
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
A vida quer respostas
A vida me inquiri,
e aguarda...
distraidamente dissimulada em mais um dia
dentre tantos dias inumeráveis
quer respostas
Das tantas questões com as quais a vida me interroga
a mais difícil de ver-lhe a face
é a da Liberdade transbordante dentro da Verdade
O dia toca o nome e o silêncio dos caminhos
os primeiros azuis tocam o céu
os tenros verdes regam campos antigos
nada sei das nuvens que passam estrumadas de melancolia
tiraram-me, sorrateiramente, os olhos com que ver
e o discernimento necessário para entender a inocência azul
deste céu separado dos homens e dos ventos
E a cada dia entendo menos
quanto mais me questiono
mais se escondem em mim
as respostas e seus segredos
afloram as eternidades dos medos
me inundo de um não saber dolorido e agônico
de um grito entornado,
porém sempre inacabado
e o tempo sangra imperceptível
e o grito pronuncia intermitente
o súbito e infinito silêncio eloquente
do vôo dos pássaros transmutados em pedras
um grito que vocifera a palavra que passa extensa e lenta
nas águas lacrimejantes e decepadas do rio
para findar e morrer
e ir embora
carregando consigo
o esboço incognoscível da poesia
caminho paciente entre as ilhas
que balançam nos mares maduros no fim da tarde
nos ares uma gaivota, sem bater asas, atravessa o gesto a luz e o céu
O que acontece, então, é Liberdade?
Imagem: Siddharth Shingade
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
A quem interessar possa
Em tempos de petrolão e lava jato
com as pessoas induzidas a um estado de transe histérico
inquietas como cães sarnentos com carrapato
é um bálsamo poder ouvir alguém sensato
E esta pessoa sensata que tive o prazer e a dádiva de poder ouvir foi o economista André Perfeito, economista chefe da Gradual Investimentos, Mestre em economia política , nomeado o Economista Chefe do ano pela Ordem dos Economistas do Brasil, que concedeu entrevista ao programa Ponto a Ponto da Band News TV. Extraí da entrevistas alguns pontos dentre os que achei mais relevantes do seu raciocínio embasado, crítico, claro e sensato. A entrevista é um alento nestas épocas em que a razão sumiu do mercado e pensar racionalmente é um ato de poucos. A massa, como sempre, entrega-se à emoção, ao rancor e rejeição, fundamentados num medo criado e estimulado (dois minutos de ódio do Grande Irmão?) Uma torturante torneira pingando diuturnamente na testa e nos ouvidos do maior responsável por isto tudo que tá aí: o dito "cidadão?", que, provavelmente, não faz a menor idéia do que venha a ser um CIDADÃO. Tempos de muita emoção negativamente aflorada e estimulada e de pouca ou nenhuma razão. Mas isto, estranhamente, é o ser humano.
As frases em vermelho são os excertos da entrevista.
O texto em branco, logo abaixo de cada uma das frases, é o meu comentário acerca do que foi dito.
1) - "...estão achando que vão tirar um partido e tudo certo..."
A grande maioria das pessoas, deitadas eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, acham que trocando A por B tá resolvida a questão. "Pensam?", se é que se pode chamar de pensar a um espasmo involuntário de um neurônio de pensar, "pensam?" que o capeta habita só o momento presente.
Estas mesmas pessoas talvez nem saibam que o "som do mar" do hino nacional, para muitos brasileiros, manifesta-se no som dos esgotos correndo a céu aberto nas vielas e becos da onde moram e que a "luz do céu profundo" não passa de um cotoco de vela aceso sobre uma lata enferrujada ou a bruxuleante luz de um lampião a querosene.
Quantos As e Bs já governaram o país?
O que fizeram, ou não fizeram?
O que realmente mudou em cada governo em prol das pessoas comuns, eu e você?
O que mudou a não ser as moscas?
Eleição após eleição sempre acaba em decepção.
Neste jogo sujo e de cartas marcadas que é a política nacional o nosso voto, que nada mais é do que a expressão dos nossos anseios, me parece que é um mero gesto simbólico a fim de nos fazer crer que temos voz ativa nesta patacoada, nesta grande mentira chamada eleição. As eleições são uma farsa para dar a sensação ao eleitor de que ele tem vez e voz neste sistema podre e impregnado de interesses escusos, mentira e embuste.
