
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
"O inferno são os outros"
"O inferno são os outros"
(Jean-Paul Sartre)
E é tudo sempre o outro
As coisas não estão boas?
O outro que brigue
O outro que lute
O outro que proteste
O outro que pague
O outro que pense
O outro que sinta
O outro que se corrija
O outro que se aflija
O outro que se sacrifique
Quero passar com minha pressa e meu carro?
O outro que olhe
O outro que pare
O outro que ceda
Há divergências entre a gente?
O outro é que não entende
O outro é quem está errado
O outro é que é diferente
O outro que peça perdão
O outro é que é indiferente
O outro nem sequer é gente
O outro é que é incoerente
O outro é que é demente
O outro é quem provoca
O outro é quem distorce tudo
O outro é que é mudo e surdo
Não se faz a mudança sonhada?
O outro é que é covarde
O outro é que é evasivo
O outro é que é pessimista
O outro é que é arrivista
O outro é que é egoísta
O outro é que é sanguessuga
O outro é que é vagabundo
O outro que é sem moral
O outro é que é vagal
O outro é quem estraga o mundo
O outro é o fim da picada
O outro é puro veneno
O outro é quem não quer nada
O mundo é um lugar medonho?
O outro é quem engana e mente
O outro é que é serpente
O outro é que é insidioso
O outro é que é o perdido
O outro é que é ladrão
O outro é que é vilão
O outro não toma jeito
O outro é quem dá um "jeito"
O outro não é o que tu querias?
O outro só tem defeitos
O outro é só falsidade
O outro é um tanto quanto estranho
O outro sé tem tamanho
O outro é só safadeza
O outro é só frustração
O outro é tudo de ruim que eu não sou
O outro é este ser cheirando a enxofre
O outro é só confusão
O outro?
Ah! O outro...
Desgraçado, vil!!!
jamais foi santo, o desditoso
sequer beato em contrição
Nem anjo de asa quebrada
Nem ao menos anjo de procissão
O outro é o coisa-ruim chupando manga
O outro é o protótipo do cão
O outro não tem limite
O outro não tem sentimento
O outro não tem futuro
O outro não tem respeito
O outro é só tormento
O outro não tem lisura
O outro é só despeito
O outro não tem querer
Pesando e pensando bem
Nem mãe o outro deve ter
sábado, 13 de dezembro de 2014
Todo o amor que eu não te dei
Hoje tenta ser poesia
Ilusão e elegia
Liturgia
Ser sede
Dentro do copo da noite
Ser noite
Dentro do copo vazio
Todo o amor que não te dei
Virou enredo na vida chata, exata e real,
Enredo, alegoria
Dolo, fraude, aleivosia
Tento poemar os meus dias
Agora, sem hora nem dia perco o juízo,
Buscando entre o caos bipolar
O sentimento que abra porta e janela
Para que quando tua ausência passe
Ainda veja na tua face
Teus olhos me trazendo pra sempre
A noite cheia de sol
Com todo o amor que eu não te dei
O dia fez-se perjuro
Escorre a inquietude da tarde
Feita de zanga e saudade
Trazendo a noite que mora
No escuro dos olhos teus
Nos teus cabelos que dormem
Negros sobre os teus seios
Branquinhos, tímidos
Soluçantes entre os meus lábios
Pequeninos frutos esperando passarinho
Depois da chuva forte
Dois poemas esperando boca a declamá-los
O amor que eu não te dei
Chove toda madrugada
Pinga dentro do meu quarto
Goteja nos meus sentidos
Vai molhando e formando poça
Nas tolices necessárias que eu não disse
Alaga, lateja e se esfrega no teu grito
E te beija onde nunca te beijaram
E crava as unhas no suor que escorre da tua bunda
Sabe aquele amor que eu não te dei?
Vai te buscar na lonjura
Te enlaça a cintura
Beija teu colo
Aspira teu cheiro
Desabotoa tua blusa
Tateia e tira o teu sutiã
Bota a mão nos teus peitinhos
Brinca com um bico de seio
Mordisca e lambe a infância dos teus mamilos,
Beija sugando,
Chupa beijando,
Entre os lábios,
Entre a morder um tantinho
Diz te amo
E ama
Passa a mão na tua bunda
Perde-se entre as duas vontades
Levanta tua bunda
Tira tua calcinha
Bebe, sorve,
Lambe, devagarinho,
Teu gosto
Teu gozo
Embriaga-se de mansinho
Na volúpia do vinho zonzo
Que escorre da tua flor
Na taça da tua virilha
Se serve
Teu gosto
Teu cheiro
Terno
Cálido
Bebe você
No teu silêncio singular, nos teus orgasmos plurais
No cais dos teus doces ais
Entre os macios hemisférios
Onde o beijo percorre o rego
E ama-te, pequena e doce
E te possui por trás
Sabe aquele amor que eu não te dei?
