sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Coisas que pensei, vi, vivi, ouvi e morri

 
LAMENTOS DO TIO AFRÂNIO (2)
 
Tenho tanta saudade
de estar morto, disse Afrânio.
E pediu-me que o levasse para a janela.
 
Para eu saber que anoitece, explicou.
 
Não quero que a morte
tenha saudade de mim.

Mia Couto.
In idades cidades divindades, pag. 58, Editorial Caminho SA, 2013.
 
 
 
 
Nasci para o mundo
 
Tarde demais
 
Vou morrer
 
Nasci como nascem as manhãs
 
Vou morrer como morrem as estrelas
 
Trazido pelas mãos da aurora
 
Autofágico e engolfado  pela ventania
 
Ou pela mão atroz da sina
 
Hei! você, toma este punhal
 
Vai pro fundo da caverna
 
Livra-me de mim
 
Que a minha voz não se cale
 
Que o tempo me seja ameno

Me ensine

Dê a feição de um Todo às várias partes de mim

Me nimbe
 
Reflito sobre a loucura e a sanidade

Se eu chego um pouco mais tarde

uma das duas já tomou conta de mim
 
Do meu jardim
 
Onde brotam flores de papel
 
A chuva que chove nas flores... é de papel serpentina
 
O vento que embala as flores, volátil e leve, de papel também é feito
 
O trinar dos pássaros que me comove, é de papel pautado pra guardar som e arpejo
 
De papel é minha face,
 
Meu tormento, meu destino
 
De papel é o chapéu do menino que corre e sonha dentro de mim
 
Minha menina é de papel crepom e tem negros olhos de cartolina,

minha menina
 
Os crepúsculos dos dias
 
E o sol que me ilumina, de papel também os são
 
De papel minha alegria,
 
Minha poesia
 
O tremor que há algum tempo se esqueceu nas minhas mãos
 
Meu sentimento banal
 
E de papel picotado é o meu discurso
 
De papel carbono a minha personagem
 
en el gran circo del mundo
 
sem lona e sem picadeiro

abarrotado de bilhões tão parecidos comigo
 
A vida escrita, em meio ao rebuliço,
 
é guardada em maços de papel almaço
 
Meu susto rabisco, traço e esboço em papel vergê:
 
Grite agora ou cálice para sempre
 
Calo-me
 
Morro-me, então,
 
desempenhando o papel de saudade
 
figurando no papel de solidão
 
Aqui fora tudo fica tão calmo

a morte é dissolução

Aqui dentro, textos, poemas, poesias,
 
elegias, madrigais,

bilhetes, cartas, rascunhos,
 
os tratados que pensei, mas não escrevi
 
farfalham
 
trescalam
 
as imagens de tudo que eu não vivi.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A palavra e o poeta


A poesia, esfinge incognoscível,
Semeia na alma o enigma
Perscruta respostas no silêncio das palavras,
Na angústia do solilóquio abstrato e ambíguo
Que se levanta e que recrudesce a cada manhã
Na dissonância entre o discurso e o gesto
No tédio palpável entre o enfaro e o resto
Abre portas
Cria mundos
Adormece o tempo
Decupando os dias
Em palavras laceradas e assômatas

Subsiste em cada palavra a possibilidade do poema
De cambiantes sentidos
Tanto faz se versa sobre a completude
Ou se tem o vazio como tema
A palavra é dúvida, é dilema
A palavra pode ser casta e amar o poeta
Ou então mulher da vida e amar ainda mais o poeta
Mas que besteira homérica que eu disse,
Pois da vida todos somos
E é da natureza da vida cafetinar a existência

Palavra é bicho arisco
Tem mil e um artifícios
Tem mil e um orifícios
Se piscar os olhos
Franzir um talvez no cenho
A palavra foge
Se esconde
Vira segredo
Medo
Agonia
Androginia
Se não cuidar a palavra te enlouquece
Se duvidar a palavra te mata
De mortes muito doídas