Acredite em eleição quem quiser ou for muito carente de atenção e cuidados.
E mais, depois de todos os governos que por aí passaram acredite em partidos e políticos quem não tiver memória ou não tiver vergonha na cara, ou os dois.
Depois do papai noel e da fadinha do dente a eleição, os partidos políticos e os políticos são a maior mentira, a maior trapaça nacional, quiçá, até mesmo mundial. Digo mundial por que não acredito que nós fomos capazes de desenvolver sozinhos um "modus operandi" tão sofisticado na sua mais precípua canalhice.
Você já viu algum governo, seja de que partido for, seja de que corrente for, incomodar, enquadrar, os detentores do dinheiro (banqueiros, empresários, escroques... et catraia)? Pois é!!! Nem eu.
Os banqueiros e empresários deitam e rolam nesta terrinha em que se plantando tudo dá e se conchavando dá mais ainda.
Vide o descalabro dos juros bancários, os juros do cheque especial chega a 457,24 % ao ano, e a usura nos preços e produtos praticados neste brasilsão de "meu deus!!!", de sol e mar, cerveja e cachaça, futebol e novela, muita "night" e muito "face", whatsapp, coisas que tal, fofoca e discurso vão, bundas, sonhos de consumo, mulheres com o cartão de crédito e o cheque especial de fora. Só se for agora.
Os preços das mercadorias e serviços, as tarifas de toda sorte e os impostos impingidos ao "cidadão?" são de primeiríssimo mundo. Os juros bancários extrapolam qualquer limite de compreensão e são do outro mundo. Já os serviços públicos colocados à disposição do incauto e sempre crente "cidadão?" e os salários pagos ao trabalhador são coisas do fim do mundo.
Aqui eu lembro Cazuza:
Brasil
Mostra sua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Muitos já cantaram ou escreveram as mazelas nacionais. Gregório de Matos Guerra, nos anos de 1600, já denunciava o jeitinho brasileiro. Portanto não há nada hoje que já não tenha sido visto antes. Vivemos um déjà vu constante, mas o único neurônio em ação do símio não capta e/ou não processa a informação.
Eu fico me perguntado aonde é que as pessoas se escondem que não tomam conhecimento destas coisas e, se tomam, por que é que nada fazem?
2) - "...o momento que a gente tá vivendo é muito sério e o desmonte político que tá havendo em cima da presidente, em cima da governabilidade..."
(A frase foi dita assim, truncada. Mas eu acho que quem está acompanhando o momento político entenderá)
O momento seria sério caso houvesse o mínimo de seriedade neste país. O que há são interesse de grupos que, não obrigatoriamente têm compromisso com a seriedade. A vivência mostra que seriedade não é o nosso forte. Nem por parte do "cidadão?" que, para alguns, tudo é motivo para piada e chacota, conduzido como boi de boiada, nem por parte dos sistema político, nem da tão aclamada "democracia". Ou seria melhor dizer "merdocracia"?
Democrático país este nosso onde o degredado filho de Eva não come
Democrática nação cujo o rei, o déspota ou o gigolô,
seja lá quem for que nele impera, nem lhe sabemos o nome
Democrático país no qual a plebe,
esta pústula exposta,
é uma massa faminta e esquálida,
amorfa, vassala e sem resposta
fedendo à bosta
A plebe que entre uma eleição e outra torna-se invisível e some,
servilíssima massa de manobra,
Geni boa para apanhar
Democrático país este nosso, sem alma,
cujos eleitores majoritários são a ignorância e a fome
3) - "...as pessoas estão se iludindo muito fácil..."
Eleição após eleição
Entra governo sai governo
Vendendo a alma ao cão
Ou aos anões do orçamento
Faz tempo que está no ar
esta catinga de excremento
Faz tempo que está no ar
esta catinga de excremento
Poder e corrupção
Mensalão e petrolão
Sempre a mesma ilusão
Sempre a mesma decepção
E o pacato cidadão
chacoalhando no busão
à mercê do Grande Irmão
O Grande Irmão te conduz
do colinho da mamãe
até o inelutável caixão
(Quem é o Grande Irmão? Leia o livro "1984" de George Orwell para ver se os neurônios pegam... nem que seja no tranco)
Aí você me diz: "Ah! Mas tem que ler? Eu não gosto de ler!!!
