sábado, 6 de outubro de 2012

Flor da primavera

Nasceu a primeira flor da primavera
em infinito silêncio
e claridade
nasceu a flor
numa manhã
pudica e nua

Uma flor na primavera
surgiu insuspeita
solitária
ante a certeza definitiva
de se ser só
ante ao vento que ondula
em um secreto dia
as palavras de um esquecido verso

Nasceu a primeira flor da primavera
sequiosa do orvalho roubado
às lágrimas da manhã
uníssonas em saudades

Nasceu a primeira flor
na primeira luz
da primeira manhã
do primeiro dia
eterno
como eterno é o instante
do sonho
e do devir perpéuto
do que vem a existir
e que dissolve e cria
e transforma a realidade

Uma flor que transpassa
a solidão
refetida no espelho
amarelado pela inconstância da prata
escrita em longas linhas
que não cicatrizam
nem silenciam
as palavras engendradas
na tarde inquieta
em uma rua qualquer
discreta e tácita
onde caminham os meus passos
incognoscíveis
meus passos são qualquer um
meus passos são o cansaço
das velas rumo ao porto
meus passos são a flor incendiada
são as quatro estações
e a rua de terra
pedaço da minha vida
onde vivi a vida insaciável
nas esquinas
dos dias trêmulos e azulados
das noites de barro e chuva
de veredas melancólicas
como os olhos negros de Pingo
a dizer do beijo a espera
a ouvir da voz o sonido
a sentir o perfume
da flor que o jardim sonhou
e que nasceu
em infinito silêncio
em claridade dissoluta
naquela manhã
e não em outra
por que demorar-se
seria morrer

Ao som dos sinos
esquecendo a noite
esgueira-se a manhã
nasce a flor
sob o silêncio
dos quintais

Teus olhos negros
e a primeira flor da primavera
são coisas de menino
e deste mistério
quedado em nossos corações

Como este sentimento de ausência

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A brisa passou

Quando a brisa passou
eu julguei sentir teu perfume
molhando a minha lembrança
correndo por minhas veias

De mansinho a brisa passou
pela janela entreaberta
resvalando nas cortinas
do dia amanhecendo sem pressa

Pelos becos a brisa passou
pelo passado recitativo
da rua aberta para o mundo
trazendo de longe a saudade

Chamando o teu nome a brisa passou
e subitamente a noite se fez imensa
recendendo a benjoim
ressoando o ruído dos ventos

Incessante a brisa passou
tocando as pétalas da amorável rosa
tocando a lembrança do teu rosto
a brisa passou, Maria,
em teus olhos escuros

Ó, efemêra brisa que passou
pelo instante inelutável de morrer
pela miragem dentro do espelho
onde cantam tardas canções antigas

Sob o luar dentro do mar a brisa passou
quase bruma, quase lua, quase fim
as mãos, os olhos e o peito cheios de ti
cheios deste sonho sonâmbulo rumo à aurora
moldura tardia para a lágrima é o amor

Sozinha a brisa passou
sob o silêncio que espreitava a tarde
sob os nossos corpos inconsuteís
sob os meus sonhos
                                [repletos de você

Imagem: Do Duy Tuan

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Solidão

Solidão...

