sábado, 3 de março de 2012

Soluços

Amiga,
talvez a minha voz
não te diga os poemas
que já não amanhecerão
ou se calarão mergulhados em suas próprias sílabas
borboletas voando nos espelhos das manhãs
sílfide dos dias etéreos flutuando na luz do mar
Talvez o tempo não traga palavras nos lábios
talvez o tempo seja só emoção
tremelicando na noite estrelada de um verão esvoaçante
ardem os céus em seus sonhos absortos
os sonhos não seriam os poemas do lado de dentro da noite das muralhas?
Amiga minha,
vê que agora já me visto de passados
e os próprios gestos são o rosto da solidão?
vê que te trago o pássaro de sangue e de plumagem febril
e que meus olhos aguardam pelo teu silêncio?
A intensidade das mãos atravessa a memória da palavra acre
que se esconde no temor molhado da boca
A palavra incandescente
através da qual a escuridão modula a harmonia precária da vida
a harmonia dos dias úmidos
réstias de sonhos
recendendo à tardes de domingo
à lua que atravessou a rua
deixando no destino um soluço
deixando no amar o repetitivo impossível
e a certeza da triste dor de viver
Vê, amiga minha,
que falo de dor como quem desentende o sentido das palavras
roubando de mim um tempo de ser feliz?
E a tarde toda passo assim:
perguntas esguias e vorazes
buscando um sentido em tudo à minha volta
esquecendo o ruído oco dentro de mim
Tenho medo de esquecer o caminho sincopado
assim como quem ama esquece
a vontade de ser mais
e os rituais dos dias
perpetuamente
calcinados
pelo amor

quinta-feira, 1 de março de 2012

Caminhante


"Caminante, no hay camino,
  se hace camino al andar"
      (Antonio Machado)

Caminhante, não há caminhos de terra
que os teus passos possam andar
Não há caminhos na noite inabalável
que os teus passos cansados
pisando a finitude do mar
pisando em sóis e estrelas
pisando a seiva que fez a tua dor e os teus medos
possam num assomo alcançar
Os cães ladram à proximidade dos teus passos
augúrios esquecidos no ar confundido
aos ventos da manhã ardendo
Lá fora o dia
nasce dessedento
e já inicia a morrer
Caminhante, o caminho se faz de mansinho
ao pé da sabedoria imanente
da velhice
que os teus passos te deram
na cadência da terra firme e dura
das estradas gentis que passastes
Claras nascentes
rios escuros
Alguém ouviu os teus passos nas águas
e retornou
silêncio no peito esboroado
as mãos tateando o ar da tarde antiga e sossegada
que os ventos ouviam
singelos
sementes do rumor do hálito dos rios
Aquele que ouviu teus passos nas águas espera
tocado pela cegueira
dos olhos fechados ao silêncio
das ruas ocres e vagarosas
Caminhante, não há caminho
só há teus passos na miragem da estrada que surge em frente
e que um dia se apagarão
Ouve?
Ouve as imagens do passado?
É a voz do Tempo
bricando com as areias que pisas
e com a memória
dos teus passos que escorrem pelas sendas das ilusões

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Seis quadrinhas para o mar e uma reflexão

Qual o sentido do mar
todos os dias
passar na porta de casa
sem nem sequer me olhar?
 
 
O mar que dorme sobre a pedra
fremente
não é o mesmo mar
que chora a solidão da gente?
 
 
Quem acendeu no mar sua centelha de espuma
toda incendiada em ventos
em aflição, longe o grito, esperando
que eu lhe ouça os sentimentos?
 
 
Longe o grito,
longe o mar
Senhor calai minha voz
Senhor me deixai chorar
 
 
Caminha o mar na transparência da areia
distâncias de sal e de granito
caminha e apreende o lugar
incomensurável, bonito
 
 
Amanhece o mar na baía
e dentro dele amanhece o dia
é tempo de violetas nas janelas
é tempo, em nós, de poesia
 
 
Há um momento infinito em mim
quando fecho os olhos
no qual pousam mares
e gaivotas
réstia de luz
dentro de um prisma
e bebo areias
na concha das minhas mãos
e, então
tudo o mais é de outros tempos
espanto, medo, silêncio,
a poesia não feita
o antigo e intenso desejo de voar
gostar de ti
beber minha dose diária de cicuta
morrer
reviver
reatar o conluio com a vida
remorrer
impune e repetidas vezes
indubitável como a imagem infante
dos olhos remelentos da névoa das manhãs
o mesmo ramerrão de se abandonar
ao choro que atravessa os dias
mascar o sacrossanto grão de solidão
e ouvir a chuva e o vento tamborilando e assoviando
no telhado
azulando e encantando as tardes crepitantes e mornas
como as nuvens e seus berloques aquecem e enfeitam
os jardins com seu poeta em cada flor