Aí eu te digo como os meus amigos de Mountain View diriam: "No problem"!!!
Alguém já leu ou vai ler e fez e faz de você isto que você é hoje. Simples assim!!!
chacoalhando no busão
à mercê do Grande Irmão
O Grande Irmão te conduz
do colinho da mamãe
até o inelutável caixão
(Quem é o Grande Irmão? Leia o livro "1984" de George Orwell para ver se os neurônios pegam... nem que seja no tranco)
Aí você me diz: "Ah! Mas tem que ler? Eu não gosto de ler!!!
Aí eu te digo como os meus amigos de Mountain View diriam: "No problem"!!!
Alguém já leu ou vai ler e fez e faz de você isto que você é hoje. Simples assim!!!
Passado o festim e a embriaguez homérica da eleição, calado o canto da sereia partidária, sossegado o facho, a fúria e a estrepolia midiática do pseudo e sempre requentado "o maior escândalo que já se viu", o crédulo e insonte eleitor "patrão" (lembra da propaganda?) volta ao marasmo do sempre mesmo ramerrão e retoma a boa e velha resmungação.
Incrível como a massa é crédula e facilmente manipulável. Deve ser algum problema genético que vem desde a origem do homem.
4) - "...enquanto isto a oposição fica brincando não sei exatamente de que e achando que quanto mais sangrar a presidente melhor..."
A oposição brinca hoje do que o PT brincava antes de ser governo, quando era oposição: tocar fogo no capim seco em meio à vegetação. Só que com um agravante: a oposição de hoje encontra respaldo e eco nos interesses e interessados que de fato mandam no Brasil, independente de partidos políticos. E, desculpe-me desaponta-lo, não foi Sarney, nem Itamar, muito menos Collor, FHC nem pensar, não foi Lula, não é Dilma, nem serão os próximos que você elegerá como o eterno e indefectível salvador da pátria quem comanda o Brasil. Ouço, vindo da coxia, o repique de moedas, o tilintar de muitas moedas, dizendo a hora de falar e de calar. Como diz o velho deitado: quem é rei nunca perde a majestade. O ditado é surrado, mas, no nosso caso, reluz como uma pérola de sabedoria. E o rei gargalha a não mais poder diante da nossa simplória antropofagia.
5) - "...o Brasil é o único país do mundo, na minha opinião, que metade dos passageiros do avião querem que o avião caia só por que não gostam da presidente, só por que não gostam do piloto..."
Na queda do avião, entre vivos e mortos, salvam-se os de sempre, que pairam sobre a vida e a morte, pairam sobre a condição (des)humana e miserável em que vive boa parte da população e o outro tanto que sobrevive somente para pagar impostos. A bem da verdade não vivem, nem sobrevivem: já estão mortos. Só esqueceram de deitar.
