segunda-feira, 20 de julho de 2015

Toco


Toco os bosques e as matas
toco o tempo e as épocas
já me fiz barco, canoa,
veleiro, vento,
morada
de esvaídos pensamentos
toco o medo e sua fadiga
toco a noite e sua penumbra
que escorre pelas vielas
caminhando por entre o vazio
e o espaço onde antes havia um poema
com/passos encharcados de não ter sido
tudo demasiado longe
rasgando horas
dissolvendo instantes
cansaço
o tempo entornando medos e cismas
e velhas auroras
deixando pra sempre no ar
sua essência
e seus segredos
esquecidos os dias
que nasciam do rio
e no rio se acabavam
e(s)coando por entre as pedras
em diminutas mortes
esvaindo-se nesta descoberta
renascendo nesta rósea poesia
que a queda da estrela escreve
na extremidade escarlate e antiga do céu
incauto
terra pronta para a semente
lento caminho
onde azuis peregrinam
e arcas de nuvens improvisam rasantes figuras
esculpindo a forma
lapidando os fragmentos do horizonte 

Toco o som e o eco
toco o desejo e o asco
já me fiz desfiladeiro, penhasco
lago, rio
cachoeira
de evanescidas palavras
toco o menino e o velho
toco o fim e o começo
buscando o tempo oculto
atrás do tempo
ensimesmado pelas pessoas que fui
pelos olhos que me olham desde o passado 

Toco o amor e o silêncio
toco o exílio e o degredo
toco a sombra e o medo
atravessando insaciáveis madrugadas
carcomidas e escuras horas
em noites inexoráveis
enrodilhadas ao ávido abismo
ruminando amores
entre intenções
beijos que desperdicei
o ciciante aroma das noites
o íntimo perfume de mulher
o sopro de antigamente
rodopiando lentamente
e alucinando
as miragens e os desertos
por onde flutuam os caminhos em movimento
flutuam estrelas num céu solitário e onírico
flutua a lembrança do mar pervagante 

Toco a tristeza e a melancolia
toco palavras e as letras
toco os redemoinhos e a ventania
apinhados de poesia
se dispersando
em ausência

domingo, 19 de julho de 2015

Antes não era assim

 
Antes não era assim,
estes momentos indiscerníveis
tardios
espessos
cansados
só hoje é assim

antes não era o poema
não era o regato
não era a meiguice
não era o dilema
contido em tudo
não era a sombra da noite
a colecionar horas
não eram os olhos da Criação
e os redemoinhos prenhes dos quintais
só hoje

só hoje o regato escorre cúmplice das pedras
a meiguice afaga a face e o bulício dos meninos
emboscando lembranças que foi buscar no futuro
e no dilema singular onde crepitam labaredas
e os anos todos saindo de velhos baús submissos
acordando as madrugadas
bordando suspiros e imagens quiméricas
o dilema enrodilhando-se absoluto e desafiador
fecundando outro dilema
alaridos ondeando na cama
sem sono

só hoje
o silêncio alegórico das sombras
o tempo contemplando a solidão
os segredos
os medos
o pensamento,
mudo receio
despindo-se
dançando nu
na noite galopando rumo à claridade
portas
janelas
fechadas
namoro
o amor arfando
o beijo
o portão
a vertigem
acolhendo os corpos
seios e mamilos acariciando mãos
o jardim ondulando ao luar
emergindo da crisálida primavera
a rosa aberta em três versos
desmanchando a noite
manipulando perfumes
fascinando
inscrevendo sutilezas no ar
organizando a aurora sobre o mar

só hoje o poema se revela
e se arremessa como seta
como um tigre inefavelmente belo
incomensuravelmente ágil
emergindo furtivamente do meio da folhagem
antes que o vento o denuncie
salto
abandonado no ar
sonhos em fuga
para o tigre (ou o poema) não lhes pegar

