A cidade dorme
Os jardins da cidade dormem
Dormem as flores e as pragas
embalam-se no afeto do vento
envoltas pela luz da lua
Dormem os chafarizes
sob um arrepio de estrelas
e os olhos cerrados das palmeiras imperiais
Todas as varandas e terraços da cidade dormem
Dormitam reposteiros e janelas
Dorme, esvaída, a vadia vergonha
A cidade sonha
sonhos esconsos e desgarrados
A cidade ressona
imperceptíveis segredos
manietando palavras
e o silêncio tátil que não sai nem tenta
enchendo a noite de apreensões
ardendo dentro dos medos
Sombras caminham pelas ruas vazias
penetram pelos vãos das mentiras
pelos desvãos dos telhados
mancham a neblina
tocam as vitrines
a efêmera nudez dos manequins
trocam de lado
Um gato preto salta para dentro do escuro
que se desprende fortuitamente do ar
Em cada esquina assomam mistérios
pervagando os cruzamentos
A cidade recende a pressagos silêncios
lugares já esquecidos
ao gosto salobro do mar
ao perfume suave e intenso da luz da lua
a algo entre a melancolia e a mansidão
ao astros acordados
com medo da solidão
enquanto dorme nas esquinas
o nada em meio à escuridão
Os muros ao redor do homem não dormem

sexta-feira, 24 de julho de 2015
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Toco
Toco os bosques e as
matas
toco o tempo e as
épocas
já me fiz barco,
canoa,
veleiro, vento,
morada
de esvaídos
pensamentos
toco o medo e sua
fadiga
toco a noite e sua
penumbra
que escorre pelas
vielas
caminhando por
entre o vazio
e o espaço onde
antes havia um poema
com/passos
encharcados de não ter sido
tudo demasiado
longe
rasgando horas
dissolvendo
instantes
cansaço
o tempo entornando
medos e cismas
e velhas auroras
deixando pra
sempre no ar
sua essência
e seus segredos
esquecidos os dias
que nasciam do rio
e no rio se
acabavam
e(s)coando por
entre as pedras
em diminutas
mortes
esvaindo-se nesta
descoberta
renascendo nesta
rósea poesia
que a queda da
estrela escreve
na extremidade
escarlate e antiga do céu
incauto
terra pronta para
a semente
lento caminho
onde azuis
peregrinam
e arcas de nuvens
improvisam rasantes figuras
esculpindo a forma
lapidando os
fragmentos do horizonte
Toco o som e o eco
toco o desejo e o
asco
já me fiz
desfiladeiro, penhasco
lago, rio
cachoeira
de evanescidas
palavras
toco o menino e o
velho
toco o fim e o
começo
buscando o tempo
oculto
atrás do tempo
ensimesmado pelas
pessoas que fui
pelos olhos que me
olham desde o passado
Toco o amor e o
silêncio
toco o exílio e o
degredo
toco a sombra e o
medo
atravessando
insaciáveis madrugadas
carcomidas e
escuras horas
em noites inexoráveis
enrodilhadas ao ávido
abismo
ruminando amores
entre intenções
beijos que desperdicei
o ciciante aroma
das noites
o íntimo perfume
de mulher
o sopro de
antigamente
rodopiando
lentamente
e alucinando
as miragens e os
desertos
por onde flutuam
os caminhos em movimento
flutuam estrelas
num céu solitário e onírico
flutua a lembrança
do mar pervagante
Toco a tristeza e
a melancolia
toco palavras e as
letras
toco os
redemoinhos e a ventania
apinhados de
poesia
se dispersando
em ausência
domingo, 19 de julho de 2015
Antes não era assim
estes momentos indiscerníveis
tardios
espessos
cansados
só hoje é assim
antes não era o poema
não era o regato
não era a meiguice
não era o dilema
contido em tudo
não era a sombra da noite
a colecionar horas
não eram os olhos da Criação
e os redemoinhos prenhes dos quintais
só hoje
só hoje o regato escorre cúmplice das pedras
a meiguice afaga a face e o bulício dos meninos
emboscando lembranças que foi buscar no futuro
e no dilema singular onde crepitam labaredas
e os anos todos saindo de velhos baús submissos
acordando as madrugadas
bordando suspiros e imagens quiméricas
o dilema enrodilhando-se absoluto e desafiador
fecundando outro dilema
alaridos ondeando na cama
sem sono
só hoje
o silêncio alegórico das sombras
o tempo contemplando a solidão
os segredos
os medos
o pensamento,
mudo receio
despindo-se
dançando nu
na noite galopando rumo à claridade
portas
janelas
fechadas
namoro
o amor arfando
o beijo
o portão
a vertigem
acolhendo os corpos
seios e mamilos acariciando mãos
o jardim ondulando ao luar
emergindo da crisálida primavera
a rosa aberta em três versos
desmanchando a noite
manipulando perfumes
fascinando
inscrevendo sutilezas no ar
organizando a aurora sobre o mar
só hoje o poema se revela
e se arremessa como seta
como um tigre inefavelmente belo
incomensuravelmente ágil
emergindo furtivamente do meio da folhagem
antes que o vento o denuncie
salto
abandonado no ar
sonhos em fuga
para o tigre (ou o poema) não lhes pegar
antes não era assim...
