sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Chove sobre os lirios

 
chove sobre os lírios

não a chuva que chovia
sobre tudo
sobre os círculos concêntricos
dos mamilos dos teus seios
sobre as ígneas gaiolas
dos pássaros abertos da tua infância
entoando no telhado
um som complacente e ritmado dos pingos
que vazavam sobre as bordas dos telhados
hoje a chuva não escorre em prantos
pelos caminhos incandescentes dos telhados acesos
não deixa no ar o olor ameno e quente
da terra molhada
não molha minhas mãos
enquanto em barro me multiplico
e me repito na angustia de ser a mesma sombra,
a mesma mágoa
não  molha os canteiros exauridos
não toca as cúmplices flores e seus tempos incertos
nem cria tramas e cores indevassáveis
onde vicejava a eternidade
onde plasmavam-se sonhos
e estrelas
acordando as vozes
com as quais ainda teço e digo teu nome
confessando a ambivalência das madrugadas

domingo, 29 de outubro de 2017

Vai


vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim

deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Nada


nada
é tão negro quanto o negro inatingível  dos teus olhos
e esta sensação de encantamento que reverbera
pelo tempo efêmero e sincopado
do caminho todo escuro e contemplativo
quando olho no teu olhar
e, então, a densa noite nos teus olhos dança
e, coleante, põe-me a sonhar

domingo, 22 de outubro de 2017

Miséria e fome


 
 
Senhor,
viestes nos procurar
a mim e a este cão que atende pelo nome de Fome
trouxestes alento para as nossas lágrimas
trouxestes o cântaro cheio da Tua Verdade
e da Tua comiseração

da latência das Tuas palavras
inventa-se a paciência e/ou o desespero
escorrem os momentos para o fim
e o fim é a catedral onde a neblina apagará os círios
que consomem os dias e as noites
inelutavelmente

o homem deglutindo a fome
o cão salivando a fome
a criança aprendendo a fome
subsistem por imposição da vida

crianças faminta arrostando a vida
crianças no lixão mimetizando-se com os urubus
crianças carcomidas pela estultice dos discursos vãos
crianças apedrejadas pelo egoísmo inaudito
crianças pedindo nos semáforos
crianças na prostituição

Dizei, Oh! Senhores,
chefes das nações que sendo várias deveriam ser uma
que almoçam e que jantam e arrotam e jogam o sobejo fora
o campo semeado e a colheita são insuficientes?
a semente, se mente e não vinga e se vinga e se morre?
a miséria é algo tão distante, insólito e obscuro
sem direito sequer a um osso para o cão,
a um pão duro para o dono?

um dia, sentados diante da emoção incomensurável da mansidão de uma aurora
molhada pelo sereno que o vento traz e acordados pelo sussurro dos deuses,
olhando para o que acumulamos,
um dia pressentiremos (será)
que morrer de fome, na miséria é a quinta-essência da indiferença
açodando os círios acesos para que se apaguem mais celeremente todos os dias
sem atentar que tudo que é é eternidade

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ideia

 
comove ouvir o rumor da brisa a soluçar nas flores
em tantos caminhos efêmeros,
em tantos amores pulsando,
a suspirar
inundando palavras que se compõem
em tantos traços
e com as quais se escrevem
e se denotam a vida e a morte
contrai-se o sonho na noite sem nome,
a opacidade do amor nos dias sem fim
dedilhados sílaba a sílaba
extasia o fim de tarde a beliscar as cores
que ressumam de um sol poente
vermelho cúprico
laranja
lilás
quilha e fronteira entre o dia e a noite
na surdez branda do vento
arrancando ao ventre túrgido da terra,
prenhe das noites,
a ideia,
onde se alarga o momento de ir embora
e nunca mais,
nunca mais voltar