A íntegra da entrevista do economista André Perfeito pode ser vista no site:
www.bandnewstv.com.br, programa Ponto a Ponto de 07/08/2015.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
O filho da puta e o senador
Sob o estigma de "supostos" desvios e falcatruas
Vossa Excelência se dirige ao palanque
A vida,
de repente,
malbaratada e enxovalhada novamente
Nas mãos a malícia de um discurso tantas vezes lido
torcido, distorcido, retorcido e repisado
Um jogo de gato e rato jogado todos os dias
Inicia sua defesa
A voz calma e pausada
Se culpa havia na entonação desaparecia
Desaparecia nas entranhas arcaicas
e na amnésia providencial da política
As rusgas e anomalias prosaicas da retórica pedem
a saliva afogada das palavras inescrutáveis
No gesto e no tom a admoestação e o protesto à vil perseguição
Negações
Evasivas
Fugas
Alienações
Juízo de valores
Valores sem juízo
Faz-se urgente tirar a pedra amarrada aos pés
quando o corpo já pressagia o fundo onde a lama o espera
Emparedado
busca nas coxias do teatro político
decadente e velhaco,
as personagens ressentidas
que darão vida e voz ao discurso
que os dentes tantas vezes mastigaram
como se mastiga o adversário
e entregaram à boca articulada do boneco do ventríloquo
Diz da sua vida ilibada
Da compatibilidade de renda e de bens
Da intriga sórdida e pusilânime
Do seu vigor intemente diante da injustiça
Da incandescência luminar da sua pessoa
Da vida que se pretende jogar ao chão à toa
Ficam subtendidos
a humilhação
o soco
o choque
a delação
As palavras pungentes borbotam
distraídas e insontes como o silêncio
que estimula a voracidade do rato
e impele sua coragem
em direção ao queijo na ratoeira
antes do baque surdo da ratoeira a lhe pegar
Palavras recortadas aqui e ali pela ira contida e dissimulada
que se encontra amordaçada em cada homem
Em seu ninho a serpente vocifera e chacoalha o guizo de anéis
De repente
a ira aferrolhada entre grades complacentes
deixa escapar entre dentes
numa outra voz mais humana, mais insondável
o murmúrio
o sussurro
dito para o vazio ali parado sobre o momento
diz, somente para os átomos do corpo,
de si para si,
mordazmente,
o que pensa do procurador que o acusa:
"Filho da puta"
A frase, grito invertido,
perversa,
escorre, escapa e foge
assim como quem solta um punzinho
achando que ninguém vai ouvir
e o "punzinho" se rebela virando sonora proclamação
No Senado Federal,
"casa do povo"
onde o povo não se atreve a entrar
só olha de fora
cabeça baixa e calado
no máximo a petulância de resmungar, resmungar...
o axioma moral pende solenemente dos lábios
operísticos do preclaro senador
como um resmungo sonâmbulo
e deixa-se ficar no silêncio ilibado da sessão
Da verdade pouco ou nada resta
O rio seguirá seu curso e as margens o coagirão
seja ele um rio de planalto ou de planície
que seca na seca ou perene de aluvião
O procurador que procure na genealogia familiar
e perquira nas atividades laborativas de sua genitora
a confirmação ou não do aventado
ou se o impropério veio da danação
de um homem acossado e supostamente aviltado
em sua honra, em suas dúvidas em suas dívidas sociais
Com palavra pomos flores e perfumes na pocilga que é este país varonil
e em momentos de ira incontrolável ou conveniente
desembestamos a colocar putas e luzes vermelhas pelos lares do Brasil
Senhor Senador,
Por mais palavras que usemos
Por mais que os passos escamoteiem por onde fomos,
de onde viemos
A consciência nos diz com fragor aquilo que somos
A máscara rasgada e combalida ainda é máscara também
Senhor Senador.
Vossa Excelência foge do que ou de quem?
A natureza é concisa
mata e morre
quando deve matar ou morrer
e não se equivoca
onde deve por o ponto final.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Domingo
Domingo
Agosto amadurece
na brisa da madrugada amena
que respira solidão
Seis horas da manhã
A madrugada ainda dorme na sacada
de onde vejo a mulher que passa sozinha
caminha
passos apressados
arranhando a ainda madrugada
a manhã adormecida
compondo formosura
e fragrantes silêncios transparentes
Aonde vai
sem que a luz a veja?
A cada passo faz o passado
faz o instante do fim da espera
O que busca na cidade ainda vazia e dormente?
O que deixou na cidade além dos gestos e dos passos
que somente as esquinas viram?
Busca o mar que se escondeu na memória da infância?
Deixou sonhos?
Deixou os olhos no céu
entre os astros que já descem para as águas azuis do mar
e se afogam de vida
para poder ressuscitar?
Busca os barcos ressoando nas areias?
Busca o beijo do dia e o seio das rosas?
Deixou alguma tristeza na melodia ritmada dos passos?
Leva o tempo passado adormecido em seus braços?
Espera o sol tecer o pólen dos seus raios
e amadurecer favos de mel entre os seus dedos?