não era...
só hoje
sábado, 18 de julho de 2015
Diz o poeta
entre persas, egípcios, gregos e romanos
entre mandarins e samurais, incas e astecas
inúmeros
foram os que
como os medievais, os renascentistas, os barrocos
e de lá para cá
incluindo os enciclopedistas
- que sendo racionais
tinham lampejos emocionais
certamente
que todos esses
filósofos ou não
chegaram a conclusões
idênticas
às que temos sobre a vida, o amor e a morte.
Independente das roupas e comidas
se viviam a beira-mar ou na montanha
se foram nobres ou plebeus
a sabedoria humana
resume-se a duas ou três pequenas coisas
difíceis de alcançar:
conseguir a casa e o pão
equacionar o amor e a morte
e constatar
que o poder
leva alguns a delirar
Coisas assim, tão comezinhas
que nos tomam a vida inteira
não para entender
- para aceitar.
Affonso Romano de Sant'anna
In Vestígios. Pag. 89. Editora Rocco. 2005.
Diz o poeta que a vida toda é isto
conseguir
conseguir
o morar,
o comer,
encaminhar a solução
encaminhar a solução
do amar,
do morrer,
e a estreita constatação
de que alguns podem ter delírios de poder
de que alguns podem ter delírios de poder
e, desde então, caminhamos tantos caminhos errados
nos enredamos em fugas e escapes
nos enredamos em fugas e escapes
ficamos paralisados diante do escuro abismo
diante do inextinguível desconhecido
entre
diante do inextinguível desconhecido
entre
gritos,
imprecações,
palavras envenenadas,
muitas vezes ensandecidas
como se a vida fosse um medo
que nos assusta e subleva
e nos impele uns contra os outros
em monólogos ininteligíveis e pretensiosos
em sórdidas disputas ególatras
em monólogos ininteligíveis e pretensiosos
em sórdidas disputas ególatras
em monótonas e insanas guerras exteriores
vazando de dramas pessoais
da insuportável aflição que é não conhecer-se
e ignorar a guerra interior
que redime e liberta
guerras exteriores
vazando da inesgotável e cansativa intolerância
das ilusões que exasperam
das incompreensões viscerais
crenças incontinentes
seitas onde moram o desespero
e a ausência de fé e compaixão
da ausência da alma
embaçada pelas falsas imagens no espelho fosco das vaidades
guerras feitas de interesses escusos
e da ausência do humano
mimetizada em ódios
preconceitos
e o arraigado conceito enganoso de sermos melhores
do que aqueles a quem atacamos
vazando de dramas pessoais
da insuportável aflição que é não conhecer-se
e ignorar a guerra interior
que redime e liberta
guerras exteriores
vazando da inesgotável e cansativa intolerância
das ilusões que exasperam
das incompreensões viscerais
crenças incontinentes
seitas onde moram o desespero
e a ausência de fé e compaixão
da ausência da alma
embaçada pelas falsas imagens no espelho fosco das vaidades
guerras feitas de interesses escusos
e da ausência do humano
mimetizada em ódios
preconceitos
e o arraigado conceito enganoso de sermos melhores
do que aqueles a quem atacamos
e a vida inteira se dissolve no tempo
e no desespero das contradições
em busca da explicação (constatação?)
que nos faça aceitar
a morada em que vivemos
o alimento que comemos
o amor que nos sustêm
e a morte,
esta noite que acontece de repente
intempestivamente
este encontro com a névoa
e o imponderável
sem se saber se haverá outra(s) vida(s)
outra oportunidade de extirparmos a ignorância
numa segunda,
terceira,
enésima vez
sem se saber se haverá outro lado
céus e infernos
sopesando erros e acertos
decompondo os detritos do drama
que se viveu (que se vive?)
e todos os dias o assombro do entardecer
derrama-se mar a dentro
por vezes deixando um espasmo vermelho nas águas
deixando a noite a espremer-se entre o ocaso e o cotidiano
a vida boceja e acomoda os olhos à escuridão
o dia esvanece
sem remorsos
sem culpas
ou medos
cicatrizes
entre descansados segredos
e no desespero das contradições
em busca da explicação (constatação?)