sábado, 7 de outubro de 2017

Desalento


vem dos meus muitos eus o gosto esconso e devasso do abandono
o tempo tecido de instantes morosos
a dúvida levantando-se do medo das noites antigas
a agonia onividente
na clausura a tristeza cantando por entre os ferros da cela
o silêncio arrependido da culpa
o asco escorrendo pelas sombras embebidas do dia
a melancolia premente inventando vazios momentos
a esperança que espera e não chega
a distância que não começa e já cansa
a barca da solidão à deriva
barco a ser queimado
os ígneos passos dos meus caminhos sem volta
a lua cheia suspensa e estendida
prisioneira e esquecida na insolência dos astros
o desassossego dos cães latindo na madrugada
a madrugada acordada, emboscada, esperando pela manhã
a inércia observando e absorvendo a vida que morre em versos tímidos
a vida que dorme o sono inócuo
prostrada nos templos incandescentes
silogismos a me definir no nada que sou
e me assuntam na fluida lágrima
que liga a palavra à palavra
que me visitam embriagadas e trôpegas
num engano de eternidade
que me faz grito vago
noite outra vez

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Aniversário


mais um agosto
desmedido em dias e noites
ilusões e atalhos irreais
que me trouxeram até aqui
na batida surda de um tempo antigo
e que já pressentem-se
como amantes
ao início próximo da primavera

a alma despe-se dos enganos da vida
ainda traz na tessitura do ser a brisa inebriante
e o perfume das flores noturnas
e o plangente repicar dos sinos
meditando a imprecisão das horas
e a pulsação da vida

o campo florido do verde dos pirilampos
que se estende e ilumina a noite ditosa
vem da candeia
de um céu cintilante
rendilhado de flamantes
estrelinhas mergulhadas no ocaso

a lua traça no céu
um arco de linha nacarada
sobre o fundo negro que se
ergue dos montes adormecidos
na noite diáfana
-demora-se a chamar-me

fica no ar o som palpitante das palavras
e suas ausências doridas
se escondem
e tanto de melodia
se esvai
na armadilha derramada do dia

a poesia dorme, concisa,
no colo nu das folhas úmidas,
nos braços enrodilhados dos pingos da chuva,
que desenhavam arabescos nas janelas
e levavam a minha e a tua vida 
como o incansável dizer adeus

uma ave adeja na noite sem nome

solitária, atravessando os fios finos dos rios

chove
e o pássaro traça a hora carmim de um momento sem fim

hoje a chuva não cai sobre os telhados
e não junta seu som
ao som bom do barro das telhas

hoje a chuva não escorre
pelas ruas de terra
nem pela sombra negra,
indefinível,
áspera e sibilante do crepúsculo vermelho

não deixa no ar o olor quente
de terra molhada
e dos passos embriagados que caminham
sobre as águas inexequíveis

não há canteiros
nem flores
nem cores
onde vicejava a eternidade dos sonhos
e da vida
que a chuva, então, avivava

hoje a chuva é o instante
sem a cor do sonho
sem as memórias e as histórias
e as fábulas
interminavelmente azuis
da imaginação
que pasce num mundo
onde a semente espera latente
e longe dos segredos dos meninos
reprisados noite após noite

o momento passou
trazendo a obscura noite dos sóis
sobre os quintais

busco em mim
o que eu fui
o que eu era

esta não é a primeira primavera
nem a última lenta agonia
que os meus olhos soluçantes
vêem passar

busco-me entre as flores do passado
lá onde a vida nunca deixou de ser jardim
onde as flores balouçam, suaves,
aos pingos da chuva
e que balouçam, também, os labirintos do meu mundo

oh, doce flor do jasmineiro,
a tarde chora outra primavera
espargindo aromas voláteis,
derramando folhas e flores
levadas pelo vento
para além das palavras e dos signos
e do encantamento

outro mar
caminhando para as areias
outro tempo
desapegado e incomensurável
entre as mãos
molhadas de ventos e de cores
outra solidão
com a qual finda-se o dia
e começa outra poesia