Volta pra casa sozinho
Dos sonhos que então sonhei
Na boca o gosto acre dos gemidos
No corpo todo um sussurro
Na pele todo um carinho
Me conta coisas
Às vezes penso que ele vai chorar
Todo o amor que eu não te dei
Hoje são estas letras
Postas como se fossem a minha coxa
Entre as tuas coxas
Sentem sua bucetinha pulsando,
Beliscando
Respirando
Desejo
Fruta partida
Sentem você molhada e quentinha
Me babando segredos e afetos
Com os teus beicinhos de sal e gozo
domingo, 7 de dezembro de 2014
A noite é sede
(Mia Couto)
A noite é sede
e meus lábios estão secos
meus braços são espera
meus passos esqueceram os caminhos
meu sonho ficou em ti
ficou na tua noite meu sonho
ficaram meus dias na rua avessa
e molhada de chuva e vagar
derramei teu nome em cada flor do jardim
chorei
entre soluços pensei vislumbrar o poeta
dos versos, dos gestos,
do nada em que adormeço
desfolhei flores na despedida
cego, pisei o destino como quem pisa a serpente
curei minhas dores com o sal das minhas lágrimas
quando a noite veio de novo
sopesando com parcimônia os indeléveis caminhos escuros
já não chorava
a noite floriu com ímpeto
apagando o rio,
as casas
a letra cansada do poeta
o verso dorido do poeta
o amor apagou-se antes da noite
o amor apagou-se com o crepúsculo
e o pó que subia dos caminhos
o verso dorido do poeta
o amor apagou-se antes da noite
o amor apagou-se com o crepúsculo
e o pó que subia dos caminhos
a lua, suavemente, adormeceu sobre a papoula
as estrelas cantaram elegias da criação
a noite girou,
emprestou vozes e silhuetas ao sonho
entonteceu-me
recostei minha cabeça na saudade
e dormi
junto ao recordo de ti
para que tudo o que sonhei e o que vivi
não fujam de mim
junto ao recordo de ti
para que tudo o que sonhei e o que vivi
não fujam de mim
sábado, 6 de dezembro de 2014
Alguma coisa
Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Só a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
Juan Gelman.
In Amor que serena, termina? Editora Record, 2001.
Alguma coisa está para acontecer
Quando a água beber a sede
Quando o ar se tornar fogo
Quando o amor, de si tão quente, fusionar o ódio
Quando o homem humanizar-se atendendo ao rogo
terno da aurora,
ao choro inteiro da alma de uma mãe
Alguma coisa aconteceu
E com aporias me devora
E antes que você vá embora
Saiba, senhora
Que o dia que vinha veio e nasceu
por detrás da cerração
E a noite ficou lá fora tingida em pó de carvão
E a água lavou o fogo
E o amor se fez sem rogo
E o homem afagou o ódio
E a sede fartou-se de choro e saliva
E eis que a vida ainda é viva
E em usual sossego
Alguma coisa acontece
Entre o instante e o agora
Se a noite fica do lado de fora
Alguma coisa acontece
ao rogo terno da aurora
alguma coisa
a
con
tece:
do caos inebriado
e amarfanhado
que tanta estrela criou
fez-se esta realidade incognoscível
subjacente
jacente
se/mente
lançada ao chão
para que mais nada aconteça
e não me roube o mundo
e a paisagem placebo e movediça que subsistirá
ao que penso ser no engendro hermético da mente
e às veleidades que no tempo vago e vazio de mim se falará
domingo, 30 de novembro de 2014
Espiral
Não tenho tantas certezas
Tão pouco tantas verdadesNão tenho dogmas
ou doutrinas
que não possa tremer de encanto,
espanto e medo
diante da inexorabilidade da morte,
diante da imponderabilidade da vida
Por onde é que se começa a destrinchar e mastigar a vida?
