domingo, 9 de agosto de 2015

O canto silencioso da lua atravessando o céu


O sol vai trespassando a ausência e a distância
entre solitárias sombras
se desprendendo do ar
mergulha lentamente no horizonte
e se cala
e aspira a ternura fragrante do céu
meus olhos a beber das cores que vão caindo
das esquinas
falam de saudades
extasiados e tontos de entardecer

A noite espera,
graciosamente nua,
envolvendo as casas e os ventos

Por entre a vegetação a noite se alteia
sagrada e simples
comovidos, os sinos tangem os céus
bimbalhando Ave Marias na semi-escuridão
alento para as vidas se esboroando

A lua, palmilhando folha a folha,
pedra a pedra,
estende-se languida nos telhados onde o barro
pode ser gente ou flor

Outra noite

O gesto e o passo envelhecem

Caminham os caminhos prosaicos
e monotonamente infindáveis
dos homens reclusos em suas certezas
e nos medos que não sabem partir
sorvendo nos próprios lábios o gosto travo
da solidão de existir

Escuto pelos vieses da noite
a rouquidão do silêncio
falando de mim mesmo
o choro dos galhos ao vento
o medo da flor úmida de sereno
esta fragilidade que não cessa

Na noite inextinguível
tardo a olhar o enigma
o tudo
e
o nada
ludicamente ouvindo

o canto silencioso da lua atravessando o céu

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não sou nada


Nasci chorando

E desde cedo achei que o mundo era estranho
Não o mundo exatamente
As pessoas
As pessoas eram estranhas
Com seus sorrisos amarelos apesar dos dentes alvíssimos
Com suas certezas arraigadas
Com seus orgulhos contemplando a demência
Com seus deslumbramentos cansativos e fúteis lambendo enormes egos
Com seus medos inviolados
Com seus passados que não passam nunca
Com suas impiedades cheias de frustrações e segredos indizíveis
Com suas casas caiadas olhando o passar do tempo
Com suas noites inquietas admoestando a existência
Com suas vidas resignadas
Com suas religiões fretadas a um deus do escambo e da usura
Com seus anjos e demônios,
céus e infernos
Com medo de uma derradeira morte
Com suas vontades insofismáveis de irem para o céu,
mas não querendo morrer
Rezando repetidas ave marias e pai nossos para purgar o mal
dos seus corações expulsos de um paraíso que se perdeu lubricamente
Mas a reza é apenas pró forma
diante da irreprimível tendência de repetir sempre os mesmos erros,
vivendo da sempre mesma luxúria
da insinceridade da intenção de corrigir-se
que um padre ou pastor mendicante ouvirá em nome de um deus
oferecendo linimento e salvação: Ide e pecai,
que nada é o bastante para a renuncia de deus

e, então, tal como a pedra, já não lhes dói outro dia

Hoje, exausto de tanto morrer a morte de todos os dias,
sei que não sou nada
e não sendo nada sei e/ou intuo que o diverso e estranho sou eu
que, insolente, apontava-lhes o dedo
não vendo o lobo
só enxergando a manada
deambulando na jaula das aparências
Não encontro par entre meus semelhantes
Ninguém diz meu nome
Ninguém sabe da minha fome
Erro e não tenho a quem suplicar linimento e paz
Deito e levanto com meus demônios,
cansaços e remorsos a me fustigarem
Diante do rosto fragilizado da dor
sinto os olhos marejarem
O que restou das horas emigraram da terra,
tornaram-se vendavais dessangrando o destino
Meus gestos resvalam a vida
Vislumbro outras possibilidades para a vida e para a morte
porém meus olhos estão desatentos
exaustos de mim
minha vontade, complacente
A mesa está posta
Vencida a fome
no chão restará poeira e migalhas
quando eu acabar de comer e me for
e submergir nos labirintos das humilhações

domingo, 2 de agosto de 2015

O silêncio não existe


O silêncio não existe!

