terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Finjo dormir

 
Finjo dormir iludido
de que já não me dói quando me atiram a pedra
mas as minhas dores só param de doer letra a letra
quando a palavra assoma torta ou reta
e os meus dedos estilhaçam-se
dentro das noites
nos generosos dias
nos quais a palavra desperta e se fia
e invade os espaços
quando os pássaros pousam nas árvores
e, então, posso ouvi-los sem pressa
recolocando no ar as manhãs e os ventos
sobrepondo-se à chuva no meu peito

Nada somos para além da alma
mas há os que pensam que são alguma coisa
sábios homens
pobre homens
néscios homens
nada são além de um rebanho de restolhos
seguindo inconscientes de si
fração proscrita da realidade onde vicejam os ególatras
e onde os arrivistas se enredam

Finjo dormir iludido
enquanto o vento traz os graciosos dentes-de-leão
e a vida, então, flutua
sobre a neblina solitária
escondendo a manhã
e sobre este Nada secular
pairando sobre infinitos
que faz dos momentos um sussurro
quando deveria ser o mais audível dos gritos

Imagem: Charles Louis La Salle  

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Mentiras


Só paro para ouvir mentiras
quando as mentiras encantam o meu coração
e quando a palavra é mais linda do que o silêncio
versos possíveis ardendo entre brumas e escuridão
que apanho por aí
pego um, que vem no vento
perco outro, que cai no mato
não encontro... esquecimento
outros por aí me catam
e já nem sei o que digo
e já nem sei por que choro
meus olhos acendem silentes mentiras
minhas mãos acariciam a ilusão
da vida que assim vai passando
traquina maquinação
contando tranquilas mentiras
em meio à solidão

A palavra se eleva e aguarda
essência
semente
sentença
antes de ser dor ou prazer
antes de calar ou dizer
do amor tocando as margens
do rio correndo em teu corpo
do fogo na água a arder
antes de ser sussurro ou ser canto
antes de ser riso ou ser pranto
depois soluço
depois silêncio
depois sono cansado
das lágrimas
que ainda miram meus olhos
e não saram

Tanto faz
depois
tudo será depois
tudo uma balbuciante alucinação
miragens que vêm com a brisa
enganos do coração
tudo será mentiras
por ser irrealizado
tudo será o sonho
que por muito que façamos
apenas o roçamos
antes de retornar a ser imerso no Divino

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O tempo e o guepardo


O tempo é ideia que se reparte
é pergunta feita ao espelho
equivocado escuro
insistente sombra
é pedra vagarosa
ou seta ligeira
atiradas
esperando a inescrutável morte
não se alteia
ecoa na cegueira serena e silenciosa que é não ser

O tempo envilece!

O tempo é do guepardo o movimento e o instante
que o leva daqui para diante
o tempo é as garras do guepardo fincadas na nossa garganta
desmanchando o frio gume do punhal entrelaçado ao destino
signo do movimento
mas não do tempo
que se aquieta na inércia e não se move
tal qual o silêncio que acontece sem mensuração
momentâneo e intermitente
a eternidade morrendo dentro da fuga e do medo
dos erros que mentem à vida
à impassível e torturante guerra das horas lentas
ao contumaz desespero das hora céleres
ou aos dilemáticos presságios
que enchem de sensações
e elucubrações
a vida
ou o que dela restou
dispersa diante dos vales íngremes e profundos
dos abismos esperando respostas

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Imagino


Senhor,
imagino campos de flores florescendo
colorindo e perfumando os caminhos
espraiados e sozinhos
apascentando a terra incriada
pela inescrutável iniquidade da chuva

Imagino, Senhor,
a pujança incendiada pelas águas
a roça quebrando milho
sob a dicotomia de um sol afogueado e noturno
fingindo passos perdidos num perdido caminhar
a colheita vagem a vagem do feijão
as galinhas e a serenidade ciscando
na inocência dos quintais
a vaquinha para dar a oferenda do leite

Senhor,
imagino crianças brincando
vendo o vento arrastar as nuvens
túrgidas de águas e imagens cognoscíveis
meninos de pés descalços pisando o barro
e a inflexão do silêncio acordado pelo sonho
crianças inventando mundos atemporais
e impalpáveis
e crianças comendo
e crianças estudando
os dentes todos, tolos... sorrindo
lembrando o antigo futuro
que se ergueu do chão sedento
angustiadamente crestado
e rachado pela soberba e a indiferença
esquecido pela sorte
onde pastavam agonicamente
a inanição e a morte

