ondulando,
a alba espera.
Vacilam as flores
que a noite esconde
e o vento embala
despedindo-se
das cores
e dos seus perfumes.
Longe...
longe...
longe...
onde ninguém me espera,
um sorriso triste
acende a candeia bruxuleante
de mais uma noite
na ilha,
onde o mar floresce
recriando a madrugada,
desvelando a primavera,
botando estrelas no céu,
servindo de espelho para a lua,
na imprecisão das águas
que giram, giram, giram...
soluçantes de solidão.
Imagem: Joan Miró
e da iniqüidade
há mundos
sustentados
pela indiferença
que corroem
a alma,
pisoteiam
as flores
do jardim
onde as rosas
deixam cair
de cada pétala
a gota de orvalho,
o inicio da poesia
e a lembrança
de um outro rosto
que ficou dentro espelho
da infância.
Amordaçam
o coração
e o canto
estará morto,
arrastado
pelo frio pranto.
A maldade não se cansa
e amanhece ao meu lado
com seu traje roto
dormitando
as minhas culpas,
ocultas nos sorrisos
e nos beijos
vermelhos como a sede
que treme
no cântaro
onde minha boca te esqueceu.
Cântaro do soturno inverno
que esquece o outono
e mergulha nas sombras
das noites longas
onde dormem
as palavras que a tarde
disse olhando para
alguém depois de mim.
E, assim,
pisando as folhas
que cairam no outono,
a noite faz-se fuga
e abrigo das vozes
que o sonho e o vento do mar
exaurem à beira do abismo.
A vida em fuga,
a persona,
e os delirantes
sonhos infindos,
desconhecidos
até de quem os sonha,
num inverno
sem crepúsculos,
caem com a chuva,
adejam ao vento
que trouxe de longe
o engodo
das palavras
sem ânima.
Dorme nos escuros
o fogo diminuto
e solitário,
aflito,
na noite
onde o silêncio
burila a argila
e incendeia
o longo vôo do pássaro
adejando um novo arrebol.
Ergue-se a taça.
Bebo a silente cicuta.
Pouco me resta.
Bebo à noite
que me esconde de um mundo
para me expor as entranhas,
expor meus instintos mais
indizíveis,
em um outro mundo
tortuoso e irascível.
As noites
urdem
os ventos.
Longe,
no mar oscilante,
os barcos
são só recordações
e histórias,
povoando
de vagas
a ilusão.
O passado ressoa
atando as sombras
às tramas
dos dias que se afastam
no tempo incriado,
arrojando-se
pelas janelas
que tremeluzem
na sombra da luz
que vaza pela
greta
abandonada
dos pensamentos,
intentando,
por longo tempo,
por noites sem fim,
unir o sol à lua,
traçar caminho nenhum.
Só nuvens
que o vento arrasta
e o destino
palpita suas sombra
pelos longos
e impoderáveis dias.
Diante da janela
caminha a vida.
Tremem as tardes,
absortas,
cheias dos sonhos
da infância,
chamando nomes
ausentes.
Sozinho, deito a cabeça
na névoa,
que vem com o segredo
do canto hierático
e harmônico
que urde a noite
sem margens.
Um murmúrio
abraça o quarto,
traz esta estrela
perfumada
pelas palavras
que embalam e ofuscam
os crepúsculos irisados
e imóveis.
A luz derrama
sombras no dia
forjando a beleza
da chuva,
o canto hermético
da solidão,
o medo cansado,
a flor que brotou
entre as gretas
nas letras dos poemas.
No horizonte a noite
corre,
ondulando,
a alba espera.
Vacilam as flores
que a noite esconde
e o vento embala
despedindo-se
das cores
e dos seus perfumes.
Longe...
longe...
longe...
onde ninguém me espera,
um sorriso triste
acende a candeia bruxuleante
de mais uma noite
na ilha,
onde o mar floresce
recriando a madrugada,
desvelando a primavera,
botando estrelas no céu,
servindo de espelho para a lua,
na imprecisão das águas
que giram, giram, giram...
soluçantes de solidão.