Em que ponto do banquete se começa a deglutir a morte?
nesta festa de canibais embriagados e ególatras
onde brincamos de deuses descrentes, padecentes, quem sabe?
A morte fusionando a vida,
consumindo a vida irresoluta,
atada a um fio de esperança
e um novelo de solidão
E ninguém vê
Todo mundo quer ir por céu,
mas ninguém quer morrer
Só o outro morre,
por que a vida é mesquinha, assim
Me diga onde é que é vida?
Onde é que é morte?
Quem é que sabe o segredo, a mentira destes mundos?
Quem sabe se tem outra vez
entre tantos nunca mais?
Destino sem denotação alguma
Quando menos se espera a morte bate à porta
e se não abrimos, ela, com intimidade,
pega a chave embaixo do capacho
antes que possa
cumprir a jornada dos dias úteis (útil pra quem patrão?)
bater ponto o mês inteiro
confundir-se ao dinheiro e à ganância ingente
descolar um amor descolado
pra depois do expediente
quando a noite já cansada
adormece para o amanhã
Amanhã...
Um dia pra ser feliz
Lá adiante
Bem pra frente
Quanto tempo ainda
para que a sombra se deite sobre a luz
e os ponteiros do tempo
sirvam de cravos a nos pregarem na cruz
Me comovo
Guardo o milagre
nos lagos cintilantes onde o sol flutuou,
ígneo alcobaça cobrindo as águas com o brasil do fim de tarde
deslindando a alma encarcerada
na parábola e no mistério,
mestre e discípula
a alma suscita lembranças
da flor antes mesmo da flor ser flor
da última expiração
precedendo a primeira inspiração
vida e morte
noite e dia
luz e sombra
yin e yang
acendendo e apagando mundos
Tem vidas (e cada vida é um mundo)
que duram milionésimos de um segundo
e também são pra toda vida
como toda vida é pra toda vida
Cientistas,
misturando teorias e pitacos a bilhões de dólares,
hão de encucar,
ruminar e deitar farolices
para quem quiser ler ou ouvir
sandices desatando nós
Hão de arguir, quando o sol esfriar,
quem somos,
donde viemos,
pra onde vamos,
gênese e apocalipse da vida
A vida, sem explicação, é para toda a vida
até que uma nova estrela, já morta, nos deixe ver sua luz
transformando em energia o que era agônica consumação
num cosmos de bilhões de anos
Fecho os olhos e aspiro o perfume da flor
adubada a estrume
A vida, por um momento, se explica,
faz sentido
quieta e sem luz
como um útero primordial
pulsando a noite que desprendeu o dia
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Cinco anos
A vez
que tive mais idade
foi aos cinco anos.
Meu pai,
com solenidade que eu desconhecia,
perante seus superiores hierárquicos,
apontou e disse:
- Este é meu filho
E deu-me a mão
coroando-me rei.
Mia Couto.
In idades cidades divindades. Editorial Caminho, 2013.
Brincam os dias
dos meus cinco anos
respiram na rua de terra
caminham irisados pelos ventos do deserto
que se estendia em minha volta
fizesse o que fizesse
por mais águas que lhe desse
enchia-se mais de desertos
o meu deserto sem nome e sem amor
Choram os dias
dos meus cinco anos
de medo,
de angústia,
de dor
a pedra atirada
contra as paredes do mundo
as ranhuras da linha na mão
um pequeno punhado de barro
um graveto
para quem tem fome de sonho é pão
Correm os dias
dos meus cinco anos
tão bela é a bola e o mar
e o aroma do sol
empapa meu corpo
iludido e solitário
correm os dias,
estes enormes dromedários,
a manar estes momentos de ternura
Cinco anos...
