quinta-feira, 12 de abril de 2012

Maria

Há poesia no instante oculto
por este outono de abril
ameno
sob os ventos coloridos
das tardes ermitãs
há os pássaros que cantam
os finais de tarde que
entram pelas portas e
janelas
e já não se pode apagar
o horizonte traçado a giz
incendiado em vermelho
onde caem sóis atrás dos montes
incriados
dos seios dóceis da terra
enquanto o azeviche da noite
envolve o desamparo do dia
e brinca com o teu nome,
Maria
das tantas noites de estrelas
dos teus passos esquecidos
nos ruídos da noite
e entram pela minha janela
oferecendo teu corpo
que escorre pela minha cama,
Maria
por entre a febre do meio das tuas pernas
despindo meus quinze anos
despindo tua calcinha vermelha
teu perfume de rosas
tua boca mastigando as palavras
antes de dizê-las para o quarto
morrendo do teu gosto
teu corpo a me perguntar se gozei,
Maria
pergunta, Maria...
diz, Maria...
novamente
os indecifráveis nomes
do meu corpo no teu corpo
que o tempo passou sem teus olhos,
sem teus abraços,
sem nossos lençóis,
o tempo passou, Maria,
fazendo de tudo um passado
guardado em velhas gavetas,
inacabado em tanto amor
que quando lembro de ti, Maria,
já não te chamo pelo nome,
te chamo de minha flor
Maria,
a vida era tão pura entre os teus seios,
origamis de seda e de tule
carícias de beijos
que o tempo tornou lembrança
que o tempo passou,
Maria,
e trouxe tuas coxas,
trouxe teus lábios,
trouxe teus braços
trouxe teus olhos negros
teus negros cabelos
negros, negros, negros
como as nossas noites
feitas de sonhos girando
nos teus beijos de mulher
desejos roubados
de uma vida qualquer
faces no espelho
mentiras,
te perdi novamente...
...

No fim de tudo este silêncio
cansaço
palavras que o murmúrio escondeu
paixão nos poucos anos que eu tinha
Maria,
quando lembro de ti
no fim de tudo
eu sinto um carinho imenso
ficou as flores que nunca te dei
apressado que eu estava
para me arvorar um passado
onde eu pudesse viver minha nostalgia,
Maria.
Agora são 23 horas e 38 anos depois
Cada dia passou como o seu tom de saudade
às vezes tão lentos
às vezes com pressa
conforme seja gelo
ou seja fogo
o meu coração
que ainda é teu,
Maria
Tudo tão imperfeito
a vida afastou você de mim,
mas não te tirou dos meus sonhos,
do meu peito
inocência
amor guardado em canduras
vento soprando brisas em teus cabelos
brumas encobrindo a ausência
berço noturno,
cama,
linho,
Maria,
teu perfume é o temo de espera
nas madrugadas sem ti
do teu corpo fiz as margens
deste rio que volteava o teu mar
onde pus a navegar os meus bracos
como criança diante do encanto das águas
e como se desconfiasse que partias,
tu ias
Mar/ia.
E o meu medo
e o rumor dos teus passos
emudeceram a noite em um silêncio,
sílaba por sílaba,
insustentável
como a palavra angustiada
que eu tentei te dizer
mas que ficou só pra mim
olhando pela janela evasiva
que te trazia pra mim
Maria,
pra que rimar um amor tão antigo
se já não há mais janelas
e o passado dispensa salamaleques?
Maria,
tô indo embora
em meio a madrugada...

Eu menti,
Maria,
eu menti...

