quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Vamos dar tempo ao tempo

 
Demos tiempo al tiempo:
para que ele vaso rebose
hay que elenarlo primero.
 
António Machado
 
a tarde suspensa e ardente
transborda em sombras azuis
o silêncio arde
escorre em direção aos rios
lentamente
penso em você
sei que vais partir
as palavras estão gastas
as lágrimas,
as apertamos inúteis
as mãos, antigas, já não se tocam
o afeto era no tempo dos segredos
e ficou decepado entre os gerânios
e os meus medos
a ternura é palavra deserta
não nos afeta mais
nossos olhos olham a sombra
que rasteja pelo chão
queimam as noites devagar
enquanto a primavera demora fatigada
derramam-se os caminhos entre os álamos
vamos dar tempo ao tempo
de sílaba em sílaba diremos
às golfadas
da indiferença e do adeus
já não nos dizemos,
vacilantes e exaustos
o deserto cresce
é tempo de colher o aroma das tristes palavras
a brancura da voz quebrou-se
o silêncio arde nos ventos
dizendo tantos ais ao firmamento
e os dias caminham assim:
redemoinhos de emoções
a girar dentro de mim
chove,
e as janelas estão nuas e inacabadas
os pássaros pousam entre a poeira e o sono
em plena hora da aurora
e o desconsolo já não é suficiente
para carregar os dias pela ausência
hoje já não colho flores para te dar
a vida ficou sozinha
colho gotas da chuva
que cai lambendo as lembranças
bebo a solidão em cálice pequeno
apaga-se a luz da vela
crianças cantam cantigas
numa tarde que está tão longe
as violetas dizem o teu nome
o amor se parecia com o mar
agora é um perfume derramado
dos lírios esculpidos no ar
o silêncio esquecido nos lábios
os medos e os muros dentro dos instantes
vamos dar tempo ao tempo
é noite agora
o escuro deambula lá fora
e ficou no tempo este exílio
onde começam os jardins sem flores
da tua ausência

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Que vamos a hablar ahora, hombre?


que vamos a hablar ahora, hombre
mientras miramos las rosas
mientras las lágrimas se despiertan
y en los ojos la soledad se abre?
las palabras estan sucias
la ternura cosechando lluvias
me llevó el canto en las aguas
y el silencio, sin prisa,
se va desprendiendo del mar

que vamos a hablar ahora, hombre
si ahora la noche se esconde en su concha mojada
si nuestros lábios ya no saben cantar más?
la alegría ahora vacila cuando decimos primavera
y el sol camina entre las flores y el rocio
mientras que las nubes en el cielo son frágiles flores de cristal

estamos lejos de casa
se quemaron los barcos de la inocencia
um pajáro canta en un bosque cercano
un canto azul como una luna abierta sobre las arenas del desierto
y ahora cuando amanece y el viento canta secretos
y los barcos caen despacio
mientras el viento sopla sobre el fuego del mar
despierta la mañana, pétalo a pétalo
el viento cantó tanto dolor para el silencio de la madrugada
las gaviotas regresan enternecidas
el dia extiende sus ojos maduros
sobre el aroma de la brisa y la bruma
se abren las ventanas
ya la vida entra, muy antiga,
terna y breve

Madrugada


acordei em meio à noite
tenho medo
chora lá fora a  madrugada
não sei bem o que fazer
está tão desamparada
longe o dia por nascer
vou cantar pra madrugada
até ela adormecer

domingo, 11 de novembro de 2018

A vida


a vida apreendo ao atirar a pedra
estilhaçando a luz do sol
vendo o escuro que a noite medra
vendo a cor vermelha do arrebol
vendo o poema que escorre
como o canto que morre
no mais escuro de mim
escorre sem não ter fim

a vida apreendo imerso nesta ingente solidão
quando a noite faz-se outro dia
das areias da escuridão
numa infindável alegoria
como se o sol em seu trono
acordasse de um longo sono
dissolvendo a mais densa madrugada
onde uma gaivota passa voando para o nada

a vida apreendo numa ignota solidão
como se tudo estivesse fugindo
como se tudo dissesse não
para um tempo que vai sumindo
escoando num antigo labirinto
é tão antigo tudo que sinto
tão antiga minha emoção
somente é mais antigo o meu roto coração

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Preciso te dizer


preciso te dizer da manhã que nasce em tons de laranja
por detrás dos morros verdes
o céu cinza escorre em sombras
por sobre os jardins bebendo as sedes
por sobre o povo que caminha ao longe
seus passos soluçantes e sangrando
seguidos pela própria sombra
atirada contra o nevoeiro

preciso te dizer dos pássaros que passam em voo leve
parecem tão livres
mas tu sabes
a noite ainda dorme dentro de mim
meus olhos embaraçam-se ao dia
dizem brisas transparentes
sonham versos
respiram fantasia

preciso te dizer da minha  melancolia
para que saibas que cada palavra tem seu rumor
cada palavra tem sua dor
ou seu riso
e correm sôfregas do sentimento à mão
impiedosas com um rio que se vai
por não poder ficar

preciso te dizer do sonho procurando um grão de areia
para dormir
para que saibas
da impossibilidade do silêncio
que não há
nunca existiu
e do segredo
contido nas palavras ouvidas na madrugada
hesitante e álgida

preciso te dizer da solidão flutuando na cidade
na areia branca das praias
nas esquinas
nos meus olhos povoados de neve
e de uma lágrima
que não cai por ser tão leve

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Cativos mundos


sou vulcão de lábios roxos
por vezes lago silente
o vento sibila premente
como o piar escuro dos mochos

lágrima que ainda vai nascer
nos olhos cinzas da neblina
o tempo passa mofina
carregando o anoitecer

trazendo de cativos mundos
os olhos negros das flores
o aroma rosa de amores
amores, os mais profundos

O vento sibila segredos


o vento sibila segredos
esconsas memórias
neste inverno infrangível
a bruma ingente da manhã
cobre a vida de mistérios
enche o dia de degredos
medos
o dia teima em ser escuro
modorrando sua luz
por detrás do muro
onde verdes ramos brotam
alheios à insone espera
meus olhos
que já não sabem chorar
as lágrimas dessentidas
secas em meu rosto
são dois sóis mansos
caminhando para a tarde
no crepúsculo que vem do mar
trazendo histórias soltas
que apanhou em terras muito distantes
no silêncio de algum lugar