antes não era assim...
não era...
só hoje

sábado, 18 de julho de 2015

Diz o poeta

COISAS ANTIGAS

Certamente que entre babilônios e sumérios
entre persas, egípcios, gregos e romanos
entre mandarins e samurais, incas e astecas
inúmeros
foram os que             
como os medievais, os renascentistas, os barrocos
e de lá para cá
incluindo os enciclopedistas
- que sendo racionais
tinham lampejos emocionais
certamente                                            
que todos esses
filósofos ou não                      
chegaram a conclusões
idênticas                                       
às que temos sobre a vida, o amor e a morte.
Independente das roupas e comidas
se viviam a beira-mar ou na montanha
se foram nobres ou plebeus
a sabedoria humana
resume-se a duas ou três pequenas coisas
difíceis de alcançar:
conseguir a casa e o pão                         
equacionar o amor e a morte                         
e constatar
que o poder                    
leva alguns a delirar                    
Coisas assim, tão comezinhas
que nos tomam a vida inteira
não para entender
- para aceitar.                           
Affonso  Romano de Sant'anna
In Vestígios. Pag. 89. Editora Rocco. 2005.
 
 
 
Diz o poeta que a vida toda é isto
conseguir
o morar,
o comer,
encaminhar a solução
do amar,
do morrer,
e a estreita constatação
de que alguns podem ter delírios de poder
 
e, desde então, caminhamos tantos caminhos errados
nos enredamos em fugas e escapes
ficamos paralisados diante do escuro abismo
diante do inextinguível desconhecido
entre
gritos,
imprecações,
palavras envenenadas,
muitas vezes ensandecidas
como se a vida fosse um medo
que nos assusta e subleva
e nos impele uns contra os outros
em monólogos ininteligíveis e pretensiosos
em sórdidas disputas ególatras
em monótonas e insanas guerras exteriores
vazando de dramas pessoais
da insuportável aflição que é não conhecer-se
e ignorar a guerra interior
que redime e liberta

guerras exteriores
vazando da inesgotável e cansativa intolerância
das ilusões que exasperam
das incompreensões viscerais
crenças incontinentes
seitas onde moram o desespero
e a ausência de fé e compaixão
da ausência da alma
embaçada pelas falsas imagens no espelho fosco das vaidades
guerras feitas de interesses escusos
e da ausência do humano
mimetizada em ódios
preconceitos
e o arraigado conceito enganoso de sermos melhores
do que aqueles a quem atacamos
 
e a vida inteira se dissolve no tempo
e no desespero das contradições
em busca da explicação (constatação?)
que nos faça aceitar
a morada em que vivemos
o alimento que comemos
o amor que nos sustêm
e a morte,
esta noite que acontece de repente
intempestivamente
este encontro com a névoa
e o imponderável
sem se saber se haverá outra(s) vida(s)
outra oportunidade de extirparmos a ignorância
numa segunda,
terceira,
enésima vez
sem se saber se haverá outro lado
céus e infernos
sopesando erros e acertos
decompondo os detritos do drama
que se viveu (que se vive?)

e todos os dias o assombro do entardecer
derrama-se mar a dentro
por vezes deixando um espasmo vermelho nas águas
deixando a noite a espremer-se entre o ocaso e o cotidiano

a vida boceja e acomoda os olhos à escuridão
o dia esvanece
sem remorsos
sem culpas
ou medos
cicatrizes
entre descansados segredos

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Brasilinos

 
Projeto de Constituição atribuído a Capistrano de Abreu:
 
Art. 1º - Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.
Parágrafo único:
Revogam-se as disposições em contrário.
 
 
 
Somos
indolentes
impudentes
indecentes
insolentes
indiferentes
impenitentes
impersistentes
incongruentes
inscientes
intransigentes
irreverentes
imprevidentes
inconscientes

somos ardentes dementes
 
entrementes
e entre dentes (os que sobraram)
resmungamos
das mazelas do país
tudo culpa do outro,
este desinfeliz
que não se exauri
de tramar maracutaias
e falcatruas
viver de pequenos
e grandes golpes
culpa das Vossas Excrescências
dos políticos ladrões
sem complacência
sem competência para a virtude
culpa do bispo e do papa
culpa da sanha cafajeste
deste povo fanfarrão
e brejeiro
culpa do mundo inteiro
culpa do povo brasileiro
culpa de Deus e do mundo
culpa deste povo vagabundo
do qual, é óbvio, não fazemos parte
apesar de termos nascido
neste país rubicundo
e aprendido desde cedo
que o legal é levar vantagem
que a honestidade é uma vergonha
que mesmo com muita farinha
meu pirão será o primeiro
que estudar e se instruir é pra babaca
que o bacaninha é se dar bem
é dar um "jeitinho"
olhando só pro próprio umbigo

falta muita coisa neste país
faltam otários
sobram espertos
repetindo sempre o mesmo discurso surrado
"se os outros fazem o que é que tem?"