Imagem: Marta Wiley

domingo, 8 de abril de 2012

Sob a noite

O olhar encantado
sonhando estrelas
dentro das noites
beslicando a vida
que bem longe demora
é assim que uns dias vêm
e outros vão embora
tudo que vem depois
entre um escuro
e uma aurora
são imagens que daqui de dentro
são as pressagas das daí de fora
Os finais de tarde
naquela rua Maria eram
o colo onde Deus dormia
e dos seus sonhos
bebia-se a água da sede
de vida e de poesia
deste fim de tarde
pousado neste fim de dia
onde os girassóis,
sufocados pela noite,
esbatem as cores das horas
deste sol primevo
das flores deste regaço de abril
Onde deixei minha infância?
Onde deixei os meus passos?
E a lama...
Onde deixei?
E a lama dos meus passos?
Meus passos de menino,
um sonho de Deus
O sonho de um final de tarde
com seu vermelho hermeneuta,
sua palavra sem excedentes
Brilha no olhar do homem
a primeira estrelinha
Brilha sobre a miséria do homem
a estrela que sai do hálito azul da tarde
e pulsa confundindo o coração do homem
Sob a noite,
o olhar encantado,
o homem sonha estrelas
sem saber que a estrela já brilhou
fora da Caverna de Platão,
onde alheio à vida só se vive de ilusão
Já brilhou e brilhará
para reis e generais,
proxenetas,
miseráveis,
banqueiros e
prostitutas
Brilha, levemente, no fundo da taça
onde bebemos, felizes,
a cicuta nossa de cada dia
Brilha a estrela na noite dos
teus esplendentes olhos negros
reverberando no arfar do mundo
a alegria das flores abertas
Agora,
enquanto a constelação,
pássaro azul,
faz-se em poesia
ronda a tua sombra quente,
o teu corpo nu,
nus os teus olhos negros,
a tua fome nua,
Maria

Imagem: Julius Bissier

sábado, 7 de abril de 2012

Adeus

A lua
cheia
pintada de amarelo puído
encardido
passeia num céu colorido
de um outono roubado
aos canteiros
de papel
onde escrevi o teu nome
onde escondi minhas lembranças
e onde a tua falta
murmura o que você nunca disse
diz um poema
de estrelas medievais
me conta ilusões à toa
guarda um segredo
um medo
em meio às flores no ar
canta a tua canção
dois dedos de meiguice
numa madrugada
teus olhos chegam de mansinho
e se vão antes que para os sonhos
tudo seja tarde demais
e teu nome nos meus lábios
seja um adeus
mudo adeus
nada mais

Imagem: Wassily Kandinsky

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Flores no ar

Não há encanto nas flores
nesta manhã que estremece,
que não me pertence,
esta manhã sem você
imóvel,
longeva
e distante
Entre sóis,
tempo
e espaço,
há a insônia do silêncio
que já faz parte de mim
e da minha pergunta
que me lembra sempre você
minha flor ausente,
cambiante
alegoria de um sonho gasto
que se enredou em mim
minha fuga feita de palavras
e rasbiscos que escapam das minhas mãos
trêmulas,
furtivas como o passado
O vento, em fuga,
apaga a bruma que o sol
vai tecendo,
seca o orvalho
na face das flores,
tece ausências
no longo percurso que a noite urdiu
até se dissolver na manhã lilás,
calada,
talhada em vapores azuis
como um casulo do mar
que entra pelo espelho latejante
e pretérito da minha solidão
Fecho os olhos
e o mar e o dia e o sol
são apenas borrões flamejantes
nesta manhã transparente
ao som do mar que bate na pedra solitária
e queima a imagem náufraga no espelho
onde sou um e sou vários
onde as minhas faces medram em meio às faces no espelho
ecos insonoros do mar vazio
sombra e luz
verdade e mentira
se movem no fogo em que ardo
Arde o fogo do sol
na minha face de nácar
como se o dia nunca tivesse me visto
como se a vida fosse apenas uma pausa
entre dois sonhos
e o nascer um despertar
dentro de um instante finito,
ilusório labirinto
onde a minha alma é essência
e a vida...
eterna ausência
Ausência de caminhos,
permeados de poesia,
assim, calados
sem falar de ti
ausência roubada de mim
vida e versos roubados ao grito
das minhas bocas díspares
Um grito que é cintilação e beleza
outro grito que é medo e ansiedade
Noite e dia
sol e lua
a flor que entre as minhas sombras floresce
a tarde que amarelece
enquanto meu coração anseia
pelas vozes que consomem-se e ardem-se
em barcarolas
que alongam-se em velhos mares
e nos séculos escondidos por entre o vento
e um soluço de amor
Não há lágrimas no vento esta manhã
Não há lágrimas
Só há uma flor sem nome
e pétalas de nostalgia
belas e tristes
no ar

sábado, 31 de março de 2012

Insegurança

Hoje o meu retrato
é em branco e preto
e esqueceu meu nome
no fundo embaciado
de um espelho
vermelho