A palavra nimba o sonho
E o toco seco e tisnado
Pela queimada e a ambição
A palavra deita-se ao sol
E pega um bronze legal
Se é branquinha fica morena
Se é morena fica uma mulatinha sensacional

A palavra sobe na árvore
E cai ao soprar do vento
E se despedaça e se mistura
E se deriva inteira
Necessitando de sufixos e prefixos
E se torna indeslindável
É preciso, para entende-la daí em diante,
consultas terapêuticas constantes a um bom dicionário

Num só instante
A palavra é fogo
É água
Alegoria
Centelha
Substância
E essência
Alma
Descrença
Pecado
Linimento e danação

A palavra que a tudo define também de tudo definha
A palavra flutua
Sobre o silêncio do rio
Diz noite
Melancolia
Eternidade
Enlaça a cintura do sol
Diz teu nome
Vira poesia
Suavemente poetiza-se
Veste amarelo
Gira como um girassol
Flerta com o poeta na janela
Aceita o convite do poeta para entrar
Se deita com o poeta
E faz amor com o poeta
Em várias preposições
Ama-o pela frente, por trás
Dá a bundinha
E ama o poeta como se ele fosse
Seu substantivo próprio
O adjetivo mais primitivo
Advérbio de tempo, lugares e modos
Negação, e dúvida
Verbo transitivo, intransitivo, bitransitivo e de ligação
Conjunção carnal, anal, oral, et cetera e tal
Tudo muito tesífero, tudo muito gostosinho e legal
Interjeição de prazer e gozo
Artigo, a princípio indefinido, crescendo e definindo-se, latejante e duro no afinal
Numeral: uma, duas, "n" vezes, conforme dite o desejo e o tesão e a natureza
Pronome do caso reto e duro, obliquo, quando ela lhe dá a bundinha
Ama o poeta como se ele fosse seu único homem

A palavra e o poeta saem de mãos dadas a passear
Nas ruas
Nas calçadas
Na praia
No jardim
A vida boba, assim
De repente
Ela pede pra voltar pra casa
Diz que já está com saudades
Que quer um beijo onde vaza
seu mel de abelha rainha
Nem bem entram em casa
A palavra levanta a saia
E entrega-se à vertigem
Ele dela enamorado
Ela dele amante e confidente
Geme como uma virgem
Incendeiam o ar parado e frio
Banham-se das águas sensuais e tépidas
Que escorrem de sua gruta quente, seu rio
Flutua
Cio no cio
Dá a bundinha

A palavra não tem limites
Bebe, toma só mais uma, a saideira
Fuma, cigarro de palha e cigarro com piteira
Joga, na loto e no bingo, joga pela vida inteira
Trepa, até saciar a fome
Goza, tresloucados gozos de menina
Anda sem calcinha, a danadinha
Dá a bundinha
Mija no box do banheiro
Cicia, chama o poeta
E volta a foder no chuveiro

Pinta e borda
Faz gato e sapato do poeta
Acorda-o de madrugada
Não lhe deixa mais dormir
Beija, lambe, chupa, mordisca, o pau duro do poeta,
Trepa
Dá a bundinha
Sussurra reza e oração
E coisas dignas de excomunhão

A palavra não tem  momento
As palavras mais bonitas só se entregam ao sentimento
Sendo dele esposa e amante
Puta e acompanhante
Cerne e sumo
Caminho e rumo
A palavra bonita só dá para quem lhe dá carinho

A palavra, como se nota,
Se deixar ela falar, não cala nunca
E fala tanta besteira
E fala tanto palavrão
A palavra só se aquieta depois de atormentar muito o poeta
E foder com o poeta, e cansada diz "eu te amo"
E só se cala e só termina quando começa assim: FIM