Imagem: Joan Miró
terça-feira, 4 de setembro de 2012
A vida é coisa lenta
Nestes momentos inquietos e nostálgicos
onde a vida se dispersa no mar,sem dizer adeus,
levando histórias ouvidas aos campanários,
na tarde quente marchetada pelo vento
olho para o profundo silêncio onde os
jasmins perfumam o sonho rubro no qual
o amor de repente se esqueceu,
monótono,
como a vida pode ser monótona
diante da noite e da dor
O silêncio absorto é só fuga
e a palavra sozinha é só o vento nas árvores,
semente recôndita de um verso iniciando
um grito desnudo
O grito que cala a tua ausência
e recolhe minhas palavras pelos campos
de juncos
e entre as águas que saciam a sede do pássaro
Vê, a vida erra atrás das águas
que se afastam sem destino,
em abandono
Nada sabe dos olhos que te procuraram,
feridos,
cegos,
pela primavera
sustentada pelo aroma de flores e cores,
pela inaudita beleza do crepúsculo
e do céu de onde caia uma chuva fininha
e renitente
Vê, minhas mãos,
anônimas ao longo do corpo,
se alongam pasmadas,
desconhecidas,
cansadas,
imóveis,
procuram pelo adeus
escutando o burburinho do fogo
que sucede um dia ao outro
Não...
não creias que o sentimento tremeluz
à luz das estrelas
enquanto o sonho, ensombrecido,
deita duas lágrimas à terra
aonde as crianças,
de pés descalços,
brincam
O sentimento cala-se à passagem do acaso
A tarde arde
No céu a primeira estrela boceja
o tiritante azul
sob os vermelhos da indiferença
A chuva cai lentamente
aspergindo as pequeninas folhas do tempo
sob réstias de um sol lilás
O amor ficou oculto,
ausente,
perdido na distância,
num dia qualquer entre a gente
Os passos, nos dias de grande tristeza,
já não pisam as nuvens nos céus
Os dias tornam-se feios e iguais
Por um momento a vida parece parar
e o silêncio conhece a maldade
As palavras, no entardecer,
não olham nos olhos,
envenenam a alma
e o amor já não pode amar
O amor não ama pelos olhos tenazes
da mentira
E a vida,
amanhã,
iníqua,
não se reconhecerá no mal
"A vida, a vida é coisa lenta" *
*(Pablo Neruda in O Rio Invisível)
Imagem: Luna Lee Ray
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
A noite sabe de mim
A noite sabe de mim
e me espera
mesmo quando eu a quero esquecer e me afasto
e busco, nos campos dourados pelo trigo, adormecer
a noite por mim espera
A noite vem... e perfumada pelos aromas suaves da primavera
me olha com olhos ternos
dando das bocas o beijo
E este gesto que assoma nas horas
que mascam o tempo entre a música da brisa nos lírios
e o cricrilar dos grilos,
absorto,
suave,
longínquo
este gesto espera sozinho a espuma de vasto mar
que nasce nos teus olhos
e brinca com os barcos brancos
no inverno da ilha
Os bosques,
silentes,
quietos,
desatam a nostalgia
das flores cálidas,
como o toque da tua mão,
como o afago
e o teu reflexo na água
A noite sabe de mim,
sabe da minha alma
e destes destinos solitários que se escondem
nas gotas de orvalho que acendem a luz do sol
Sabe das minhas dores,
meus amores,
das minhas cicatrizes,
do grito...
longe... longe... longe...
e da tristeza
que a vida arrastou para os meus olhos
A noite sabe como novembro é triste
Como, em novembro,
a gente se aproxima da cegueira
e os olhos não vêem as andorinhas nas tardes,
nem a aurora vertendo em vermelhos e laranjas
a sonolenta manhã
Não vê o coração opresso dormindo dentro do sonho
Não sente a pele eloqüente
Não sente o silêncio navegando as fontes
Não sente a palavra corroendo como ácido
na absoluta iniqüidade do ser
Não sente...