falta muita coisa neste país assombrado
e atraiçoado
pelos fantasmas de cinco séculos
de servidão amoral
de rapinagem aclamada
de culpas
sem responsáveis
da carência sibilina e primordial
deste insopitável alento
chamado "VERGONHA NA CARA"

domingo, 12 de julho de 2015

Eterno


O vento sopra
caminhando entre enganos
e penumbras
e memórias
seus passos somem sob as folhas
que ele mesmo sopra e derruba
faz girar os cata-ventos
que girando catam o vento
e espalham pelo ar momentos calados
idênticos em propositura
inventando ocasos e auroras
das nódoas coloridas e indefinidas do ar
demasiadamente puras e inocentes
inefavelmente belas
feito bolhas de sabão
ardendo inigualáveis infâncias
fitando o viandante com olhos de mistérios
imprecando num caminhar cúmplice da cegueira
na estrada maltrapilha que não se mostra
com tanto passado atravessando perguntas
suplicando candura e aceitação

a morada é longe
e apenas a promessa do retorno
goteja e lhe dá dignidade
são repousantes as águas do regaço
indo embora...
indo embora...
outra vez
fugindo para os bosques
onde cabe o outono e suas luzes amenas
os pássaros que vieram de longe
e a neblina que os trouxe
cabem os poemas vagarosos
límpidos como campos em silêncio
suavemente olorosos
enternecidamente amorosos
incontidos como as chuvas
batendo nos telhados de telhas de barro
escorrendo nas janelas amarelas
curtinhos como a luz limitada das candeias
imensos como as vidas eternas
levíssimos como dentes-de-leão
com suas florezinhas delicadas espiralando
desafiando o ar
cabe o fim de tarde sem girassóis
a noite sem estrelas,
sem fé
cabe o rodopio do mundo
as contumazes madrugadas palreando egolatricamente
de onde voltar não é mais possível
cabe o pensamento e a forma
a pulsação das flores
as folhas arrebatadas
as corolas pueris
os caules aveludados
as cores esplendorosas
pois que tudo está em tudo
e tudo está no Eterno

domingo, 5 de julho de 2015

As vidas e as mortes

 
O vento passa sem pressa
desmanchando as pedras e a vida, lenta e resolutamente
verga o capinzal sobre o lago
crispa as aguas
arrasta as folhas desfazendo o silêncio da noite
que se esconde dentro da tarde
onde tudo finda e recomeça
uma noite apos um dia apos uma noite...
que não são percebidos igualmente

Assim como creio que não são precebidos igualmente por todos as noites e os dias
creio, sinceramente, que a percepção da morte não é igual para todos
pode ser parecida,
mas não igual

Assim como a percepção da vida não é igual para todos
pode ser parecida,
mas não é igual

Creio que, como na vida, a percepção na morte
depende das vivencias e dos pactos de cada um

Creio que morre-se como se vive
e o depois da vida está mergulhado e emerge do que se viveu
e creu
e negou-se
e se viveu
nos castelos
nas tavernas
nas cidades frágeis e canalhas

Os mundos da morte são os mundos e labirintos inacessíveis,
porém, possíveis da vida,
da alma, da mente humana e seus ocasos

Não há nada do outro lado que não esteja dentro da gente
céus e infernos
anjos e potestades
tão vários quantos são os seres humanos
e seus passos adiante e suas angústias
aqui e agora
como um compromisso

Os dias, emergindo de auroras cheias de cores,
fazem-se poesia
e confundem-se com as coisas elementares
entre uma vida e uma morte
sem fazer distinção entre o que é uma o que é outra
sem saber o que há entre uma e outra
ignorando o monólogo tortuoso de obsoletas certezas

Como se a vida fosse um longo e obscuro pensamento
que eu não sei despensar
e que me mantém entretido
longe da
Vertigem e da Pergunta
que torna e retorna suspensa e dissipada em momentos de distração
a Ideia Primordial que faz do ser humano ser o humano do ser
que vem na Canção vinda das estrelas