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Verdade

Eu nada sei da verdade
Eu nada sei do antes insidioso
do mar
eterno vate
de homens e de almas
confundindo
as suas águas
com as minhas mágoas
espuma das ondas aladas
à procura de um céu
para morada do canto e do silêncio
margem imperfeita do tempo
Obscuras são minhas certezas
resgatadas pelo vento vermelho
que sopra entre um poema e uma morte
dos versos ocos e mudos
sem nome
sem tempo
ilhas
de um efêmero oceano
surdo
para que eu possa chorar sem constrangê-lo
Na noite com seus poemas falazes
impudentes
repousa o gesto incipiente
ave implume
o vôo extenso que se projeta
na atmosfera brumosa
Eu nada sei da verdade
Do êxodo em meu coração
Nada sei da criança
que por e pela terra vivia
com seus pés vermelhos
quando no barro chovia
amalgamando as almas
na greda friável, macia
Um dia verás que Deus
é um aturdido pensamento
e de pouca ou nenhuma valia será
a inquietação da verdade
O vento que leva a folha
por outonos de esmaecidos vermelhos
e os seus troncos de lata e zarcão
cria ânsias de miragens de sóis irisados
furtivos
mudos
em chamas
A verdade não está na palavra
e seus sentidos inconstantes
e dúbios
A verdade pode estar no
exílio da tarde
para que a noite se distenda
e trace com seus gestos negros
o caminho miúdo das estrelas
Pode estar
no rochedo consumido
pelo desassossego das águas do mar
Na praia deserta onde possa se descansar o destino
Sob um céu recluso
No rio
No amanhã
Pode estar na tua sorte
No nascimento
Na morte
de tudo que acreditavas
quando semeavas
teus pomares
de tempos
e incertezas
Da verdade eu nada sei
Me diz o sortilégio:
é tarde
É quase hora de voltar pra casa
Às vezes ouço esta voz de argila
infinitamente mistério
semente
ternura
Às vezes não ouço silêncio nenhum
A alma desabitada
Eu, sem caminhos
sem verdade
lua
sonho
sopro
cadência
segredo
noturno girassol
pássaro
medo
urdidos nesta agonia

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A rosa da noite

a rosa da noite
no campo de flores
confundida
meio triste
feito um espúrio mundo
o coração desfeito
grão de pólen
suspendido na crisálida
do vento que vem do mar
suspira
enquanto anseia
os beijos da madrugada
e o orvalho
que as águas tecem
de um infrangível olhar
que se comove à espera do beijo
convertendo em poemas as lágrimas roubadas
dos olhos de um anjo visto na terracota de um céu errante
e a rosa, no campo de flores, calada, chora a pena dos alaúdes
chora sua côdea de dor
sob um céu constelado e pintalgado de ledos pontinhos tiritantes e azuis
 
 
no campo de flores
a lua fura o ar de invisíveis véus
estilhaça o escuro da insônia que a envolve
ferindo de prata o campo incendiado de negro
na noite pintalgada de olhinhos irisantes
folhas caem à passagem do vento
e no manso múrmurio do cair das folhas
dormem os pássaros e as abelhas
dormem as vidas e os rios
dormem os perfumes da mata
vígis, velam os corações vazios
 
 
ai, morena
vem comigo
ver as estrelas em flor
nesta noite irisante
onde tudo é suave eternidade
embriagando as nódoas destes esboços de amor

agora
nos lábios rubros da aurora
nas brancas mãos da ternura
a rosa e o dia amanhecem
a rosa se cobre do pensamento de Deus
reverdecendo sensata
na inocência que as palavras tem
no seu perfume quase humano
na sua candidez ungida pela alquimia
 
 
amanhece o mundo onde serei
terra
vinho
mel
loucura
campo de flores
gerânios
melancolia
desespero
geometria
trigo
farinha pra
poesia
 
 
(...)
 
 
a rosa...
a rosa, enquanto a noite dormia,
entregou suas pétalas ao beijo da solidão
ávido mar
atordoado poema
absorta ao nascer do dia
o destino entrando pelo campo de flores
a rosa se redime
estremece
um breve suspiro
esquece
formosa
perfumosa
a esperança inaudita
a vida é o entardecer de um momento depois do outro
o sol se avizinhando de mansinho
acordando o campo de flores
morrendo dentro do mar
a vida é a poesia tão densa
que basta um tremor pequeno
para que a lua derrube o céu
a vida é bicho
é enfeite
é namorar na chuva
estro falaz
aroma de flor
a vida só vale a pena
se a gente morrer de amor