não sente...
não sente...
não sente os rios opressos pelas margens
e o vazio (ul)trajado de esquecimento
e de desprezo
Não sente o frio lago
nem a queda das folhas na água fria do lago
que reflete a neblina bêbada de luz,
reflete o tempo que escorre na vidraça embaçada
e onde rabisco com os dedos os meus medos
que a noite conhece a todos
A noite sussurra poemas que escrevo com a neblina
do ocaso e na luz titubeante do círios acesos
entre as veleidades e as sombras do quarto
Quisera eu encontrar na Vida a sutileza dos sonhos
e dos poemas no prelúdio da amizade
Quisera viver entre homens o que me dizem os Deuses
e respirar os momentos nos quais florescem os lilases
A noite, lentamente, se evola nas madrugadas de agosto,
atônita, leve e fria como a canção dos meus sentimentos
Ouço a voz nos abismos
como o nítido choro cediço da criança sozinha
e assustada na névoa pardacenta
da melancolia a dardejar sua emoção
A noite cochila em meus olhos
úmidos dos últimos versos que li,
estiolando certezas,
dissovendo meus mundos,
como os lampiões que se apagam fenecem
as sombras nas paredes caiadas de um branco recente,
preenchendo as lacunas sujas dos cinzas
e dos alvacentos mistérios que as mãos da criança
tramam nas paredes como o barro primordial
A lua, grande e amarela, serena e inconclusa
amarela a rosa que brotou com as útimas chuvas
Deita sua claridade sobre as clandestinas
luzes que se dissipam pelas frinchas das telhas
por onde entra o vento que faz bruxulear as velas
que imitam os dias voláteis e amarelos
como a chama imprecando os segredos das noites
Em silêncio a noite me interroga e me define
em imagens como num jogo de espelhos
A brisa sopra, traçando arabescos no ar gelado
Há vestigios de tempo no ar
Um passado que ouve o vento
e seus passos lá fora...
...na noite que sabe de mim
como sabe do velho livro que a indiferença escreveu
em irresolutos arabescos
Lá, ao longe, o sino toca na igreja
A noite é um zimbório ermo e vazio
onde somente as estrelas fazem seus ninhos
O sino canta os fragmentos do vento passando
entre os frêmitos da noite
e os tácitos ares da manhã que se aproxima
trazida pela multifoliada realidade
que engana a mim e a ti
pequenos suspiros no mundo,
das noites que nos contém
no tempo que flui através do sonho inaudito
Da janela debruçada sobre a madrugada
espero o amanhã que virá do mar
quebradiço e mudo,
andando os longos caminhos,
pelas cambiantes e inóspitas paragens
onde deixarei,
como o vento sibilando nas areias,
teu nome
que a noite orvalhou com o sereno
forjado na penumbra distraida dos tempos
A noite flui como a canção do rio contrito
e meus olhos fecham-se
[ouvindo-a
como quem ouve a ingenuidade
A noite concebe estrelas em silêncio
Adormeço,
sentindo nas vozes anacoretas
um frêmito que trespassa vida
Imagem: Fernanda Cordeiro
e me espera
mesmo quando eu a quero esquecer e me afasto
e busco, nos campos dourados pelo trigo, adormecer
a noite por mim espera
A noite vem... e perfumada pelos aromas suaves da primavera
me olha com olhos ternos
dando das bocas o beijo
E este gesto que assoma nas horas
que mascam o tempo entre a música da brisa nos lírios
e o cricrilar dos grilos,
absorto,
suave,
longínquo
este gesto espera sozinho a espuma de vasto mar
que nasce nos teus olhos
e brinca com os barcos brancos
no inverno da ilha
Os bosques,
silentes,
quietos,
desatam a nostalgia
das flores cálidas,
como o toque da tua mão,
como o afago
e o teu reflexo na água
A noite sabe de mim,
sabe da minha alma
e destes destinos solitários que se escondem
nas gotas de orvalho que acendem a luz do sol
Sabe das minhas dores,
meus amores,
das minhas cicatrizes,
do grito...