Os dias evolam-se em sua perfeição
Mais um dia de sombras arredondadas
de chuvas e sois equidistantes,
vernaculares,
e uma lua pousada na noite da infância

As cores da tarde submergem no escuro da noite
e suas emanações reverberam, devagar, nomes e sorrisos
conversas troando no lusco-fusco
e a inquietante Pergunta
que retine intermitente e aparentemente inaudível
na essência e no vir a ser
em tantas madrugadas e dias claros
de um sol intenso e silencioso
tornando-se sombra segundo a segundo
sob o disfarce do tempo

A vida é uma brincadeira entre um suspiro e outro
entre o gesto e o acaso
ensonada de instantes e eternidades
brincadeira que eu não sei brincar
num mundo indecifravel que eu não sei olhar
e falho na indecência dos olhos amargos que trouxe comigo

A vida é brincadeira inconsequentemente perigosa,
sutilmente inefável
séria
lúdica
por tudo ser possível desde que caiba num sonho
e tudo, então, se transforma em escolhas minudentes
muitas das vezes audaciosas e intementes
muitas das vezes só escolhas
que farão de uma proposição uma pessoa
ou um amontoado de frustrações e humilhações

Para além do sonho escorrem as águas imponderáveis e secas
e caem as folhas das árvores, sem rumor
sob as nuvens desigualmente brancas,
desigualmente voláteis

Na outra face do sonho o amor vindo nos livros
nas noites de bares
no sussurro eloquente das divagaçôes nas madrugadas
de amores todos possíveis
vencido o medo que aflora umido e dolorido
o amor aceso no fogo das eternidades das sedas dos papéis
presente nos vazios intangíveis e trêmulos das labaredas
que o vento tece

Viver tanto para não ser nada,
por que os caminhos misturaram-se com os ventos
encobrindo a Pergunta e as coisas da vida
quente ou frio,
e sonhar com a morte
e temer as dores da morte dentro dos segundos
a memória afogada em nuvens
que passam daqui para lá
como eu hei de passar
com meus sonhos afetados,
minhas máscaras
e o enganoso silêncio
coberto dos rumores do lado de cá

E pensar na trôpega ideia da morte,
para muitos,
já é, enfaticamente, a morte
como se morrer fosse opção
ou trapaça

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sou um homem desinteressante

 

Sou um homem desinteressante
não sei fazer a pergunta
que me daria a resposta
Que mudaria o rumo
Das tantas madrugadas acordado
Arrastando lentamente pela casa
dúvidas, segredos, incertezas
culpas, medos, angústias
nomes que se entreolham
vultos de coisas, pessoas e lembranças
alguns, bem poucos, viram poemas
a maioria, ao adentrar a desconfortável
estupidez da realidade,
vira problema
e, por que nasci nu e perplexo diante da sorte,
por que respirei pela primeira vez,
começei a me matar
algo em mim põem-me a morrer
quieto e sisudo

Sou um cara desajeitado
DESAJEITADO!!!
Não maldoso
Falo quando deveria calar
Calo quando deveria falar
Meto os pés pelas mãos
com incalculáveis consequências
Ponho a cabeça na boca do abismo
de repente, sem querer, sem perceber
que as palavras que falam doce e mansamente no dia a dia,
gritam e imprecam na solidão e na carência incubada e mesquinha

não sou feliz, nem sou triste
estou feliz ou estou triste
tenho laivos de felicidade
e solos da mais profunda tristeza
tenho a alma dividida
em um anjo de dissimulada escuridão
que se imiscui aos meus olhos
amarra a sombra fluída no meu corpo
com os beijos enrugados da apatia
viola-me os sentidos num sofá antigo
e enche-me furiosamente
de um ar desbotado e ruim de porões avoengos
suja-me o espírito de alucinações e melancolias
e um anjo de onde emanam as manhãs
ternas e azuis
colocando no céu um último sol sozinho
que esplende tocantemente tornando os dias e as noites luminosas
a vida sedutora
abro as janelas e os momentos, silentes
a centopéia dos sentimentos acelera a deambulação
libidinosa
impaciente
irritadiça
intolerante
desalojando as palavras de seus esconderijos e fazendo-as rolarem
num vai-e-vem de qualquer coisa distorcida
me perseguem
ao invés de serem colhidas
até me atropelarem
o último sol transborda réstias e reverberações da luz primordial
andando pelos jardins
com gesta, fazendo rosas
silente, ouvindo os pássaros cantarem
e plantando aqui e ali um espanto
pra gente se surpreender e encantar-se
enchendo de crianças o dia
e risos de crianças, o dia
e preenchendo de azul o mar
fazendo dormir o perfume nas flores
carregando os caminhos
habitados de passos e jornadas
e de estremecidas demoras e ruídos
que deslizam pelo lodo do tempo
e vão dar no rio
que flutua sobre os seixos e o silêncio naufragado
das frutinhas que caem nas águas