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL


Que no seu natal tenha um sol antes da neve

Que o brilho dos teus olhos seja o mais belo enfeite na tua árvore de natal

Que o amor incondicional reconcilie seu coração

Que não precises de ouro para seres feliz

Mesmo que as tuas palavras possam vir a ser pecado

Que os teus gestos sejam sempre a remissão

Abre as janelas

Deixa-te embriagar pela ternura do terral

Na algazarra das crianças já é natal

Nos jardins a vida já está madura

A chuva molha as florezinhas de papel

Crianças estendem as mãos, pedem nas ruas

Algo além da fantasia de um Noel

Nas ruas onde as crianças pedem não cai neve

A vida é premente e o tempo do semáforo é curto e breve

E papai Noel não consegue chegar com seu trenó

Para elidir tanto vazio e tanta solidão de ser tão só



*As rimas ficaram pobres, forçadas, sem ritmo. Me perdoem. Não consegui fazer coisa melhor. Se bem que o mais o gostoso é a brincadeira, é o fazer ou tentar fazer. As rimas ficaram tão pobres quanto os (Eu ia dizer tão pobres quanto os meninos de rua. Mas, não posso dizer isto. Os meninos são mais pobres. Bem mais pobres. Nada têm. A rima por mais pobre que seja ainda tem a poesia e a mim a cutuca-las. E isto já é muito.

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Ouvem?

São fragmentos de canções que o vento traz

São anjos a cantar de pés descalços, trajes puídos

A nos lembrar que o natal é todo dia (ou deveria ser)

Todo dia há fome e miséria

Todo dia há guerras e arrivismo

Todo dia há um sorriso a ser dado

Todo dia há um abraço a abraçar

Todo dia há um perdão a perdoar

Todo dia (todo instante?) há um poema a poemar

Todo dia o dia faz poesia, entrega pra noite e se vai

Todo dia

Todo dia

Todo dia a vida cabe num poema

Todo dia a vida é um poema,

Como a manhã que nos chama, todo dia

Seja o céu azul ou um borrão

Levantamos, e com a nossa melhor voz,

o nosso gesto melhor, a alma ardendo,

danamo-nos a declamar

a nossa melhor poesia



Feliz natal, Feliz natal!

FELIZ NATAL A TODOS!!!

A vida em preto e branco


A vida dormitava letárgica, em preto e branco
Eu não sabia o que era o amor
Eu não sabia que os anjos dormem em ninhos
Nada era meu
Nada
Nem o tempo que cai e se distende
Nem o destino e seu silêncio incognoscível

Ao sublime devanear da vida, dos sonhos coloridos
Meus olhos inocentes se encantaram
Não é lindo o jeito como ela descansa?
E agora quando chove as cores molham os dias
O arco-íris suspira, reverbera, de leve cobre o chão
Onde é que eu vou arrumar cores assim?
Onde o céu esplende luas vermelhas, noites de prata, sóis de marfim
Procurei, procurei, procurei...
O vento azul e doce bradava, esbatendo o entardecer:
A primeira coisa que devemos fazer é separar as coisas agradáveis
daquelas que são desagradáveis
Nos olhos do vento a lágrima ainda era escura, ainda havia sombras
Enfatizando a continuidade ao invés da alteração

As flores agora são verdes, vermelhas, amarelas, azuis
Vistas com os olhos do sentimento e da estesia
Nos jardins havia inquietação de cores
E havia a mão e o grito insontes nos lábios do poeta

Onde é que já se viu?
Como puderam fazer isto?
Puxa, está tudo tão esquisito
O que saiu errado?

As pessoas mudam
E não voltam a ser o que eram?
"A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original"

E de tanta palavra sem cor, sem arrepio, fez-se o silêncio
Não tive a intenção de magoar ninguém

Nada existe aqui fora
Todas as coisas estão dentro de você
Talvez você só saiba quando perde

Ela não está linda daquele jeito?
Ela não está tão bonita como da primeira vez que a viu?
Ela não está linda?
Você gostaria de dizer isto a ela?
Você não pode parar o que está dentro de você

Borboletas carregam o dia repleto de Tempo
O Tempo é mais que a espera
Não se esqueça de mim. Mesmo que você nunca volte

Amo você
Eu sei
Amo você também

Eu tinha a vida certa
O que vai acontecer agora?
Eu não sei
E você, sabe o que vai acontecer?


