terça-feira, 27 de março de 2012

Infinitude

É noite
A primeira noite de um outono ainda diáfano
de sensações inefáveis
pairando sobre os ruídos da rua
A solidão do friozinho vem quieta
na brisa
como pássaro migrando 
O estridente silêncio da  casa gira no ar
esvaído em ausência e infinitude
Há flores que desabrocham à noite
Eu nunca vi
Mas a centopéia do meu sentimento jura pelos céus
que há flores que desabrocham à noite
E eu fico me perguntando se na minha noite elas desabrocham também
Não sou nada e, no entanto,
                                    quero flores desabrochando na minha noite

Imagem: Kristiana Pärn

Banal

Todos os séculos estão aqui, neste momento, com suas barbáries
e passam lentamente...
e se põem de pé
e se envenenam
dentro dos palacios
nas alcovas
sob o ar frio das manhãs geladas
sob os pinheiros ressequidos
da onde pendem os ninhos das raposas
Multidões aguardam sob os pinheiros cantando hinos às nações
Foi a revolução que não deu certo
ou foi o homem
que se fez inimigo diante da ignota
força humana sedimentada em glórias e ilusões?
Visões que espreitam nesta manhã de sol
silêncios imobilizados
da história
A revolução liberta ou só deambula entre os homens, nua,
cantando suavemente nas arcadas de uma "nova" submissão,
acendendo delírios, cegando o ardor funesto da paixão?
O homem, algoz disseminado num sucessivo matar desde a aurora,
definha entre entre a púrpura do tempo
e os desertos onde sempre há um rei para submetê-lo ao rogo
e a vassalagem
O frio aço da espada e, mais recôndito, o frio aço da palavra
domina-lhe o ânimo taciturno
E ao cair da noite a lua cheia permeia a vida e o engano
nisto que Dante brandamente chamou de "Inferno"
Em silêncio vislumbro a dor que dorme petrificado na neblina
que se escoa por entre as pedras do castelo dos milênios
A urdidura dos impérios aos domingos também vai às missas e cultos
Os Deuses confortam e oprimem, aqui e ali, conforme se ergam as mãos
em desespero, em gratidão ou em fria admoestação
É outono!!!
A natureza tende à perfeição
A praia move-se ao longe...
regressando sempre
trazendo consigo os barcos para ancorar em seus portos minimalistas
Os passáros, no céu, tendem à eternidade diante de meus olhos
numa cumplicidade azul
A vida que aninha-se sobre os versos que secaram com as folhas e que já cairam dos galhos
prepara, com os olhos desinteressados pelo passado, o templo do novo dia
enquanto os homens vão se dizimando num tédio
imponderável e inexorável
intolerantemente
A guerra diz o que somos?
Mata-se...
Mata-se desde sempre
Em nome de um Deus
Sob a estultice de uma idéia
Para defender a causa nobre
Retalho da pobreza e da dor que a chuva de ogivas recrudescerá
Mata-se com honras de heróis nas guerras
frias, quentes ou mornas
Nas guerras santas ou satanizadas
Guerra dos cem anos,
púnicas,
medicas
guerras, guerras, guerras...
guerras sem nome
No chão que eu piso cadáveres resfolegam,
me espreitam com seus olhos de milênios
soando seus arcabuzes e suas espadas
gritando imprecações contra a vida turva que se perdeu sem alarde,
sem adeus ou rituais
sem o vermelho de uma rosa
somente o cheiro do escuro queimado pela pólvora ou pelo aço
num estampido ressoando na manhã medieval,
impudica, sádica e insolente
Pobre homem para quem o grito não cessa,
não comove,
não ecoa do passado e,
sobretudo,
não o desperta do sono
onde ainda ouve-se a ira ensandecida
da sifonia macabra
da sua alma cega e surda,
triste refúgio do nada
Agora,
além do outono e seus sofismas,
é madrugada
A vida dorme
A natureza recende o encanto e o perfume das flores noturnas
O homem...
                     maquina o seu próximo crime
                                        a próxima invasão
                                         o próximo ataque
                                             o próximo alvo
                    envolto pela bandeira nacional
                                  A morte, assim, ufana
               A morte, assim, faz menos males?
Morrer pela mão do tédio alheio é tão fácil,
                                                        tão triste
                            Morrer, assim, á tão banal