não planto
não colho
não danço
por ninharias da vida não trepo
não canto
não sapateio
não toco um instrumento
não gosto de carnaval
não grito o gol do brasil
não tenho ideologia
não levo o lixo pra fora
não dirijo
não gosto da chuva quando ela cai em horas impróprias
não gosto do sol quando ele esplende em horas impróprias
não gosto dos dias beatamente iguais e comuns
gosto das noites abusadas, sedutoras, fugitivas e pervertidas
gosto da noite quando vem acompanhada de uma madrugada
e de uma lua e uma estrela para eu olhar e cismar
queimar-me na fogueira das inquietações
que não deixam o sono dormir nos olhos
que vagarosamente e emocionados fitam tanta escuridão
tremelicando a luz que pulsa no casebre das estrelas
não gosto de passarinho em gaiola
nem animal encarcerado em apartamento
não gosto de tomar banho
não gosto de escovar os dentes
não gosto de mostrar os dentes
não acredito na revolução popular
não tenho estórias para contar
não tenho dinheiro para contar
não leio jornal
não assisto jornal
não gosto de banho de mar
não gosto de trabalhar
não creio no homem
não creio nesta política arrivista
não creio na democracia (merdocracia?)
destinada a engabelar a carneirada
não creio em um deus
não rezo antes de deitar
nas horas de precisão
não tenho santo que me socorra
não tenho reza que me conforte
não tenho anjo que vele por mim
da religião ficaram só os demônios
que se refestelam na minha cama
falam em meu travesseiro
e me possuem
e ganem
e uivam
atravessando as paredes e perdendo-se nas trevas emudecidas e sedentas
que regurgitam escuridão apagando a memória da idade dos tempos
sob o olhar zombeteiro, leniente e cúmplice da madrugada
sonâmbula, caiada de escuridão, vícios e perversão

almoço
arroto
cuspo no prato que comi
recolho e amontoo na pia
bebo água direto na garrafa da geladeira

até hoje não sei com quantos paus se faz uma canoa
sofro tristezas por não saber da missa a metade
não sei onde é que o Judas perdeu as botas
e sei ainda menos onde é que ele perdeu as meias
minha vida não tem sentido por eu não saber onde o vento faz a curva
aprendi por observação que vale mais um pássaro voando que dois na mão
tenho encardidas desconfianças de que água mole em pedra dura
tanto bate até que cansa
ou o nunca antes visto das estiagens evapora as gotas desmaiadas
que a inconsciência dos ignaros esqueceu de usar
mesmo após décadas convivendo com suínos de quatro e de duas patas
nunca vi a porca torcer o rabo
aprendi, por precaução, a diferença entre centavos novos
e sentar nos ovos
desde que saí do ventre de mamãe vivo num mato sem cachorro
aos gritos, em incontroláveis momentos de inocente petulância,
já tentei ensinar o pai nosso ao vigário
afirmo categoricamente: é dando que se perde a virgindade
sempre ouvi dizer que a esperança é a última que morre
só esqueceram de dizer, que sendo assim, a gente morre antes

apesar das contraditórias linhas acima
não sou um cara engraçado
o lusco fusco da vida é que tem me dado estas febres rompantes de histrião
não sei contar piada
não rio de quase nada
sorrio
sorrio pouco
um sorriso amarelo, desatento e desdentado
durante as crises de euforia
como se a memória e a emoção me fugissem
e eu esquecesse o estulto que sou
acho tudo uma grande e descomunal piada
e rio, parvamente, até a boca ficar exausta,
rio o riso gratuito, fácil e insano dos tolos
para os quais uma vida não chega para tanta pândega