Talvez nada busque
Talvez nada deixe
Talvez nada espere
Anda sozinha a estas horas por que ama o sossego
das praças e jardins ainda molhados
por uma lua inacabada
Caminha pisando a solidão das folhas
que o vento antigo e insone derrubou
Quantas vezes?
Na quilha da madrugada,
anda absorta
do jeito que os rios profundos e ensimesmados andam
O silêncio transbordante das ruas é diferente
na madrugada que passa com a mulher
percute uma vária melodia dentro da madrugada sem gente
O vento, se espremendo em cada esquina,
aos movimentos da mulher e aos seus sonhos de menina
acorda pássaros pressentidos,
bilrando nas árvores,
trinando entre os ramos adormecidos
nos derradeiros escuros amarrotados pela noite
Passa na rua uma mulher
na rua que vai passando
A mulher
que o tempo todo esperava
o tempo todo esperando
Anda apartada do mar
pela rua que vai passando
No tempo que esperava
o tempo todo esperando
as estrelas saírem das águas
por que não sabem nadar
e vão acabar se afogando
E a mulher na rua passando
A madrugada se desmanchando
A aurora se recriando
à luz dos passos
da mulher na rua passando
como quem dança ao caminhar
como quem dança flanando
esquecendo as horas no ar
fazendo-se a parceira do sonho
que na vida vai passando
e com ela põe-se a dançar
domingo, 9 de agosto de 2015
O canto silencioso da lua atravessando o céu
O sol vai trespassando a ausência e a distância
entre solitárias sombras
se desprendendo do ar
mergulha lentamente no horizonte
e se cala
e aspira a ternura fragrante do céu
meus olhos a beber das cores que vão caindo
das esquinas
falam de saudades
extasiados e tontos de entardecer
A noite espera,
graciosamente nua,
envolvendo as casas e os ventos
Por entre a vegetação a noite se alteia
sagrada e simples
comovidos, os sinos tangem os céus
bimbalhando Ave Marias na semi-escuridão
alento para as vidas se esboroando
A lua, palmilhando folha a folha,
pedra a pedra,
estende-se languida nos telhados onde o barro
pode ser gente ou flor
Outra noite
O gesto e o passo envelhecem
Caminham os caminhos prosaicos
e monotonamente infindáveis
dos homens reclusos em suas certezas
e nos medos que não sabem partir
sorvendo nos próprios lábios o gosto travo
da solidão de existir
Escuto pelos vieses da noite
a rouquidão do silêncio
falando de mim mesmo
o choro dos galhos ao vento
o medo da flor úmida de sereno
esta fragilidade que não cessa
Na noite inextinguível
tardo a olhar o enigma
o tudo
e
o nada
ludicamente ouvindo
o canto silencioso da lua atravessando o céu
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Não sou nada
Nasci chorando
E desde cedo achei que o mundo era estranho
Não o mundo exatamente
As pessoas
As pessoas eram estranhas
Com seus sorrisos amarelos apesar dos dentes alvíssimos
Com suas certezas arraigadas
Com seus orgulhos contemplando a demência
Com seus deslumbramentos cansativos e fúteis lambendo enormes egos
Com seus medos inviolados
Com seus passados que não passam nunca
Com suas impiedades cheias de frustrações e segredos indizíveis
Com suas casas caiadas olhando o passar do tempo
Com suas noites inquietas admoestando a existência
Com suas vidas resignadas
Com suas religiões fretadas a um deus do escambo e da usura
Com seus anjos e demônios,
céus e infernos
Com medo de uma derradeira morte
Com suas vontades insofismáveis de irem para o céu,
mas não querendo morrer
Rezando repetidas ave marias e pai nossos para purgar o mal
dos seus corações expulsos de um paraíso que se perdeu lubricamente
Mas a reza é apenas pró forma
diante da irreprimível tendência de repetir sempre os mesmos erros,
vivendo da sempre mesma luxúria
da insinceridade da intenção de corrigir-se
que um padre ou pastor mendicante ouvirá em nome de um deus
oferecendo linimento e salvação: Ide e pecai,
que nada é o bastante para a renuncia de deus
e, então, tal como a pedra, já não lhes dói outro dia
Hoje, exausto de tanto morrer a morte de todos os dias,
sei que não sou nada
e não sendo nada sei e/ou intuo que o diverso e estranho sou eu
que, insolente, apontava-lhes o dedo
não vendo o lobo
só enxergando a manada
deambulando na jaula das aparências
Não encontro par entre meus semelhantes
Ninguém diz meu nome
Ninguém sabe da minha fome
Erro e não tenho a quem suplicar linimento e paz
Deito e levanto com meus demônios,
cansaços e remorsos a me fustigarem
Diante do rosto fragilizado da dor
sinto os olhos marejarem
O que restou das horas emigraram da terra,
tornaram-se vendavais dessangrando o destino
Meus gestos resvalam a vida
Vislumbro outras possibilidades para a vida e para a morte
porém meus olhos estão desatentos
exaustos de mim
minha vontade, complacente
A mesa está posta
Vencida a fome
no chão restará poeira e migalhas
quando eu acabar de comer e me for
e submergir nos labirintos das humilhações
domingo, 2 de agosto de 2015
O silêncio não existe
O silêncio não existe!