Este pretenso poema é uma brincadeira que me ocorreu fazer ao assistir o filme "A vida em preto e branco". As frases em itálico foram extraídas aleatoriamente dos diálogos no filme, portanto qualquer semelhança com pessoas e fatos da vida real é mera coincidência. A frase entre aspas é de Albert Einstein. As demais frases são de minha criação.

O texto está meio sem nexo. Por incapacidade minha e por que não consegui pegar o começo do filme, o que torna o início dos diálogos meio truncado.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A vida não dorme


O vento, irrequieto, gira revoluto
Misturado à noite translúcida e singela
Arranhando  as treliças da janela
O som ciciante do vento na janela me pesa nos olhos
Adormeço
Não sou feliz, nem sou triste
Adormeço e a vida, com suas horas inúteis e sua danação, para
Durmo enlaçado à última palavra
Que a mão derrubou na folha, eu já quase adormecido
Durmo enlaçado aos vendavais
E aos redemoinhos espiralados no bulício dos quintais
Que não dormem em tempo algum
O sono preenche o quarto e a mim de escuridão
Nem sonhos nem pesadelos nem mundos outros
Vêm me pegar pela mão
Tudo calado e numeroso escuro
Meus olhos estão cegos de tanta noite
Em cima, embaixo, ao redor de tudo
Escuro, escuro, escuro...
Pra que escuro tão grande para uma vida tão pequena?
Minha alma deitou-se nua e possuiu meu sonhar
A noite amarelada apartou o medo que me repete desde menino
E me esconde durante o dia
O medo enrodilhou-se do outro lado,
Junto aos pecados e à impiedade
Medrando a vida desperta
Repleta de uma realidade imposta e impostora
A vida aflita e miúda, antiga, hipócrita e demagógica
Ainda é cedo para se derramar as lágrimas sem culpa
A madrugada veda os vidros miméticos das janelas
E as suas mixórdias de sombras e sons
A cidade dorme, ressonando o chiado dos carros
E resfolegando o cansaço das ruas
Os homens abastados dormem, subjugados e felizes com seu ouro,
Com seus carros, seus cartões de crédito,
Conta fria no estrangeiro e suas mulheres impolutas
Os homens humildes dormem, subjugados e felizes,
Com seu arroz com farinha, de vez em quando feijão,
Com seu café requentado, seu pão duro e adormecido,
Sua marmita de flandres, dentro, por cima de tudo,
Um ovo estrelado, por baixo e em volta o resto de ontem
As sarjetas dormem, fétidas corredeiras do luxo
Que a cidade venera tornado em lixo
Os cães ladram baladas dolentes para que um outro cão responda
O desconforto agônico não dorme jamais
Na madrugada opalescente lampeja o verde de um vaga-lume
Uma criança chora o choro, que o peito da mãe calará?
A alma palmilha a migração dos pássaros e a giração dos mundos
A aurora espera no escuro
Espera, distraída, o esquizo dia sair da caixa do remédio de tarja preta,
vestido na bula
E assim dizemos com arrogância e douto saberque a vida é como é
É hora do desassossego cavucar e cavucar
Para ver se alguma coisa acontece
Faz anos que nada acontece nesta sesmaria
Só mesmo a sina e o destino para medrar tanta letargia
Sob o olhar triste, remelento e medroso dos moleques dos semáforos
Calma, não vamos desesperar
O vilipêndio está lançado à terra fértil, um dia vai germinar