peido
às vezes peido sonoramente
às vezes peido sonoramente e fedido
tenho o hábito asqueroso de todo dia dar uma cagada
quase sempre discreta
raríssima vezes homérica
desentranhando de mim o que no organismo
frustrantemente não serviu para nada
e o resultado desta frustração é um monturo
deslumbrante e bem afeiçoado de merda
tiro ranhos do nariz e os lanço no espaço ao acaso

fumo desbragadamente
o câncer contido
nas humilhações
nas desesperanças,
nas indelicadezas,
nas teimas,
as mágoas,
na memória que ruge,
no pacto quebrado
nas pedras começando lembranças
fumo os mortos que há em mim
imponderáveis
e inextinguíveis
tal como eu
palavra que se esconde no canto mais escuro

tudo me enfastia

não sei o que quer para mim a sina
nada sei nada da vida alheia
passo longe da voz triste e enferrujada das fofocas
nunca me dei bem com o que alucina
não sei dizer o caminho
que anda como um sandeu para a minha noite
sem o adorno de um deus que a sustente
sem estrelas sinalizando o final da antiga e obscura história
só o mergulho desajeitado rumo ao poente
despencando dos rochedos
falo pouco
muito pouco
quase nada
na verdade, não sei dizer o falar básico da vida
não sei fazer o social
acho tudo que digo tão artificial e empoeirado
minha ladainha é impotente e imprecisa
como a fumaça que evola-se sem pressa e sem barulho
não sei cativar e cultivar amizades
não sei dizer o que você quer ouvir
não faço ideia do que você quer ouvir
não sei se você quer ouvir o que eu tenho pra te dizer
nem sei se você me ouve
nem sei se você está aqui comigo quando falo com você
a palavra me espanta
a palavra me encanta
a palavra me oprime
a palavra me redime
a palavra só é boa quando queima o coração
quando quem fala não é a boca
mas o gesto e a emoção
que diferencia um amontoado de ossos, vísceras
carnes e músculos
de um ser humano
estranha criatura que pensa e sofre e chora nas madrugadas
quando o silêncio é um nervo exposto
e o lago engole a lua
e o sabor das estrelas deixa um doce amaro
na boca de quem consegue ir até o fim onde começa o mundo

Alguns, por não suportarem o silêncio, como fuga falam de tudo e de todos,
levianamente
irresponsavelmente
irrefletidamente
precipidamente
parvamente
ensandecidos
como se soubessem de tudo e de todos
com seus discursos surrados e cheirando a mofo
O medo!!!
Ah! O medo!!!
Sangra a fúria, a inconsciência, a maldade, desespero
numa morte prematura da alma decrépita

não sei cavar trincheiras
não sei aliciar soldados para a minha luta
minha guerra eu luto sozinho
morrendo horas e medos
não sei ler mapas ou mãos
não sei fazer tanta coisa
cansei das águas secas
da tutela e da palmatória do ditador
que perora dentro de mim
os medos me têm

apesar de não conseguir dizer-me em  poesia
tendo a cuspir poesia toda vez que me falta o ar
e meus olhos marejam passeando pelo inferno
pecador que sou
sentado em cima da minha consciência
esqueço datas e fatos e atos e erros
pretéritos, presentes e futuros
e erro o mesmo erro por pura vadiação do passado
e por não atualizar minha prosa
apesar de não saber fazer poesia
enquanto não me retalho e não me mato com o punhal cego de um texto
as minhas mãos não param de tremer
a minha luta conclama às mãos que não parem de escrever
nunca sei quando a minha pseudo poesia termina
o que era para enganar em algumas linhas
demora a encontrar o ponto final
toda vez que o vento sopra aflorando dores
arrancando mordaças
surge sempre alguém canhestro, de voz embargada, querendo se expressar
a lua fica vermelha e sonolenta
caminhando na estrada escura que leva a noite à minha casa
que fica nos subúrbio onde arde num barraco meu coração
sou um teórico da vida e do amor
o meu discurso é mais extenso que a minha emoção

a minha falsa calma me irrita
me irrita a minha nostalgia asceta
padeço de saudades de quintais
de flores em canteiros
da chuva escrevendo rios nas ruas de terra
e eu, pateta e gaio, chafurdando a liberdade nas águas
de um marrom-amarelado tirante a encardido de menino