Posto que haverá sempre
o sibilar poroso do vento se insinuando
pelas frestas do dia
infatigável, doce e claro
Rumores de passos andando
no cimento das calçadas
na madeira carcomida da ponte
nas ruas de terra
nos paralelepípedos escorregadios
depois da chuva da noite
nas ruínas de antigos tempos
nas distraídas saudades
nas vielas baldias da loucura
em direção aos botequins
no caminho indeciso do bêbado voltando pra casa
chorando sem pudor
tanta dor
tanta dor
regressando para os braços do seu amor
na madrugada caiada de abandono
onde um cão ladra
e sombras descem das luzes dos postes
Asas ruflando
num céu escapando
se espremendo e se misturando ao horizonte
pássaros migrando
voando vôos sobre os campos ofegantes e impregnados
destas solidões que levam os pássaros
daqui para ali
dali para acolá
e de volta para cá
numa insustentável leveza de quem esquece o peso e o ar
e entrega-se à liberdade evanescente
a flutuar, flutuar...
Sempre haverá o gorjeio dos pássaros poetizando as manhãs
encobrindo a impiedade dos dias
Pombos arrulhando nas cumeeiras das casas
nos beirais dos edifícios
debicando restos nas praças encarceradas no solilóquio das cidades
Haverá dias em que a chuva cairá
tamborilando nos telhados
repenicando no chão
esfarelando-se, estrídula,
na terra seca dos quintais que ainda restam
Ocasionalmente uma gota de orvalho
ou uma lágrima se desprenderão
de uma flor
dos olhos dos anjos
leves e translúcidas
e cairão
revolvendo a terra do canteiro com inefável ternura
Quando menos se espera pode soar
o monótono tic-tac escorrendo das engrenagens infrangíveis
de um relógio antigo
evidenciando passados
ritmando lembranças
matraqueando entediantes horas de um tempo arcaico
e desprovido de sentido
Sempre haverá uma porta rangendo nos gonzos
assombrada
na casa escutando o silêncio se arrastando vagaroso
pelas estruturas vazias
pelas paredes caiadas pelas puídas cores do nada
Em algum momento
dentro de um inverno debruçado sobre à mesa
alguém sorverá uma colherada de sopa
na noite manchada pelo som do deslizar do talher no prato
levando sonhos à boca

O silêncio não existe
e mesmo que o mundo inteiro se cale
que a morte taciturna me fale
indizivelmente triste
inescrutavelmente antiga
sempre haverá um poema cingido a alguma voz
flutuando em memórias antiquíssimas
no burburinho dos dias enchendo o ar de rumores
no que diz as noites e madrugadas que não dormem
no tempo soerguido no ar
na hora íntima
olhos cerrados
em noites cheias de solidão
e de luas passeando na janela atravessada por um mar
passeando nos telhados e quintais
dissolvendo palavras
sílaba a sílaba

Sempre haverá um poema semeado no branco nostálgico de um livro
absorto como as ilhas demorando-se a fitar o mar
paciente como as hastes do trigo esperando os ventos de agosto
latejando versos
de inefável encanto
ou de quieto desespero

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Lava jato


Diz a aclamada sabedoria popular que
em tempos de lava jato
como em tantos outros "escândalos"
quem paga o pato é o povo
Será?

Somos o pato e o povo
o povo amnésico
o pato apoplético
doente
demente
crente
que esquecemos o passado tão de repente
e o mesmo trambique de ontem hoje nos parece novo

Somos aquele povo que se diz tão esperto
que se tem trambicagem se não estivermos envolvidos,
pelo menos estamos por perto
o povo pato
o povo rato
o povo sem eira nem beira
servindo-se da xepa da feira
o povo avestruz
que engole a vida sem mastigar
que na hora do pega pra capar
procura o primeiro buraco para a cabeça enfiar
que pensa que sabe pensar
e, sejamos justos, chegamos até mesmo a pensar
porém sem nenhuma clareza
quando nos danamos a pensar é só tramóia e safadeza
que vantagem vamos tirar

Somos o pato povo
deitado em berço esplêndido
rangendo os dentes
entre um talagaço e outro
num assomo de austera
e auto-decantada malandragem
rangendo os dentes
sem nunca morder quem nos submete
Não reclamamos nem protestamos em alto e bom som
provavelmente para não acordar a ira dos poderosos
só resmungamos
desembestamos a resmungar num solilóquio tacanho e vão
do "escândalo" do momento
não atinamos com as seculares mazelas
fáusticas e arraigadas no caráter nacional
ou, melhor dizendo, na falta de caráter nacional
choramingamos pelos cantos
nas rodas de amigos
que só resmungam também
dizendo
amém
amém
amém