que nos faça aceitar
a morada em que vivemos
o alimento que comemos
o amor que nos sustêm
e a morte,
esta noite que acontece de repente
intempestivamente
este encontro com a névoa
e o imponderável
sem se saber se haverá outra(s) vida(s)
outra oportunidade de extirparmos a ignorância
numa segunda,
terceira,
enésima vez
sem se saber se haverá outro lado
céus e infernos
sopesando erros e acertos
decompondo os detritos do drama
que se viveu (que se vive?)
e todos os dias o assombro do entardecer
derrama-se mar a dentro
por vezes deixando um espasmo vermelho nas águas
deixando a noite a espremer-se entre o ocaso e o cotidiano
a vida boceja e acomoda os olhos à escuridão
o dia esvanece
sem remorsos
sem culpas
ou medos
cicatrizes
entre descansados segredos
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Brasilinos
Projeto de Constituição atribuído a Capistrano de Abreu:
Art. 1º - Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.
Parágrafo único:
Revogam-se as disposições em contrário.
Somos
indolentes
impudentes
indecentes
insolentes
indiferentes
impenitentes
impersistentes
incongruentes
inscientes
intransigentes
irreverentes
imprevidentes
inconscientes
somos ardentes dementes
somos ardentes dementes
entrementes
e entre dentes (os que sobraram)
resmungamos
das mazelas do país
tudo culpa do outro,
este desinfeliz
que não se exauri
de tramar maracutaias
e falcatruas
e falcatruas
viver de pequenos
e grandes golpes
e grandes golpes
culpa das Vossas Excrescências
dos políticos ladrões
sem complacência
sem competência para a virtude
sem competência para a virtude
culpa do bispo e do papa
culpa da sanha cafajeste
deste povo fanfarrão
e brejeiro
culpa do mundo inteiro
culpa do povo brasileiro
culpa de Deus e do mundo
culpa deste povo vagabundo
do qual, é óbvio, não fazemos parte
apesar de termos nascido
neste país rubicundo
neste país rubicundo
e aprendido desde cedo
que o legal é levar vantagem
que a honestidade é uma vergonha
que mesmo com muita farinha
meu pirão será o primeiro
que estudar e se instruir é pra babaca
que o bacaninha é se dar bem
é dar um "jeitinho"
olhando só pro próprio umbigo
falta muita coisa neste país
faltam otários
sobram espertos
repetindo sempre o mesmo discurso surrado
"se os outros fazem o que é que tem?"
falta muita coisa neste país assombrado
e atraiçoado
pelos fantasmas de cinco séculos
de servidão amoral
de rapinagem aclamada
de culpas
sem responsáveis
da carência sibilina e primordial
deste insopitável alento
chamado "VERGONHA NA CARA"
que o legal é levar vantagem
que a honestidade é uma vergonha
que mesmo com muita farinha
meu pirão será o primeiro
que estudar e se instruir é pra babaca
que o bacaninha é se dar bem
é dar um "jeitinho"
olhando só pro próprio umbigo
falta muita coisa neste país
faltam otários
sobram espertos
repetindo sempre o mesmo discurso surrado
"se os outros fazem o que é que tem?"
falta muita coisa neste país assombrado
e atraiçoado
pelos fantasmas de cinco séculos
de servidão amoral
de rapinagem aclamada
de culpas
sem responsáveis
da carência sibilina e primordial
deste insopitável alento
chamado "VERGONHA NA CARA"
domingo, 12 de julho de 2015
Eterno
O vento sopra
caminhando entre enganos
e penumbras
e memórias
seus passos somem sob as folhas
que ele mesmo sopra e derruba
faz girar os cata-ventos
que girando catam o vento
e espalham pelo ar momentos calados
idênticos em propositura
inventando ocasos e auroras
das nódoas coloridas e indefinidas do ar
demasiadamente puras e inocentes
inefavelmente belas
feito bolhas de sabão
ardendo inigualáveis infâncias
fitando o viandante com olhos de mistérios
imprecando num caminhar cúmplice da cegueira
na estrada maltrapilha que não se mostra
com tanto passado atravessando perguntas
suplicando candura e aceitação
a morada é longe
e apenas a promessa do retorno
goteja e lhe dá dignidade
são repousantes as águas do regaço
indo embora...
indo embora...