O cão dormita sob a escada
Travesseiro de si mesmo
Em volta o vulto do vento se acumula e zumbi
O Universo, por estas bandas de cá,
Dormita sem descuidar dos filhos seus
A bilha ao alcance das mãos
O Universo nos olha pelos olhos humanos de Deus
O céu marisca estrelas
O abacateiro, lá no fundo do quintal,
Derrama sombras e sons de folhas e galhos
Num vozerio ininteligível e insistente
As pedras da rua bebem a lua
Um bêbado, sonolento e vacilante
atravessa a noite ziguezagueando desgarrado da chusma
anestesiada e dócil
Tosse e balbucia palavras engroladas para um ouvinte ausente
Adormece na calçada, hotel com milhares de estrelas
Sem mais perguntas nem filosofias, a não ser as que deixou no bar
Enquanto durmo ruminando o sonho cenobita

Que ao raiar do dia a vida rediviva, atada ao sol,
Me entre pela janela e me acorra de tanta dúvida e medo
E não se esqueça da minha dor sem remédio
Do escuro que, seja noite, seja dia, se alastra em minha alma
E sufoca com tanta tristeza e tanto vitupério
E não me faça mais chorar
Só não me faça chorar

Debaixo da escada o cão se coça sem despertar
Talvez sonhe com o osso que a vida há de lhe dar
O gole d'água
E uma sombra inerte pra voltar a descansar
O peso desta vida de cão

A madrugada sonolenta boceja diante do discurso das horas
O incriável, o inominável,
Toda a beleza do mundo flutuam como uma pena no ar
Como o azul sobre o mar
Como o amor que te ama
E que te leva pra passear
E que te leva pra cama
E flerta com os teus lábios
E os desenha com os dedos
Estremece
O beijo pejado, tirado às páginas de um livro
E cartas cheias de amor
E algumas iluminuras, palavras para enfeitar o que vivo te dizendo
O amor, fragmento de Deus, também flutua no ar
E em sonhos se apresenta tirando a roupa aos amantes
Insinuando-se, unindo amados
E sequiosos, molhando de tanta tentação camas a corpos
Deve ser assim
Me embriago
Amo a cruz e o pecado
Ando sobre a areia quente dos medos
Por não vislumbrar outro caminho
Ando ganindo, com os olhos tristes e sozinho

A vida não dorme, dormita
As estrelas põem brincos na noite
A lua perora no céu suspiros prateados e versos meneantes
Cabe ao vento revoluto versejar as pétalas das flores
Depois que o dia raiar
Antes do mar secar
Depois que a felicidade voltar dos campos pendoada de sonhos
Depois que a chuva cair, tamborilando nos telhados
Depois do beijo na nuca
"Eu te amo", digo às mulheres que ficaram em mim
Acordo para o dia amarelo
Num tempo antigo
Anterior aos dinossauros
Anterior à palavra,
Mas, já cheio de espantos e de sentimentos
Chove
A chuva é hoje, é agora
Sinto falta de uma poesia que fosse minha
Queria tanto dizer: "Chove! Amo a chuva e quem chove"
E que isto dissesse tudo
Fosse espelho e provocação

E tudo que era era segundo a sua natureza e seu devir
O mundo, sabático,
Medita,
Sofisma,
Sopita,
Mas, não dorme

domingo, 21 de dezembro de 2014

Pingo


A noite insone e sozinha não me deixa dormir,
busca entre as sombras dolentes um confidente
que possa ouvir tanto silêncio
Me acorda na madrugada
Quem sabe o que quer comigo?
Vou à sacada
Acendo um cigarro
Acendo lembranças,
abrindo o sonho com as mãos
Sinto a brisa arrepiando-me o corpo como faziam
a mulher amada e a volúpia dos seus orgasmos
Na noite insonte tudo que vive cicia a carícia de um nome
Teu nome que não termina e retorna e me acha e me chama
e me deixa nostálgico por demais
Sentamos, meu coração e eu, na beirada da noite para te ver chegar
e repaginar tanto sentimento
Penso em você e borboletas voam no rastro da imaginação
Abraço a lembrança como abraçava você
Escuto a tua voz de menina dizendo no meu ouvido:
"vem, anda beijar meus peitinhos"
Teus seios castos que cabiam inteirinhos nas minhas mãos,
na minha boca e que couberam pra sempre na minha vida
Cabiam exatamente nos beijos que eu só tinha pra você
Teus peitinhos despontando na saliva morna das tardes de um tempo
que pôs você em mim e nunca mais você foi embora
Tua nudez melodiosa deslizava na minha nudez ávida de ti,
montava em mim,
me engolia,
sem pressa,
se derramava em mim
indecente como a cama no chão
como o desejo que vai da boca pra mão
Tua nudez esquecida do vestido e da calcinha,
com lacinho na frente e bichinhos estampados,
tatuou os meus sentidos com a brasa incandescente
do teu corpo fogoso,
do teu desejo enchendo de súplicas os nossos dias,
do teu beijo rubro que murmurava o passado irreversível
latente dentro de mim