(e tudo dentro da noite, e no outro dia, era a mesma poesia)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Vida

na memória dos poemas
na ponta dos dedos
nos olhos fechados do sonho
nos espelhos escorrendo tinta
da dissolução das imagens
pernoitam ávidas aves de pedra
de inquietos cantos
pernoita o homem obscuro
com seus atos de miragem
com sua insaciável voragem
com sua voz turva
sua fome de chacal
sua poesia pecadora
dos versos clamando pela madrugada
nos olhos do mar tremeluzindo
soluçando enormemente
a dor esquecida nos traços tristes do retrato pungente
enfeiando um mundo que ainda não morreu
mais além
o jardim de brisa
rente às flores
inunda o céu de papel-arroz
com estrelas
com silêncios
com adivinhas para os poetas
escondidas nas nuvens de algodão
na luminosidade esplêndida
do dia
no fim estalado da escuridão
da noite
aberta como um verso
pingando, oscilante,
escorrendo pela mão
vertendo do fim dos meus dedos
meus medos
minha ilusão
meu rio
minha saudade de mim
e de ti
minhas bugigangas de infância
meio pirulito vermelho
sem o palito
a bola surrada e puída
o pião batatinha
com metro e meio de fieira
sete bolinhas de gude
uma pipa voadora
a estrada aberta até o fim da ladeira
uma gaitinha de boca
que eu não sabia tocar
mas que pra mim tinha o som e o gosto
de bocados mordidos de liberdade
de vento entrando pela janela
balançando meus sonhos
a minha alma acesa ao fogo
do exílio da solidão
os pés vermelhos de terra vermelha
que por ali era muita
as costas da mão pra limpar o nariz
meus olhos em roda do teu vestido
minhas mãos colhendo da vida
meu primeiro amor
que enchia meus dias de segredos
as noites de medo de ficar sem ela
isto é tudo que tenho
dentro deste quarto escuro
nesta voz dentro de mim
pra arrastar as noites
e os passarinhos
para esta brincadeira
de ser poeta
sentado nesta cadeira
pensando um zilhão de besteiras
sem sono pra acordar
uma saudade
de um tempo que eu não vivi
das pétalas sedosas que eu não toquei
do perfume que eu não senti
da tarde irisante depois da chuva
saudade bebida aos golinhos
oh, menina
me afastando de ti
quarenta anos depois
a quem possa interessar
ainda te amo
eu te amei a vida toda
só não tive como te contar
e nem um verso te dei
eu não sabia falar
eu não sabia escrever
eu não sabia estas coisas que aprendi
no tempo escorrendo mel destes quarenta anos
ô, meus olhos negros
como em nenhuma noite há
agora são as lembranças ao redor de mim
delineando os meus sonhos
num simulacro de vida
me apanho te amando
antes e depois destes quarenta anos

é madrugada
acordei no meio da madrugada
pra beber água
o pensamento uma tentação
sento ao computador
descalço os chinelos
a cidade é um corpo delicado e suave
me olhando pela janela
amo a barra do dia inscrita nesta quietude
um automóvel passa riscando o ar com seu som
ainda de sono
fragmentos de um sorriso
como é possível amar o dia
com a presença deste laço azul da noite?
com este esforço piedoso do Senhor
para suprir esta carência compassiva que me sorve aos borbotões
a vida engravida da gente
e faz defensável todo e qualquer argumento
a espera
dos teus olhos negros
o céu azul de cobalto
os remos imitando a busca por um caminho
a vida cresce nas minhas perguntas
as coisas são o que são
e a vida...?
a vida é esta coisa coruscante
a vida é este eterno cantochão

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Agora

agora
igual a primeira hora
do primeiro tempo
do instante que faz o presente
translúcido
da vida que me devora
do tempo inefável
rabiscando sempre a primeira página
deste livro de deleitosas palavras
de ásperos e obscenos grafismos
palavras castas e tristes
cativas de si mesmas
tímidas
flertando, acanhadas, com o
não
estas palavras
que nos escuros se acendem
fogo-fátuo
agonia
palavras desta tristeza ardente
aguda senhora que vive
e morre
nos versos
nos livros
nas pétalas das rosas
na fria adaga do espinho
no dias indistintos
palavras frágeis
pequenas
doídas
solitárias
como uma sombra num lago
agora
com as nossas letras disjuntas
por entre o sonho e a razão
febrilmente escorre a minha mão
escrevendo na minha vida incendiada
adeus
saudade
só
(...)
solidão