outra vez
fugindo para os bosques
onde cabe o outono e suas luzes amenas
os pássaros que vieram de longe
e a neblina que os trouxe
cabem os poemas vagarosos
límpidos como campos em silêncio
suavemente olorosos
enternecidamente amorosos
incontidos como as chuvas
batendo nos telhados de telhas de barro
escorrendo nas janelas amarelas
curtinhos como a luz limitada das candeias
imensos como as vidas eternas
levíssimos como dentes-de-leão
com suas florezinhas delicadas espiralando
desafiando o ar
cabe o fim de tarde sem girassóis
a noite sem estrelas,
sem fé
cabe o rodopio do mundo
as contumazes madrugadas palreando egolatricamente
de onde voltar não é mais possível
cabe o pensamento e a forma
a pulsação das flores
as folhas arrebatadas
as corolas pueris
os caules aveludados
as cores esplendorosas
pois que tudo está em tudo
e tudo está no Eterno
domingo, 5 de julho de 2015
As vidas e as mortes
desmanchando as pedras e a vida, lenta e resolutamente
verga o capinzal sobre o lago
crispa as aguas
arrasta as folhas desfazendo o silêncio da noite
que se esconde dentro da tarde
onde tudo finda e recomeça
uma noite apos um dia apos uma noite...
que não são percebidos igualmente
Assim como creio que não são precebidos igualmente por todos as noites e os dias
creio, sinceramente, que a percepção da morte não é igual para todos
pode ser parecida,
mas não igual
Assim como a percepção da vida não é igual para todos
pode ser parecida,
mas não é igual
Creio que, como na vida, a percepção na morte
depende das vivencias e dos pactos de cada um
Creio que morre-se como se vive
e o depois da vida está mergulhado e emerge do que se viveu
e creu
e negou-se
e se viveu
nos castelos
nas tavernas
nas cidades frágeis e canalhas
Os mundos da morte são os mundos e labirintos inacessíveis,
porém, possíveis da vida,
da alma, da mente humana e seus ocasos
Não há nada do outro lado que não esteja dentro da gente
céus e infernos
anjos e potestades
tão vários quantos são os seres humanos
e seus passos adiante e suas angústias
aqui e agora
como um compromisso
Os dias, emergindo de auroras cheias de cores,
fazem-se poesia
e confundem-se com as coisas elementares
entre uma vida e uma morte
sem fazer distinção entre o que é uma o que é outra
sem saber o que há entre uma e outra
ignorando o monólogo tortuoso de obsoletas certezas
Como se a vida fosse um longo e obscuro pensamento
que eu não sei despensar
e que me mantém entretido
longe da
Vertigem e da Pergunta
que torna e retorna suspensa e dissipada em momentos de distração
a Ideia Primordial que faz do ser humano ser o humano do ser
que vem na Canção vinda das estrelas
Os dias evolam-se em sua perfeição
Mais um dia de sombras arredondadas
de chuvas e sois equidistantes,
vernaculares,
e uma lua pousada na noite da infância
As cores da tarde submergem no escuro da noite
e suas emanações reverberam, devagar, nomes e sorrisos
conversas troando no lusco-fusco
e a inquietante Pergunta
que retine intermitente e aparentemente inaudível
na essência e no vir a ser
em tantas madrugadas e dias claros
de um sol intenso e silencioso
tornando-se sombra segundo a segundo
sob o disfarce do tempo
A vida é uma brincadeira entre um suspiro e outro
entre o gesto e o acaso
ensonada de instantes e eternidades
brincadeira que eu não sei brincar
num mundo indecifravel que eu não sei olhar
e falho na indecência dos olhos amargos que trouxe comigo
A vida é brincadeira inconsequentemente perigosa,
sutilmente inefável
séria
lúdica
por tudo ser possível desde que caiba num sonho
e tudo, então, se transforma em escolhas minudentes
muitas das vezes audaciosas e intementes
muitas das vezes só escolhas
que farão de uma proposição uma pessoa
ou um amontoado de frustrações e humilhações
Para além do sonho escorrem as águas imponderáveis e secas
e caem as folhas das árvores, sem rumor
sob as nuvens desigualmente brancas,
desigualmente voláteis
Na outra face do sonho o amor vindo nos livros
nas noites de bares
no sussurro eloquente das divagaçôes nas madrugadas
de amores todos possíveis
vencido o medo que aflora umido e dolorido
o amor aceso no fogo das eternidades das sedas dos papéis
presente nos vazios intangíveis e trêmulos das labaredas
que o vento tece
Viver tanto para não ser nada,
por que os caminhos misturaram-se com os ventos
encobrindo a Pergunta e as coisas da vida
quente ou frio,
e sonhar com a morte
e temer as dores da morte dentro dos segundos
a memória afogada em nuvens
que passam daqui para lá
como eu hei de passar
com meus sonhos afetados,
minhas máscaras
e o enganoso silêncio
coberto dos rumores do lado de cá
E pensar na trôpega ideia da morte,
para muitos,
já é, enfaticamente, a morte
como se morrer fosse opção
ou trapaça
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