Os relógios dormitam

O soar triste dos sinos
geme no ar junto à lua
redonda

No beiral da noite
a noite recém-cravada
se destende pelo quarto

As sombras desenham
punhais e cansaços

A madrugada chora
sua ilusória realidade
soçobrada

Os grilos cricrilam
mordendo a inquietude
indecisa da iniqüidade

A infinda incerteza
ajaeza de penumbras
a insônia da página
que me escreve

Lamento o vazio da vida

O eco inelutável do
silêncio

O momento molhado
pela lágrima e pela
ausência da palavra

Choro as ternuras
e as eternidades das
noite e dos ventos

e do medo da vida

Imagem: Luna Lee Ray

domingo, 30 de setembro de 2012

Primavera

É setembro nos tons
acobreados desta noite
de inicio de primavera
Um candeeiro acende
a madrugada
e o seu manto de opala
Lua cheia sob um céu
negro azulado,
cata-vento de estrelas,
olho de prata,
luzeiro de jaspe,
refletido neste
rio carmesim
As horas sopram
lembranças
das manhãs e seus
céus coloridos,
das tardes de pergaminho,
das noites prateadas
e azuis
feitas de saudades,
feitas deste crepitar
das árvores que a brisa toca
como uma fada das águas
As estrelas queimam
o cerne do benjoim
e enchem o ar de
uma poesia dolente
e perfumada
As luzes nos postes
acendem as sombras
nas ruas que caminham
levadas pelos ventos
e tecem canções
molhadas de segredos
Um beijo...
nos teus olhos negros que
fitavam os meus
e punham em mim
a quietude da noite
a mansietude dos sonhos
Quando ias embora
meu coração se perdia
no perfume da tua ausência
tatuado em minha alma
Quem é esta menina que
suspira nas minhas madrugadas
e caminha pelas ruas desertas
sozinhas como uma lua?
Ainda sonho seu olhos negros,
seu corpo de luz e sombra,
seus lábios mordiscados
por este amor que doía
quando eu enlaçava sua cintura
nas tardes que ficaram em mim
como um sinete
dos seus lábios nos meus
É primavera
e o silêncio transpira
o aroma das flores silvestres,
da terra molhada
Um pássaro voa
sobre a minha vida
e eu compreendo
a doce e triste voz
do trinar da ave
e o eco dos meus passos
tentando lhe acompanhar
pelas ruelas da minha vida,
da minha infância
Choro o grito
que vem no vento
entrelaçado de soluços
Ao longe os sinos dão as horas
A cidade desperta lentamente,
modorrenta,
ao bimbalhar do sino
que traz consigo a manhã
misturada com o horizonte
e o perfume sonolento
das flores que bailam
na aragem ébria
dos aromas dos jasmins
A luz nasce e se aproxima
como uma fábula
A vida introjeta as cores
de um novo dia
No céu o sol e a lua
são duas ninfas desnudas
Os versos de tez morena
não dormem jamais,
pululam na madrugada de nácar
Ficam a gotejar das estrelas
sobre a anágua dos rios,
entram pelas gretas do sonho
nestas manhãs de setembro
que não esquecem o menino
de pés descalços
e asas de pássaros
que um dia sonhou o amor
A manhã, muda e quieta,
abre os olhos
negros como os teus,
banha-se nas águas do rio
Rumores de águas das chuvas
onde barquinhos de papel
carregam as folhas verdinhas
de mais uma primavera
A aurora exibe o segredo
azul, lilás,
dos meus silêncios de menino,
da minha solidão,
náufraga desta ilha oculta
que se desnuda em mim

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A noite que toca o chão

A noite que toca o chão é fria
Lá fora suspira o vento,
oculto nas sombras antigas,
oculto nas asas dos pássaros,
revela o caminho pro mar
e tece um imenso manto
sonoro
e de infinitos dedilhados
criando os escuros
e as cores que a gente não vê
e os sons que tangem à noite
no espelho fulgurante do zimbório

A noite que toca o chão contempla o silêncio
e o movimento do poeta e sua pena
Contempla o traço paralelo ao sonho do Ser
reflexo dos horizonters rubros das tardes caladas,
sonho,
sóis,
velhos retratos,
as mãos cansadas...
As mãos cansadas dissolvendo os gestos,
folheando a noite em busca de você

A noite que toca o chão é solitária
como seu reflexo incerto e a paisagem
que agora é sombra
As folhas soltas das árvores esvoaçam
carregando lembranças e sussuros de uma infância
e de uma janela que dava para o jardim bordado,
arabesco tecido em cores do ontem adormecido
quando a noite tocou o chão

A noite que toca o chão conta histórias de "era uma vez"
como quem sabe que em cada sonho
há um poeta
como quem sabe que em cada trama
há um engodo
e que em cada vida há uma sina

A noite que toca o chão avança como negro pó,
negro cinzel talhando sílabas e sons no vazio,
na ausência transparente do mar violeta de agosto
e suas areias acesas na chama da candeia da lua cheia
As estrelas caminham seus caminhos azuis,
desmancham a possibilidade do vermelho das rosas,
do branco dos lírios,
das mãos postas em prece,
do grito pressuposto e infenso
dos olhos tateando  no escuro
das portas por onde derramarão meus sonhos
enquanto as horas dormem,
exaustas

A noite toca o chão,
toca os rios,
onde mergulha
e dissipa-se no silêncio do verso,
âncora de um amor,
vogal faltante da minha fala
desinência da vida sem retorno
de que são feitos os nossos passos adejantes

A noite inominada desenha figuras indistintas
e fugazes
o poema fazendo-se sob a chuva 
em rascunhos entremeados de trêmulas lembranças,
perguntas palpáveis,
esparsos versos
ainda úmidos das sombras azuís das estrelas

A noite que toca o chão toca a si mesma
na carícia lenta da escuridão do mar
refletindo a molhada luz da lua
dissolvendo-se ao ritmo da tessitura das marolas
imaginadas pelo vento
e pela saudade
contida na gota d'água que cai como uma lágrima
em fogo sobre a sombra aberta da tua ausência