ficou da chuva na pele a condenação caseira e doce,
o arrepio quando meu corpo eriça pentelhos, intumesce mamilos
ficaram marcas nuas, cheiros de sexo, gemidos e gozos nos leitos
deitados
cobertos com tristes lençóis puídos
mordidos por bocas vorazes de damas medievais
molhados pela sede saciada das vaginas eternamente virgens
eternamente ansiosas, famintas, gulosas filhotes de aves
de boquinhas sempre abertas esperando a minhoca chegar
escorrendo eterno jejum de beijos
formigando lamentos e chamamentos
sugando e ensopando a glande e o corpo do pênis
ficaram, da infância, cicatrizes da luz de velas
nas noites de escuridão e cisma e carência
sopa quente no prato com figuras de contos de fadas
remorsos pelos vagalumes esfregados na camisa
o cheiro quente e ardido do corpo das meninas
o vislumbre inenarrável de uma calcinha guardando
ingênuas fogueiras e promessas sentadas em cima de um tesouro

o meu ódio é mais completo quando estou animal
pouco sei de mim mesmo
dos meus deveres como ser humano
dos meus desvelos como ser ungido de sentimentos
das promessas que faço para mim e não cumpro
do que fazer com tantas noites e tantos dias
partindo de mim em espasmos desesperados
fujo do ritual que sustenta um mundo inteiro de ilusão indômita
e dormências vegetais e de anátemas fatais
a vida, passei na janela, estagnado,
os olhos olhando o que só a alma via
petrificado de medo
a alma lambuzada de covardia
os amores eu amava sem sair de mim
apascentando sentidos
fazendo e desfazendo mil declarações de amor
sozinho
à noite
sufocando-as, uma a uma, durante o dia quando a via
debruçada sobre o silêncio dos olhos e o gesto do corpo
e os dois botões abertos
insinuando os seios branquinhos de morenos mamilos pontiagudos
buscando carinhos e beijos e línguas e dentes a mordiscar o choro
compungido a soluçar os sentidos
beijando bocas trançadas em sonhos e devaneios
abraçando corpos em solitárias e indeléveis noites
as portas fechadas
os muros erguidos tão altos
o sol espargindo remorsos
na sua fornalha de ouro e fúria
a esfera cega carregando no ventre redondo a boca de um vulcão
amarela
explodindo pesadamente
alheia aos teoremas que definem o que é a noite
o que é o nada quando a noite está ausente
a queda no fosso do que sinto
a fuga derrisória
quando os desertos tomavam conta de mim
eu fugia nos mapas de um atlas geográfico

Sou um homem desinteressante
boa parte das coisas que eu digo não faço
aqui dentro amontoam-se os mundos que eu penso e não faço
tudo que sei é mentir
andando sempre sobre os mesmos passos covardes
brado mentiras da hora em que acordo
até a hora de dormir
minto social e resignadamente para você
minto monotonamente para mim mesmo
isto transforma meu estranho mundo
em letárgico e angustiante cansaço
aprendi a mentir com livros, desgraçados,
que me deram a palavra escura que possuo
que me moldaram os gestos
que abriram as cem portas de seiscentos diabos
e cavaram a minha cova no cemitério da agonia
que me amarraram ao desprezo de pensar
e de sentir medo e vergonha da vida vivida na vida do outro
ninguém sabe
dos gritos entrecolhidos entre a dor e o espanto
das imagens que vêm no vento quando a vida
resgata os uivos e silvos dos morros
que me impingem a humilhante mentira das horas
que me mordem, me roem e, por fim, me matam
cedo ou tarde
conforme a voracidade que a sina tem para mim
e escanchada no dragão da quimera mesquinhamente vai embora
livros que me propuseram sonhos
e acorrentaram-me às chuvas que ateiam fogo à alma
e alimentam a sarça ardente das palavras que fogo nenhum consome

Sou um homem desinteressante
como é desinteressante para um cego
as luzes e as cores enrodilhadas no silêncio insidioso
de mais um final de tarde

Se as tardes ainda existissem fora do engodo da poesia
e da morte súbita do corpo contrito e do tempo que se exauriu
sufocado pelo alarido das horas