
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Preciso te dizer
preciso te dizer da manhã que nasce em tons de laranja
por detrás dos morros verdes
o céu cinza escorre em sombras
por sobre os jardins bebendo as sedes
por sobre o povo que caminha ao longe
seus passos soluçantes e sangrando
seguidos pela própria sombra
atirada contra o nevoeiro
preciso te dizer dos pássaros que passam em voo leve
parecem tão livres
mas tu sabes
a noite ainda dorme dentro de mim
meus olhos embaraçam-se ao dia
dizem brisas transparentes
sonham versos
respiram fantasia
preciso te dizer da minha melancolia
para que saibas que cada palavra tem seu rumor
cada palavra tem sua dor
ou seu riso
e correm sôfregas do sentimento à mão
impiedosas com um rio que se vai
por não poder ficar
preciso te dizer do sonho procurando um grão de areia
para dormir
para que saibas
da impossibilidade do silêncio
que não há
nunca existiu
e do segredo
contido nas palavras ouvidas na madrugada
hesitante e álgida
preciso te dizer da solidão flutuando na cidade
na areia branca das praias
nas esquinas
nos meus olhos povoados de neve
e de uma lágrima
que não cai por ser tão leve
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Cativos mundos
sou vulcão de lábios roxos
por vezes lago silente
o vento sibila premente
como o piar escuro dos mochos
lágrima que ainda vai nascer
nos olhos cinzas da neblina
o tempo passa mofina
carregando o anoitecer
trazendo de cativos mundos
os olhos negros das flores
o aroma rosa de amores
amores, os mais profundos
O vento sibila segredos
o vento sibila segredos
esconsas memórias
neste inverno infrangível
a bruma ingente da manhã
cobre a vida de mistérios
enche o dia de degredos
medos
o dia teima em ser escuro
modorrando sua luz
por detrás do muro
onde verdes ramos brotam
alheios à insone espera
meus olhos
que já não sabem chorar
as lágrimas dessentidas
secas em meu rosto
são dois sóis mansos
caminhando para a tarde
no crepúsculo que vem do mar
trazendo histórias soltas
que apanhou em terras muito distantes
no silêncio de algum lugar
domingo, 2 de setembro de 2018
A casa dorme
a casa dorme
a madrugada
caminhando para o dia
é fria
a mulher dorme
confessando sua meiguice
o filho dorme em seu quarto
confessando sua presença
dormem os teus olhos
dentro do meu olhar
confessando todos os teus segredos
os barcos dormem
na tessitura das águas insontes
pássaros passam
levando sossegos e estrelas
dizendo nostalgias
a noite dança lá fora
por sob o céu e os penhascos
as sombras perfumam os copos dos lírios
a lua passa
por entre os seios da mulher sozinha
eu me inquieto
buscando-me no pânico da noite
sopram os ventos
a canção encontra lembranças
encanta sonhos e momentos
na madrugada em meu peito
tudo é abandono e silêncio
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Enternece
escorrendo pela janela
a luz devoluta e intocada,
morosa,
levantando-se da noite onividente
rompendo o escuro do mundo inocultável
lançando instantes
sombras nitentes
e gestos concisos
incendiando o ar frio e surdo do inverno
enternece ouvir os pássaros cantando
na manhã que se levanta retentiva
lentamente
inconclusa
intangível
encharcando o ar repleto de perguntas
enternece ouvir o silêncio dormindo junto ao teu corpo
recitando a madrugada
acalentando a solidão que invento
para os teus olhos escuros
como a noite que saciou o nosso amor
morte desfeita no inconsolável gozo
prelúdio da vida nascida entre as tuas coxas
rumor de pele arfante
o beijo aquietado em teus lábios
o desejo derramado
em tuas mãos espalmadas
enternece ver o amor
dormitando em teus braços nus
poemas sem rimas
reinos sem rei
tecendo eternidades
entrelaçando o cansaço dos amantes
falando sussurros ao teu ouvido
despindo o perfume dos nossos instantes
sábado, 25 de agosto de 2018
Vem
vem,
e traz contigo as folhas caídas
traz contigo esta saudade que acabou de acontecer
traz os teus olhos para eu ver
a noite clarear o mundo
as rosas acordarem os passos ledos da madrugada
traz o silêncio
e a quietude das nossas mãos enlaçadas
no instante do amor
vem,
e deixa escorrer tua seiva
em minha boca cativa do teu gosto
amiga, amante, poente
deixa-me beijar o teu rosto
e dizer sempre e tanto que te amo
um te gostar tão contente
pássaro sem destino que sou
vem,
dormir sonhos profundos
depois de misturar os nossos gozos
depois de misturar nossos mundos
depois de repousada a madrugada
vem secar a lágrima que nunca se derrama
posto que a vida é trama
e esta paixão que é tão pura
deita-se conosco na cama
beija teu corpo e jura
carícias e silêncios
soluços cravados em tantos ais
sem nome
em tanta sede sem fim
do que de ti há em mim
vem...
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
59 anos
venho de tantos agostos
venho de tantos desgostos
de tantos sonhos insondáveis
o tempo passou, imponderável
são inescrutáveis os caminhos pelos quais caminho
procuro-me nos dias e nas noites de angústia e solidão
e, então, não sei quem sou
perco-me diante desta vontade de partir
sem ter lugar para ir
sem ter um lar para aonde eu pudesse voltar
este desejo impossível de ser além do que sou
este sentir-me miserável na voz imperceptível de um anjo caído
não sei quem sou
tenho um tédio enorme da vida
o tempo passou, inelutavelmente
sibilando saudades
melancolias
derrubando as folhas das árvores tardias
levando-me, rio caudaloso,
em busca de um mar portentoso
são inescrutáveis as palavras indizíveis
e misteriosas do destino
trago em mim este olhar de melancolia
este costume de amar de repente
esta inquietude temente
diante dos véus da alma
este desassossego dentro das noites rumo à aurora
que se arremessa dizendo tanta melancolia
este chorar tardiamente diante da angústia
e da agonia que estremecem em meu peito
esta saudade inefável do que foi ontem um menino
o tempo passou, senciente
o tempo passou inocente
deixando lágrimas e risos
deixando caminhos concisos
deixou, ao passar devagarinho,
o meu olhar triste e sozinho
deixou esta vontade incontida
de chorar por tanta vida
que passou sem eu notar
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