Na noite que toca o chão
pétalas de flores oscilam no ar incendiado
pela lua
soluça o jardim
alguém dedilha as ondas de um mar dolente
outro alguém rascunha rimas e recollhe versos
num setembro que trouxe as flores
que derramaram-se perfumando a noite,
as ilusões,
os segredos,
os folguedos

A noite menina que toca o chão
é esta nostalgia
e esta inquietude
que se revelam nas gotas de orvalho,
pequenas poesias
que dizem-se ao silêncio
oculto nas ramagens,
no infinito dos campos,
na doce recordação dos teus olhos
enquanto a noite,
solitária como este ébano que envolve a vida,
caminha para a aurora azul e lilás que flutua
sobre o canto das meninas,
sobre o riso,
e sobre o vento muito fino que amanhece
na hora morena dos aromas
e que traz de muito...
muito longe este canto triste
como o soluço nos olhos de um fim de dia

Imagem: Joan Miró

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A realidade é um vasto manicômio

A realidade é um vasto manicômio
desvelando os parvos e os tolos
e suas pequenas vidas
Tantas paisagens molhadas pelas chuvas
que só seus olhos não vêem
Tantos dias pulsando através das neblinas
flutuando no ar das manhãs,
escorrendo pelas últimas horas do entardecer
O perfume das flores entreondulando
nas sensações de um jardim
que não lhes consola
A alma lhes é como lento e baço rio
descontente com as pedras no caminho
Insípida sina remoer o tédio desta vida
e à inveja entregar a imensa farsa de viver
Velam as máscaras que lhes escondem
de si mesmos,
escondem seus rostos mortos
                                   [e queima-lhes
                                   [a sombra angustiada
Quanta melancolia têm estes reis eternos,
visto que o mundo lhes pertence
em seus delírios hediondos e tristes
Viverão milênios,
segundo as suas crenças embalsamadas,
segundo o que preconiza as suas matilhas
nas suas vozes ásperas e frias
reverberando em ecos de intolerância
A realidade é um vastissímo hospício, ó mana
onde príncipes bruxuleiam em seus estertores
de sons negros como os negros séculos
onde a espada interrompe o poema
O homem se repete, se repete...
Não vê as manhãs
lentas e cálidas que fazem os dias
nem vê o sonho
que há no casulo da borboleta
na gota de chuva que espreita o vento antigo
e na imperceptível poesia do silêncio
enquanto tange as tardes e as gentes...

Senhor,
Dai aos bardos o tempo inconsumível
e aos homens a possibilidade de amar
Amar o amor insuspeito,
incólume
e intenso
como se no fim das nossas ruas
nos esperasse a latência de um mar
neste início de primavera
e nesta lua crescente
que pende deste céu que não alcanço
e tropeço nas nuvens a cada instante
e me encanto ao avistar da janela as estrelas
dependuradas num céu de ébano passível,
também,
de um amor...
o meu amor, preclaro e infantil,
                     despido e casto

Alguém me disse outro dia: tens o olhar entristecido
Eu respondi: no princípio era uma solidão muito leve,
                     muito calma,
                     depois a solidão tornou-se prenúncio
                     sem data para passar,
                     sem limite pra doer,
                     impulso,
                     entranhas,
                     crisálida,
                     silêncio

Um grande sono se faz, estrepitoso
vigiado pelo vento e pela sombra
da memória dissonante de vidas passadas
e da primeira manhã
onde tudo era premissa,
onde a luz ofuscava a visão,
onde o amor não conhecia o mudo medo
e os sentidos inquietos
onde tudo era devir

Senhor,
dai aos bardos um retrato em branco e preto
e um poema, singelo que seja, mas um poema
uma dedicatória de amor
que enlace a noite e sua impermanência
e lavra-lhes o caminho em direção ao sol
da manhã que ainda dorme

Imagem: Wassily Kandinsky

domingo, 23 de setembro de 2012

Acordo

Acordo...

na madrugada bulha de pássaros
que gorjeiam enchendo a aurora
e os ramos de vento com o rumor
que se estende dos arbustos pelo
ar da primavera e parte da minha
vida que aos olhos da manhã tem
somente um sonho e os instantes
onde habita o passado, o inverno
acorda a manhã amarela e longa
os pássaros voaram, minha alma,
antiga, suave e translúcida foge
ao mundo onde os Deuses calam,
a brisa sopra e o dia nasce alheio
aos leves tons de vermelho como
ondas incendiadas pelo sol calmo
espelhado nas gotículas da chuva
que caiu brincando com a terra,
as flores e as crianças descalças
vivo os dias e os silêncios divinos
o momento guarda a beleza que
nasce junto com o dia sereno de
água refletindo os sons do vento
que entregará o dia à flor escura
da noite e fiará na luz dos astros
os véus de uma nova madrugada 

sem você...


Imagem: Wassily Kandinsky