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ninguém

E se seu fosse outro
e não este
que cultiva na eternidade dos dias
perdas e danos tão banais
calúnias,
difamações,
desafetos,
sortilégios,
palavras nem sempre maduras,
as que me dizem,
as que não escrevo,
algumas de eternidade
poucas, bem poucas, as de eternidade
no mais das vezes é sempre o rame-rame rasteiro
o dá-me João a casinha
prelúdio para a canção estéril e monótona das cobiças corriqueiras
nunca,
nunca o que disseram de mim foi demais

E se eu fosse outro
e não este
que chora diante do poema
no qual me distraio e vejo Deus nas entrelinhas
e decomponho o céu
estrelinha por estrelinha
sentindo falta de uma noite na Rua que era Maria
onde a poesia não dormia
e entre os meus braços sonhava sonhos de heróis e vilões
com capas de gabardina roubada aos guarda-chuvas
e espadas de natais

E se eu fosse outro
e não este
que cala quando devia falar,
que fala quando devia calar,
a voz avara,
insaciável,
a voz desabitada,
orfã da verdade,
a voz,
encabulada,
se aquieta
morrendo dentro do que eu não escrevi
implora ante aos meus lábios
artes
fatos
sussuros
coisas outras que eu não vivi
pede a farsa
vestigio de estórias
se desfazendo e se refazendo na maledicência
das pedras dos séculos

E se eu não fosse outro
nem este
e se eu fosse ninguém
e ninguém tivesse razão
e ninguém morresse de tudo
morresse do enigma de estar vivo
numa ignorada direção onde os ventos
trouxessem tardes purpúreas
onde ninguém volta-se para si mesmo
esboroando-se tímido e compassivo

E se não fosse ninguém
nem um outro
se fosse só mascara e persona
dentro de algum espelho focal
imagem inacabada do amor
e da solidão quixotesca, insolente,
enfrentando moinhos de vento no meu quintal

Não,
não sei quem fui
ou quem sou
algo em mim ainda não nasceu
algo em mim espera (há anos, há décadas ou
                                   séculos?)
alguém em mim me esqueceu
na infância
por entre o abacateiro  e o galinheiro tão lentos
que ainda hoje passam na minha vida
olho para o céu e ainda vejo o mesmo céu de 1971
com suas estrelas do primeiro dia da criação
e os olhos negros de Pingo
e a sua doçura tão doce
que se arraigou em mim com seu carinho
de verão
e suas chuvas às quatro e meia da tarde
ficou em mim com seu jeitinho
e um inefável amor de verdade

Me esforço pra ser o que não sou
(pareço)
Procuro em mim algum fio de meada
(começo)
Com as mesmas palavras de um domingo de 1976
eu tento me iludir com esta voz antiga e longínqua
(recomeço)
Entre os meus versos falam de mim este e aquele outro
(desconheço)
Entro os sonhos, feitos de minúcias, a me devorar
(padeço)
De manhã levo meus folguedos de criança para tomar sol
como se a vida que tivesse passado não fosse a minha
(esmo(r)reço)
À tardinha o mundo me encara com duas pedras na mão
(mereço)
Não me interessa o mistério que permeia os aromas da minha falsa versâo
(esqueço)
Envolto no pasmo diante da vida que se acabará apascentada das minhas ilusões
(feneço)
Diante do imponderável do último dia ainda oponho resistência
(estremeço)

Aguardo...
Aguardo não o último dia, mas o próximo instante
e se ele vier
far-se-a luz na minha ignota escuridão
e me reinventarei num poema
serei outro
serei este
serei, intimamente, ninguém


Imagem: Alfred Gockel

domingo, 25 de março de 2012

Chuva

De novo a chuva
miudinha
A chuva miudinha que quase nem faz barulho quando cai
A chuva miudinha que nem cai
Vem deslizando como mãos percorrem os corpos
Apenas carinhos onde me iludo
Por que não ouço
Sou surdo
À inaudível canção das ranhuras das gotículas nas janelas
Das gotículas dissolvendo-se no ar
Uma chuva de mentira
Uma chuva meretriz
Que cobra o michê da vida
Bordejando a lua cheia
Esgueirando-se pelas ameias
Chove a chuva miudinha sem som
Como quem ouve uma lembrança
Dos telhados da infância
Do quintal onde os antúrios
Namoravam as rosas
Fazendo ciúmes aos cravos
Molhando e misturando as cores
Para que o arco-íris se fizesse
Distraindo os meus olhos
Com cores quase de abril
Outonais
Utópicas
Desatentas
E, desatento,
Procuro um dogma que me diga
Que a chuva não cairá antes que
o sono me deite e me ponha a
assuntar a chuva miudinha a cair
Chuva miudinha que
com seu tlim-tlim-tlim sublime
umedece os olhos negros da noite
com ausência e versos de um poema
que nunca vai morrer
A chuva que não cai
Quieta
Enternecida
Arabescos transparentes
Rasura do dia
E da poesia
Que me espera
E/ter/na/mente

sexta-feira, 23 de março de 2012

Independente de ti

Independente de ti (há) poesia
nos cantos aflitos da casa
na insensatez do tempo que simula passar desnudo
na noite que desconhece o tremor amorfo das minhas mãos