longe... longe... longe...
e da tristeza
que a vida arrastou para os meus olhos
A noite sabe como novembro é triste
Como, em novembro,
a gente se aproxima da cegueira
e os olhos não vêem as andorinhas nas tardes,
nem a aurora vertendo em vermelhos e laranjas
a sonolenta manhã
Não vê o coração opresso dormindo dentro do sonho
Não sente a pele eloqüente
Não sente o silêncio navegando as fontes
Não sente a palavra corroendo como ácido
na absoluta iniqüidade do ser
Não sente...
não sente...
não sente...
não sente os rios opressos pelas margens
e o vazio (ul)trajado de esquecimento
e de desprezo
Não sente o frio lago
nem a queda das folhas na água fria do lago
que reflete a neblina bêbada de luz,
reflete o tempo que escorre na vidraça embaçada
e onde rabisco com os dedos os meus medos
que a noite conhece a todos
A noite sussurra poemas que escrevo com a neblina
do ocaso e na luz titubeante do círios acesos
entre as veleidades e as sombras do quarto
Quisera eu encontrar na Vida a sutileza dos sonhos
e dos poemas no prelúdio da amizade
Quisera viver entre homens o que me dizem os Deuses
e respirar os momentos nos quais florescem os lilases
A noite, lentamente, se evola nas madrugadas de agosto,
atônita, leve e fria como a canção dos meus sentimentos
Ouço a voz nos abismos
como o nítido choro cediço da criança sozinha
e assustada na névoa pardacenta
da melancolia a dardejar sua emoção
A noite cochila em meus olhos
úmidos dos últimos versos que li,
estiolando certezas,
dissovendo meus mundos,
como os lampiões que se apagam fenecem
as sombras nas paredes caiadas de um branco recente,
preenchendo as lacunas sujas dos cinzas
e dos alvacentos mistérios que as mãos da criança
tramam nas paredes como o barro primordial
A lua, grande e amarela, serena e inconclusa
amarela a rosa que brotou com as útimas chuvas
Deita sua claridade sobre as clandestinas
luzes que se dissipam pelas frinchas das telhas
por onde entra o vento que faz bruxulear as velas
que imitam os dias voláteis e amarelos
como a chama imprecando os segredos das noites
Em silêncio a noite me interroga e me define
em imagens como num jogo de espelhos
A brisa sopra, traçando arabescos no ar gelado
Há vestigios de tempo no ar
Um passado que ouve o vento
e seus passos lá fora...
...na noite que sabe de mim
como sabe do velho livro que a indiferença escreveu
em irresolutos arabescos
Lá, ao longe, o sino toca na igreja
A noite é um zimbório ermo e vazio
onde somente as estrelas fazem seus ninhos
O sino canta os fragmentos do vento passando
entre os frêmitos da noite
e os tácitos ares da manhã que se aproxima
trazida pela multifoliada realidade
que engana a mim e a ti
pequenos suspiros no mundo,
das noites que nos contém
no tempo que flui através do sonho inaudito
Da janela debruçada sobre a madrugada
espero o amanhã que virá do mar
quebradiço e mudo,
andando os longos caminhos,
pelas cambiantes e inóspitas paragens
onde deixarei,
como o vento sibilando nas areias,
teu nome
que a noite orvalhou com o sereno
forjado na penumbra distraida dos tempos
A noite flui como a canção do rio contrito
e meus olhos fecham-se
[ouvindo-a
como quem ouve a ingenuidade
A noite concebe estrelas em silêncio
Adormeço,
sentindo nas vozes anacoretas
um frêmito que trespassa vida
Imagem: Fernanda Cordeiro
Assinar:
Postagens (Atom)