Lembro, Senhor,
das inocentes brincadeiras
(às vezes nem tão inocentes assim)
irremediavelmente irresistíveis
insuportavelmente inadiáveis
um pulo no abismo que mora em cada ser
em cada mão
que colhe estrelas
sonhos chuvosos
num sem querer
num sem razão
como o gesto da flor que pendula...
pendula...
e sem poder conter-se derruba a gota d'água
e transborda o mistério
a promessa suave e crível
da vida vicejando em sonhos
em tantos outros sonhos possíveis

Imagem: Christian Schloe

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Vaga a vida

 
Vaga a vida antiga e tardia
efêmera rosa vermelha
ramalhete de lembranças
âncora de ilusão dissimulada
sombra despedaçada
em vítreos cacos de neblina

Vaga a vida errante
com fome

Vaga o homem espantado
com fome

Vaga o cão espantalho
com fome

Vaga o grito sem origem
náufrago desolado em angústias
calado na mixórdia das dores
e na mentira dos espelhos estilhaçados

Perambulam pelo drama da vida saqueada
Crianças famintas esperando dentro da fome
crianças esfomeadas sentadas em cima da fome
crianças famélicas esmagadas embaixo da fome

Giram as engrenagens dos relógios sem memória
e da máquina com fome
mentindo para um mundo nostálgico
e suspenso
transido de medos
a nos devorar
com tantas certezas saqueadas
e um só destino
um mundo de arrivistas
um mundo de parasitas
olhando escarnecidamente para nossas lágrimas

Vaga a vida parva
mesquinha
fadada pelos instantes
sem alma, sem verve e sem nome

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

E um dia vamos embora


E um dia vamos embora
Quixote combatendo moinhos
da pretensa realidade
onde tudo não passou de um sonho fugaz
esperando pelo tempo maturar nos campos
para acontecer
tão imortal quanto a alma do homem
tão infrangível quanto este ruído eterno no ar
e a ausência do humano
pétreas sombras esperando em cada esquina
arrivistas do medo
esmagando os passos e os sonhos
fragmentos de palavras insinuadas
comovidamente silentes e doces
o gesto suspenso e dissolvido antes da forma
a esperança cega e estéril dos homens simples
o canto dos pássaros entre a neblina
pairando sobre tudo que deixamos pela vida
como quem deixa bugigangas pelo chão

E um dia vamos embora
fomos só a personagem que imaginávamos ser
personagens introjetadas
bonecos de ventríloquos
fantoches e mamulengos
não nos atrevemos
não levantamos a cabeça
para que os olhos pudessem ver a injúria
e a ânima pudesse fazer da injúria
a mitigação das dores, amparo para a luz do sol
e consolação para a alma sufocada pela razão
pelas máscaras
neste teatro onde atuamos
irrefletidamente
sofregamente
solitariamente
sem sequer vislumbrar a Pergunta
oculta na claridade
em meio a tanta ilusão

domingo, 24 de janeiro de 2016

Relógios


a eternidade não cabe
nas oligofrênicas engrenagens dos relógios
os dias amanhecem e anoitecem sem relógios
as noites seguem descendo pelas irrealidades
os dias arquitetam e arrumam as flores
e repetem com voz rouca os finais de tarde
há bilhões de anos
amanhece e anoitece
entre o claro e o escuro
entre tons de cinza
vermelhos rubros
enchendo o ar de estesia
azuis maduros
amanhece e anoitece como se respira
e se faz o mar
e a ave voa
e se faz o amar
e os barcos partem por que a maré está boa
para se partir
sem relógios
de horas e relógios nada dizem
por que nada sabem

o tempo, assim repartido, não existe
tudo falaz ficção
a que hora devemos amar?
fazer o verso?
cantar de pura emoção?
a que horas a rosa deve se abrir
úmida de orvalho e realeza?
a que horas a minha mão resvalará a tua mão...?
e então...
estarei ligado a ti para o agora e o sempre

Os relógios nada sabem do Devir de cada ser
o tempo rói os despojos das vidas
matraqueando incessante
de dentro do fosso falacioso das horas

segundos
minutos
horas
não fazem falta
dias
anos
séculos
milênios
sucumbindo nos calendários
não fazem falta
nada dizem
pura elucubração mental
só metem medo
e nos afogam em angústias
se tudo é imprevisível segredo
miragens, catarses
engodos que os dedos jamais tocarão
jamais contarão
por mais que imploremos
mas, todo dia e toda noite são uma esperança
de que o gesto seja feito
pelo simples fazer-se do gesto
guardado em nossas mãos
em nossos corpos
alheio ao tempo falacioso
antes de a paisagem se apagar calada
e partir devagar na canoa que nos levará
dentro do silêncio de casa trancada
posto que tudo antes de ser aqui fora
já é aqui dentro
aqui fora não há nada...
não há nada