Posto que haverá sempre
o sibilar poroso do vento se insinuando
pelas frestas do dia
infatigável, doce e claro
Rumores de passos andando
no cimento das calçadas
na madeira carcomida da ponte
nas ruas de terra
nos paralelepípedos escorregadios
depois da chuva da noite
nas ruínas de antigos tempos
nas distraídas saudades
nas vielas baldias da loucura
em direção aos botequins
no caminho indeciso do bêbado voltando pra casa
chorando sem pudor
tanta dor
tanta dor
regressando para os braços do seu amor
na madrugada caiada de abandono
onde um cão ladra
e sombras descem das luzes dos postes
Asas ruflando
num céu escapando
se espremendo e se misturando ao horizonte
pássaros migrando
voando vôos sobre os campos ofegantes e impregnados
destas solidões que levam os pássaros
daqui para ali
dali para acolá
e de volta para cá
numa insustentável leveza de quem esquece o peso e o ar
e entrega-se à liberdade evanescente
a flutuar, flutuar...
Sempre haverá o gorjeio dos pássaros poetizando as manhãs
encobrindo a impiedade dos dias
Pombos arrulhando nas cumeeiras das casas
nos beirais dos edifícios
debicando restos nas praças encarceradas no solilóquio das cidades
Haverá dias em que a chuva cairá
tamborilando nos telhados
repenicando no chão
esfarelando-se, estrídula,
na terra seca dos quintais que ainda restam
Ocasionalmente uma gota de orvalho
ou uma lágrima se desprenderão
de uma flor
dos olhos dos anjos
leves e translúcidas
e cairão
revolvendo a terra do canteiro com inefável ternura
Quando menos se espera pode soar
o monótono tic-tac escorrendo das engrenagens infrangíveis
de um relógio antigo
evidenciando passados
ritmando lembranças
matraqueando entediantes horas de um tempo arcaico
e desprovido de sentido
Sempre haverá uma porta rangendo nos gonzos
assombrada
na casa escutando o silêncio se arrastando vagaroso
pelas estruturas vazias
pelas paredes caiadas pelas puídas cores do nada
Em algum momento
dentro de um inverno debruçado sobre à mesa
alguém sorverá uma colherada de sopa
na noite manchada pelo som do deslizar do talher no prato
levando sonhos à boca
O silêncio não existe
e mesmo que o mundo inteiro se cale
que a morte taciturna me fale
indizivelmente triste
inescrutavelmente antiga
sempre haverá um poema cingido a alguma voz
flutuando em memórias antiquíssimas
no burburinho dos dias enchendo o ar de rumores
no que diz as noites e madrugadas que não dormem
no tempo soerguido no ar
na hora íntima
olhos cerrados
em noites cheias de solidão
e de luas passeando na janela atravessada por um mar
passeando nos telhados e quintais
dissolvendo palavras
sílaba a sílaba
Sempre haverá um poema semeado no branco nostálgico de um livro
absorto como as ilhas demorando-se a fitar o mar
paciente como as hastes do trigo esperando os ventos de agosto
latejando versos
de inefável encanto
ou de quieto desespero
Assinar:
Postagens (Atom)