Somos uma gente opilada
tapada
tartamudeando inerte
o sempre mesmo ramerrão
sempre a mesma ladainha
que a vida seria boa
não fosse o político ladrão
não fosse a política mesquinha
não fosse Vossas Excrescências (Eleitas por nós, diga-se de passagem)
não fosse o papa a rainha
não fosse o outro gatuno
não fosse o outro o que é
tudo de ruim é o outro
numa auto-crítica chulé
esquizofrênica
que nos exila da bancarrota moral do país
cada um se acha o mais correto
o mais apto a meter o dedo na cara do descalabro
panteão da honestidade
baluarte da moralidade
gente tão ilibada assim por aqui nunca se viu

Vassalos, a maioria, da lei do menor esforço
da lei de Gerson
do jeitinho canalha a tão brasileiro
este jeitinho brejeiro que ri insanamente de tudo
este jeitinho que sepulta a vida com uma grande pá de cal e piadas
onde todo dia é dia 1º de abril

Acomodados
braços cruzados
esperando...
esperando sentados pra não cansar
esperando que um Cristo enxovalhado e morto
pela voz e a decisão de um povo que bem poderia ser como nós
que bate no peito e se diz temente
católico apostólico
fervoroso crente
de bíblia na mão
e o cramunhão na mente e no coração
e que hoje range os dentes
destilando fel
jogando merda ao vento
esperando que um Cristo
venha nos tirar deste profundo desalento

Somos um povo dissimulado e hipócrita
que passa pela vida sem atinar
por sublime, preguiçosa e crassa ignorância
ou por leviana conveniência
que a vida é um grande espelho
onde a imagem que nós vemos não é a do outro que nos fita
é a nossa própria imagem vista pelos nossos olhos
convenientemente esquizofrênicos
buscando elidir de nós o mesmo comportamento sacana
que no outro salta aos olhos
agora sem esquizofrenia
e para o qual faltam bocas para acusar
Somos um povo que vive de proclamar as vilezas do mundo
como quem não tem nada a ver com isto
Um povo que de tão desatento
ainda hoje entre Jesus e os ladrões
crucificam o tal de Cristo
e depois ficam esperando que um Jesus vilipendiado
pela (falta de) memória de um povo igual ao nosso do brasilsão varonil
"malandro", cambaio e servil
desça da cruz
e sub-repticiamente resolva nossos problemas
e ainda vá tirar satisfação com nossos detratores

Neste arruado de espertos
tão farto de salafrários
onde o que falta é otário
em cada esquina nos espera
algum conto do vigário

Somos um povinho que se proclama "esperto"!!!
que olha a vida com olhos gastos
e de soslaio
que diante dos "poderosos" abaixa a cabeça
e põe os olhos no chão
cegos e perplexos
enfiamos o rabo entre as pernas
submissos como o mais obediente dos cães
com uma enigmática ojeriza para pensar nossos problemas
sem atentar para os caminhos
luzindo de tão óbvios
Sem sequer cogitarmos a possibilidade
de acender a luz para sair da escuridão
Mancomunados com a apatia
e com uma cômoda inércia inata
quedamo-nos moucos e calados
à gargalhada sarcástica e impiedosa
dos eternos e inextinguíveis senhores feudais
(sempre atuais graças a nossa pasmaceira geral)
diante do nosso gemido estudado
falso e supliciado

Grande parte de nós tende a serem mudos vassalos
servos submissos
lacaios empedernidos
sórdidos
embriagados pelas aparências
de uma mansuetude e obediência canina
com suas almas ausentes
trôpegos de tanta vileza
fingindo asco
e lambendo os testículos daqueles
que os põem a andar de quatro
nus de si mesmos
e sem dignidade

Somos um povo sem memória
e sem moral
um povo, de fato, morto
que se esqueceu de deitar
que dormiu dentro do ônibus
e só acordou no ponto final


Enquanto isto, uma voz de arquibancada ecoa em tom de verde e amarelo:

Ah! Eu,
Sou brasileiro
Com muito orgulho
Com muito amor...ôôô

Moral da musiquinha infame:
Quem canta seus males espanta

Comentário da moral da musiquinha:
E mantêm-se néscio, distraído e com espírito ovino

PS: Onde lê-se "Nós", entenda-se a grande maioria da população
       A generalização seria leviana.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Quando