Na noite fica este aroma de nostalgia
Todos os ventos silenciam e a folhagem estanca
É tempo de solidão
Tempo de eternidades revolutas
É tempo de escrever novamente o teu nome nos muros
das casas do bairro
Psiu, psiu, menina dos olhos que apagam a luz,
meu coração precisa urgentemente
pegar, afagar, beijar tuas mãos,
como eu fazia, borboleta amarela namorando o jardim em plena primavera,
enquanto a vida tecia, à sorrelfa, a saudade
que ali adiante me esperaria

Um aperto no peito soa
e se esparrama como o teu cheiro se esparramava em mim
A lua dorme na relva de nuvens e não vem espiar os meus olhos lacrimejantes
Mas, eu canto
Cantarolo, só pra mim, a canção que te despia e te absolvia de todo pecado
Não importa se a canção traz de tão longe tanto beijo,
tanto latejo,
tanto roçar,
tanto desejo
tanta luta,
tanto suor,
tanto dedo,
tanta mão,
tantos ais,
tanta inocência
Eu canto pra tua ausência presente dentro de mim
Eu canto mesmo assim

O ar é só brincadeira dos pássaros meditando a manhã
Os pássaros trinam segredos azuis e brancas formosuras
Tudo como na primeira vez
Se houvesse o tempo

A cidade ressona
Um carro, boquirroto, se repete em seu som modorrento,
segue exausto o seu curso,
sem eira, nem beira,
doendo nas curvas metuendas e rascantes

Há plenitude no quase silêncio que alumbra
No indistinto silêncio efêmero estremunhando o mundo
No quase poema
No eterno dilema
entre pintar ou bordar com você
Com você, no nosso mundo, eu pintava e despintava
bordava e desbordava
beijava e desbeijava sua nudez de menina
e vadiava contigo até nossos desejos ficarem quietos e calados
e a taça borbulhante transbordasse de tesão
e o amor trouxesse o cansaço
e você dormisse em meu braço
o sono sem pecado da criação

Meu mundo,
assim percebido entre a noite elementar e o nada absoluto,
quieto como um furacão que se arma na vã placidez do passado,
pergunta, gesto ou tremor subentendido,
escondido
meu mundo, arquétipo involuído dos meus medos,
por um instante inebria-se em rumores e em travessos segredos
que confabulam palpitantes o que fui:
menino sem razão,
transido de liberdade,
que nunca vai morrer de coisa à toa
apaixonado pela menina da rua
embriagado pelos seus pulsares
e a noite que dorme nos teus olhos negros
Confabulam palpitantes o que sou:
um homem sonhando amores adolescentes na madrugada silente
buscando em meio ao negro da noite os olhos negros de Pingo
Pingo d'água, Pingo de amor, Pingo de fogo
Seria Pingo só por ser pingo de gente?