Hoje saio pra rua com
teu belo par de olhos
castanhos esverdeados
da cor do dia
tudo isto pra ver
se te via

Hoje escolhi a rima mais bobinha
sem saber ao certo
se a rima rima com tudo
se a rima não é ninguém
ontem te tinha ao meu lado
e você era meu bem

Hoje vasculho nos velhos baús
as palavras, os verbos, os pontos de exclamação
que guardei pra uma pessoa especial
como você
hoje coloco tudo na insônia do poema
e no suspiro que você lê

Ontem podia ser dois, quatro, dez ou dezoito,
não importava
o tempo era demorada nostalgia
quando eu te amava

e, agora, o amor é esta miragem vazia
our lifes and dreams
que a minha insegurança previa

Pressinto que a minha vida chegou um tanto antes de mim
e eu cheguei na tua vida quando já não era mais possível
tirar os pingos dos "is"
Se era pra ser assim...

Fim

Imagem: Peggy Miller

sexta-feira, 30 de março de 2012

Segredo

Meus olhos se aconchegam ao sonho
demorando a aprender o teu segredo,
na rosa que perfuma os teus caminhos
nas rútilas estrelas bordadas de prata
na seiva amara e nívea do teu pranto
ficaram a noite e a lua como encanto

Estranhos versos estes versos calados
feitos de saudades, de ontens ecoando
que de noite se alimentam dos medos
e de cheiros e de toques e da tua voz
quando choras e as lágrimas escorrem
pelo rosto pelo labirinto dos teus lábios

Quando meu medo enlaça meu segredo
me afogo em todos os cinco sentidos
e fico sozinho sonhando teus olhos no
castanho esverdeado do poema que tu
és sustentado por esta ausência que só
os momentos inocentes, entre a gente,
nas noites vem me ninar...

Hei!!!
você tá aí?
Por favor, olha pra mim!
me ouve!

Não devia te contar...

Eu tenho medo de amar.
                                       
Imagem: Barbara Burnside

quinta-feira, 29 de março de 2012

Há um silêncio

Há um silêncio em tudo
na flor,
na noite,
na dor,
na sombra,
na vida,
nos olhos que erguem-se para olhar o mar
vagando em busca de palavras
que transformem o fim em rima
Há um silêncio em cada esquina
permeado de receios
e ternuras
escondidos no que não te disse
no que ficou por falar
e nossos olhos, poetas,
brincando no quadro-negro da noite ditosa
escreveram inicíos de versos em esperanto
"luno", "pace", "vojo", "vivi", "belega", "rigardi"
Enquanto no espaço imponderável do infinito dos versos
escrevemos, afinal, a palavra "fim"
na lenta manhã onde o azul doía dentro de mim
onde o gesto se exauria
Há um silêncio de trinta anos
numa praia de areias finas
num feriado qualquer
num fevereiro banal
carnaval
Há um silêncio retalhado no teu nome
no teu sobrenome polonês
que me ensinastes a dizer
quando te aninhavas em meu colo
e eu sussurrava ao teu ouvido
o amor que guardaria para o tempo impenetrável
sem desconfiar que somos personagens
nas auroras e nos crepúsculos da poesia que espera
e transforma o monólogo do destino em odes e barcarolas
Agora já não importa
o primeiro encontro
a surpresa
um mistério inopinado
silencioso
como esta ausência começada que bebi
junto com a formosura dos teus lábios
E tudo mais foi silêncio
quando o tempo engoliu o grito
na iniludível tarde
Houve um silêncio em tudo
resposta do eco ao qual me exponho
na seta inquebrantável do instante
entreabrindo
e fecundando o Infinito