a alma estilhaçada
a infância sorve a chuva na tarde tímida
que caminha para a noite a passos largos
nas bordas do mundo vai sangrando o ruído escuro
da violenta figura com o golpe irrompendo da mão
a tua figura se desfazendo como um grito reverberando
no vazio da tua inexaurível truculência
empilhar as dores
engolir o soluço
sufocar
a tua figura se desfazendo como um grito reverberando
no vazio da tua inexaurível truculência
empilhar as dores
engolir o soluço
sufocar
nos meus olhos cinco anos de melancolia
e desamparo
na minha (des)ilusão,
sem rumo,
na neblina dos meus cinco anos,
no silêncio das noites longas e inquisidoras
onde a emoção preenchia todos os escuros
da noite esquecida do sono
na noite onde inventava outras vidas
eu só queria te amar
na minha (des)ilusão,
sem rumo,
na neblina dos meus cinco anos,
no silêncio das noites longas e inquisidoras
onde a emoção preenchia todos os escuros
da noite esquecida do sono
na noite onde inventava outras vidas
eu só queria te amar
A garatuja do tempo gritava outro dia
chovia a chuvarada e a beleza das águas
fazia da manhã as praias da minha infância
depois da chuva punha barquinhos de papel
rumo a um mundo que só havia dentro de mim
ouvia o som puro da água e dos torrões de terra
que a chuva deixava cair
junto com a minha solidão
invisível como a sede e a recordação da água
Cinco anos suplicando,
esperando a tua atenção e o teu afeto
eu era apenas um menino que cantava baixinho
e inventava histórias para dormir que só a noite escutava,
histórias de animaizinhos solitários e com medo
onde no final o amor se revelava e enchia a noite
e os animaizinhos da noite de aconchego
e o sono vinha como uma saudade
que ia se desfiando e doendo aos pouquinhos
eu era apenas um menino que ouvia segredos
que ondeavam na formosura das tardes
onde o vento flertava com os cravos no canteiro
e sonhava mistérios
nas noites onde as palavras tinham alma
e onde a alma dizia coisas
despedindo-se da madrugada
junto com a minha solidão
invisível como a sede e a recordação da água
Cinco anos suplicando,
esperando a tua atenção e o teu afeto
eu era apenas um menino que cantava baixinho
e inventava histórias para dormir que só a noite escutava,
histórias de animaizinhos solitários e com medo
onde no final o amor se revelava e enchia a noite
e os animaizinhos da noite de aconchego
e o sono vinha como uma saudade
que ia se desfiando e doendo aos pouquinhos
eu era apenas um menino que ouvia segredos
que ondeavam na formosura das tardes
onde o vento flertava com os cravos no canteiro
e sonhava mistérios
nas noites onde as palavras tinham alma
e onde a alma dizia coisas
despedindo-se da madrugada
coisas que ouvidas em silêncio, terna e atentamente,
bem que podia ser poesia
bem que podia ser poesia
Cinco anos...
nunca me destes a mão
a não ser para me fazer morrer com a outra
ou para o opróbio da benção sem nenhum amor,
sem admiração,
sem respeito
apenas espanto
medo
e humilhação
oscilando as fadigas da raiva e da dor
a alma sufocada e oprimida
soluçava na angústia de se expressar
doíam-me os ossos, a pele, a alma
mas o que mais me doía
era não poder te amar
medo
e humilhação
oscilando as fadigas da raiva e da dor
a alma sufocada e oprimida
soluçava na angústia de se expressar
doíam-me os ossos, a pele, a alma
mas o que mais me doía
era não poder te amar
domingo, 23 de novembro de 2014
O que carrego nas mãos
recantos tão escuros
que nenhuma manhã visitará"
Mia Couto.
In Tradutor de Chuvas. Caminho SA, 2013.
O que carrego nas mãos
se não estes escuros
esta sombra da qual me visto
esta noite da qual me sonho
esta distância na qual me morro
esta distância na qual me morro
este tempo ao qual me vendo?
Desde quando tudo demorando em ser firmamento?
A tarde passando assentada
e tudo demorando em ser caminhos de areia
que vão dar num mar sem tamanho,
como uma incomensurável lágrima azul
que vão dar num mar sem tamanho,
como uma incomensurável lágrima azul
o dia restando lacônico
o sol pespontando a existência do rio
e vermelho-amarelando as águas que, dissolutas,
bebem estrelas,
desfocam a lua
e o mundo hesita quando o vento passa já sem grades
e o ar quebrado estremece querendo chover
O que carrego nas mãos
se não estes escuros
esta sombra da qual me dispo
esta noite da qual me pássaro
esta distância na qual me voo
este tempo no qual me extingo?
e vermelho-amarelando as águas que, dissolutas,
bebem estrelas,
desfocam a lua
e o mundo hesita quando o vento passa já sem grades
e o ar quebrado estremece querendo chover
O que carrego nas mãos
se não estes escuros
esta sombra da qual me dispo
esta noite da qual me pássaro
esta distância na qual me voo
este tempo no qual me extingo?
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