Independente de ti (a) poesia
dorme imberbe em praias verdes
em noites de rosas azuis tremeluzentes
e se derrama em auroras castas de medos e segredos

Independente de ti (sou) poesia
no afeto que ficou comigo quando soltei tua mão
no dia que fostes embora da poesia que eu li
sem uma palavra que sobrepujasse o sonho esquecido nas folhas soltas de nós

Independente de ti (fiz) poesia
com as emoções mais banais
com a dor que ainda doía
em branco e preto,
como o retrato de uma dor muito antiga
esquecida nos séculos
algaraviando o livro branco da vida

Independente de ti (quis) poesia
na sede do dia-a-dia
na minha palavra calada
quis a luz à escuridão
quis a poesia das mil e uma noites
nos olhos acesos de um oceano de Brueghel
nos velames e vazas da Nau Catarineta
quis a poesia sem volta e sem véu
quis a anacronia do céu
quis a vida tecida ao fio rubro das tardes
quis a saliva da vida
vislumbrei o hieróglifo dos poemas desfeitos
do que eu ainda diria
seria apenas mais um tremor entre os meus tantos tremores?
seria poesia?
seria o vermelho de um beijo no espelho frio...
                                                                     ...e mais nada?

Imagem: Peter Bell

quarta-feira, 21 de março de 2012

Outono

Querida amiga,
aos ventos deste mês de março
neste primeiro e lindo dia de outono
onde a luz do sol colhe uma flor canora e bela pra te dar
neste primeiro e lindo dia de outono que não se pode aprisionar
entre azuis madrigais e arpejos de estações aladas
a poesia se sacia entre/mentes
Enquanto no final da tarde
os pássaros voltando pros ninhos
uns em bandos
outros sozinhos
fazem da vida solidão
um inverno
os fragmentos de uma noite
ou será mera ilusão?
folha seca
vento inerte
gesto mudo
em tua mão
Alguém pergunta se queres
viver as garatujas do passado?
se queres ser a personagem que alguém te atribuiu?
se queres arder na fogueira onde queima tua agonia?
A cadência rotineira das folhas caídas pela manhã acende os dias
acende as consciências
nas cúmplices madrugadas eloqüentes
de voz doce e macia
onde o trova/dor
em silêncio
solidário
cala
um poema solitário
                        pungente
                           prenhe
                       de sonhos
                            insone
                            insano
                          ingente
por mil razões escondido
sob pedras na correnteza
de um rio
que verseja silente
este outono poesia
que deita
folhas secas dentro da gente

domingo, 18 de março de 2012

Poema manuscrito

Semeia as tuas palavras
pequenos grãos
de uma poesia
tão só
tão tua
soando
a silêncio
de uns olhos castanhos
esverdeados

Ausentes
Noturnos
Ígneos
Amoráveis

Lindos
Estetas
Prismas
Poéticos

nuas
e úmidas
as palavras
matam
nossa sede
pendendo
uma
a
uma
da espuma
da nossa ânsia
onde
o tempo
cai
sem resposta

só
o
silêncio
a gota de orvalho
o acaso
entendem
o que eu não sei
te dizer
o abraço
singelo
e premente
que não te dei
o beijo
que se perdeu
nos campos
ingênuos
para além do rio
e do labirinto
inquieto
das lembranças

na tua cama
o silêncio
infindo
é
um poema
manuscrito
no teu corpo
não declamado
sem voz
um poema
que ficou
ecoando
no grito inócuo
ecoando
nos espelhos quebrados
do dia a dia
que nos traduzirá
dentro em breve
dizendo
o reflexo
aflito
do quanto não somos
inconscientes
que estamos
da nossa irredutível
evanescência
ígnea

Poetisa, lança teu poema à terra
deita teus olhos entre as estrelas
esvazia a tua taça
e embebeda de sonhos
a tua alma menina

Dá-me teu pé
para o beijo
disse à flor o jardim
flertando
com a incompletude
da evolação
da vida
e seu velho tema