Pingo, passaram-se dias e noites,
alguns ficaram em retratos,
outros aos poucos enlouquecem,
andam em círculos,
escrevem cartas com canetas de tinta invisível
bebem saudades,
deglutem o tempo...
não sabem, querida, que o tempo não passa para o amor

sábado, 20 de dezembro de 2014

Preciso de um amigo, não de um juiz


Preciso de um amigo, não de um juiz
Preciso de um amigo que me lembre o que de mim esqueci
O que de mim, precipitado, misturei e confundi
O que de mim nunca soube
O meu texto e a minha exegese
Minha cegueira e meus passos desesperados
Minha essência emanada, pouco a pouco, dos instantes de muitas vidas
Dos tantos medos,
cansaços
Das lágrimas que o vento enxugou num afago cálido e terno
Das lágrimas que rolaram pela máscara kabuki da terra seca no meu rosto
Da soberba que recrudesce e me entorpece e me petrifica a alma
Da voragem insaciável do meu ego caótico e inebriado,
flutuando entre a luz e a escuridão dos becos esquizofrênicos e opiáceos
Do meu mundo de faz de conta,
dos meus castelos de areia,
da minha terra do nunca,
do nunca na brincadeira,
das fábulas que me instigaram,
da minha mente que mente,
do meu eu que desmorona e ausculta os solilóquios do medo
Da torrente impetuosa que gira e move e transborda
o escuro e revolto do meu âmago bipolar

A minha mão indecisa, um dia, escreverá os poemas que regressaram comigo
Serei poeta por um dia, que seja
Mesmo sem saber faze-lo (sê-lo)
Alguns lerão os meus versos e dirão: que desespero
Há os que verão no que escrevo leitura para o banheiro,
Haverá os juízes, de dedo em riste, que darão a sentença:
"morto estaria se viesse aqui buscar dinheiro"
Outros, ainda, a maioria, numa indiferença cotidiana e contumaz ,
sacudirão as palavras todas ao lixo do esquecimento
Cada um no seu momento
Cada um no seu lamento
Cada um no seu tormento
Para cada qual sua dor, sua sina e seu linimento

Preciso de um amigo que me ouça,
sem perambular pelas minhas palavras em busca do bem e do mal
Preciso de um amigo não juiz, sem juízo
Um amigo irremediavelmente mortal,
inconsequentemente surreal,
que coma comigo o sal,
um amigo et cetera e tal
Não precisa gostar de poesia,
nem de ver o pôr do sol na praia da Daniela
nem a luz que inventa o dia,
nem questionar qual é a estrela mais bela
mas que tenha estesia,
volúpia e uma alma com pontos de exclamação, reticências,
vírgulas e conectivos, sem o cruel ponto final.
Que tenha linhas e mais linhas,
parágrafos e mais parágrafos repletos de pontos de interrogação
Que seja original na essência
e sobretudo humano,
suscetível ao toque e ao olhar
E mesmo que eu me cale,
que eu nunca mais diga nada,
o meu silêncio seja para ele tão eloquente
como o silêncio que cicia, se alteia e dialoga com a madrugada
Que seja como eu, condenado, à revelia, à existência solitária e sisifista
de buscar verdades e mentiras dentro da impermanência
e da grande ilusão de Mara que nos cega os sentidos
Condenado a vestir e despir a sombra e a persona incognoscível
sem atinar muito bem com a fantasia
e o segredo que nos mantem em pé mesmo que oscilantes
Que não tenha medo do exílio da morte indecifrável que nos espera sob as fases da lua,
sob o sol das manhãs, mergulhada na catarse do sono final,
que em nosso sonho se aconchegasse
e se aninhasse
e em nossos braços adormecesse
E, assim, a vida fizesse-se ausente
E morrer é seguir em frente
Pelos caminhos tocados pela metáfora da noite rediviva,
pelos rios onde o passado, o presente e o futuro se alinham

Escancaro as janelas da minha morada
Ainda há sombras arrevesadas buscando significações
A vida mascarada pelo lusco-fusco, virada do avesso
Onde o fim?
Onde o começo?
A minha vida se esconde
sob as pedras do jardim
Meu amigo há de trazer sóis incandescentes, luas cheias de centelhas,
para iluminar o escuro
do que de mais noite há em mim