Olhando nas faces da vida e da morte
chorei ambas
Morrer não é apenas a ausência que se faz
a madrugada repentina
Não é simplesmente fechar os olhos
sem lágrimas
Não é só o silêncio esquecido nos lábios
A morte é o cárcere do instante que passou
inocente, tenso, translúcido e luminoso
como são inocentes, tensos, translúcidos e luminosos
os instantes todos dos dias
E eu clamo, então, pela vida
e pelas flores de mais um amanhecer
que me toma as horas no despudor das manhãs
que, ignorante e desolado, não entendo

Há esta dor no peito da noite
se noite houvesse
e não houvesse estas jaulas sedentas de liberdade
e não houvesse medos e muros dentro dos instantes
ansiosos e atormentados
acobertando o mistério e o segredo
de tanta solidão pousando envolta em enganos
na trama ingente da vida
e nas flores brancas dos jasmineiros
E que tudo não fosse apenas a cambiante imagem
de uma desmesurada colagem
montada em conúbio sobre a areia e a agonia dos ventos

Tudo o que digo são as palavras que meus lábios buscam
quando a brisa sopra
quando me afogo em mares semoventes
quando a chuva cai
quando nasce a flor
quando o filho dorme
quando lembro de chorar
quando esqueço de sorrir
quando apago a lua
quando apago a luz
quando fala a noite
errando em meu quarto
quando vem o amor
quando o amor se vai
e fica tanto adeus
e fica no tempo este exílio
que fito dentro do espelho

O que penso saber é o que foi dito
e o que foi dito aquieta-se
nos milênios incontáveis
em caminhos fatigados e distraídos
e, então, começa o silêncio ensimesmado
começa o outono de folhas caindo no colo da poesia
começa o retinir enganoso das horas
amadurecendo os anos
os danos e as ilusões
começam os jardins
sem flores da tua ausência
de resto
eu nada sei

domingo, 26 de julho de 2015

A cidade entardece


A cidade entardece
faz-se cantiga
ritmo
concerto
harmonia
no bimbalhar dos sinos
na hora da Ave Maria
A cidade enternece
em incipientes jardins
no canto invisível e desmesurado dos pássaros
ressoando nas árvores mal termina a madrugada
A cidade é súplica e prece
carpidas no recôndito de memórias ancestrais
no mimetismo do destino
A cidade envelhece
irrequieta menina
frágil senhora
idosa olhando o branco infrangível dos lírios
o viço da relva
o róseo perfume prenunciando a primavera
o poente sendo levado para dentro da escuridão
A cidade mente
despudorada/mente
incoercível/mente
inelutável/mente
inte/mente
A cidade treme
diante dos clamores do vento
A cidade é corrupta
parasita
pervertida
extorque a morte
locupleta-se de indeléveis sombras e medos
A cidade é arrivista
marginal
nunca tem ponto final
A cidade geme
sonâmbula
letárgica
roga piedade
a cidade
A cidade implora
demora
como o verso escondido na memória
como uma lembranças da infância
como o beijo e a carícia dos namorados
como o seio acalentando inefavelmente a mão
A cidade chora
antes de cair desmesurada
junto com as folhas das árvores
e o silêncio quieto do outono
A cidade é nervo-exposto
latejando dolentemente
A cidade enlouquece
cuspindo ruídos e sombras
A cidade esquece
flores felpudas nas janelas
abertas para a tarde afetiva e terna
esquece
segredos de lugares
distâncias temporãs
ilusões físseis
A cidade grita
aflita
solitária
entesada
A cidade se encolhe
quando o inverno chove
sobre o casario e a claridade
como um punhal gelado
A cidade rosna
para a vida que passa
nas rodas dos veículos
A cidade abriga a massa
amorfa
indolente
vitimizada
estigmatizada
impotente
inerte
abusada e violentada
em nome de uma pseudo humildade
A cidade sangra
sete dias
sangues de mulher
letárgica e despossuída
desvalida
A cidade segue à deriva
insonte
réplica transfigurada
aviltada
feudo de injustiças
submissa e  muda
A cidade diz poesias
em alarido
quando o vento passa na vegetação da praça
quando o pingo cai na poça da chuva da manhã
e círculos concêntricos aspiram a esfera
que espera e roça em ondas a superfície da água
a cidade declama poesias
durante os espasmos da hora do rush
durante a cadência da dança das luzes
nos longos caules das flores vermelhas e amarelas
dos faróis dos carros deslizando refletidos sobre o asfalto molhado
no rosto indecifrável da fadiga da existência
na delicadeza da máscara kabuki acentuando a doçura das tardes
na hora do dia indo embora na ladainha dos relógios

A cidade me invade
fragorosamente
num alarido
de cores
cheiros
e sons
que o vento lento e alheio carrega escondido
como uma ausência tristíssima
como o instante imperdoável de acordar do sonho
como o silêncio murmurando entre as palavras do poema
que não diz o que poderia dizer
e não enternece a impressentida meiguice da cantiga
cantada à toa para a solidão
para as ruas desertas
para as janelas abertas
espiando, serenas, o burburinho tremeluzente dos carros
uma cantiga
entoada pela cidade para uma noite sem estrelas
para um céu escuro e sem lua
para uma madrugada sem ventura
para um mundo andrógino e sem Deus
sem arrimo e sem muletas
sem lembranças

A cidade corre
escorre
e discorre
como o canto difuso das cigarras
zune
sibilando nas praças
tangendo as pálidas sombras das árvores
debandando pássaros
despetalando rosas

A cidade consome-se em momentos
de euforia e de aflição
A cidade entardece...
entre a síntese e a contradição

sábado, 25 de julho de 2015

A cidade acorda

 
A aurora telúrica banha mansamente os edifícios
com a tessitura branco rosada que traz os dias
A manhã embaraça-se à vida
mistura-se ao burburinho rouco da cidade
dissolve-se, gota a gota,
no orvalho que molha a flor e molha a máquina
A cidade acorda
sem saber ao certo
se estão longe ou se estão perto
os fragmentos do momento esquecido dentro do sonho
A miséria ainda dorme sobre papelões
sob as marquises e o concreto e maciço des(a)tino
atravessado pela indiferença
e o cansaço da solidão sem resposta

A cidade boceja longamente
para as ruas ainda desertas
para os faróis ainda ofuscados pela nudez da luz do dia
As primeiras luzes arrancam à castidade do nada um sol
grafado em inscientes vermelhos,
vertendo lilases e laranjas
incandescendo o horizonte
antes de ser a clara essência do dia

Pássaros trinam
e se lambuzam de sóis e de poeira
O ar se move
e desaparece nas ruas e vielas
As ruas andam os primeiros passos
As horas mordem e mutilam a vida
entulhando os momentos de mentiras

O bulício acorda a cidade
A cidade se apieda
dos sonhos que deixou engaiolados
nos ventos que tangeram a noite sem rumo
expostos à fuligem quebradiça e densa
A cidade espera
que a madrugada se dissolva
num espectro de cores novas e fugidias
absorvendo o crepúsculo
entreaberto sobre ruas, praças, viadutos...
A cidade é linhas
traçadas no espaço derramado nas plagas
A cidade é quase nada
é latente nostalgia
signo enigmático
ruínas adormecidas
brincadeira de faz de conta
A cidade é sombra amassada
é cacos e ruídos soçobrados nas esquinas
A cidade se ilumina
desbordando o dia
A cidade arde
no vapor e gases cuspidos
pela febre convulsa dos escapamentos
A cidade respira
o ar cinzento de aziagos e intangíveis gases
A cidade transpira fadiga
de mansinho
pelas frinchas nas paredes das construções
A cidade rumina
o ruído seco e difuso dos motores
A cidade vomita
gasolina e óleo diesel
A cidade urina
na neblina sem nome que esconde os postes
no que restou da escuridão

O carro que passa buzina
inconcluso
indiscreto
translúcido
dentro da neblina retorcida
e inaudível

Abro a janela apendoada de monotonia
e vem a cidade junto
e assenta um grão de tumulto e sublevada agonia
uma certa incerteza
de ruas por enquanto inconcebivelmente vazias
de calçadas ermas, passivas e abstratas
de caos
de quimeras
onde o vento carrega papéis e pontas de cigarros

A vida recomeçando do outro lado da janela
sutil e à toa
infinita e sem nexo
atemporal e esquecida
incapaz e confusa

A cidade e eu somos um
íntimo reflexo que se esconde
no lado cego do escuro
A cidade e eu somos o "x"
a incógnita soma do nada