sábado, 3 de janeiro de 2015

Noite sem luar


Noite sem luar –
Lá, o negro silêncio;
aqui, mudo sonhar.
 
Claudio Miklos
In O Bosque de Bambus
Coletânea de Poesias Haiku Zen


A noite acordou e entrou pela escuridão
escondendo a lua
Apagou o silêncio e a montanha
Encheu o ar de aromas sensuais e de passados
Meus olhos dormiram
encantados pelos sonhos de Mara
Meus lábios esqueceram as palavras
Meu coração não atravessou o rio
Minhas mãos tremeram diante
da possibilidade da flor
No céu a noite continuava caminhando
seus passos escuros
As estrelas queimavam-se,
crepitantes candeias
O vento soprava cinzas no caminho
Vou tateando e andando passos hesitantes
A mente cria os vários mundos,
do engano à submissão
Há que se arrostar o samsara
e viver e morrer e reviver no samsara
O tempo passou e já é quase hora de voltar pra casa
e nem sequer sei onde estive
Minha alma oscila entre o silêncio e o grito,
entre a sabedoria da inocência
e a cupidez e os vícios
Há campos e tempos a serem trabalhados,
flores a serem cultivadas,
véus a serem despidos,
há que se atravessar tantas pontes
sem que se possa refrescar-se nas águas límpidas do rio
há a noite e o silêncio e as folhas secas que o vento leva
e as portas por onde se entra na noite
e dentro da noite infrangível
e sobre o lodo do lago
brotam flores de lótus

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Prece

 
Desperta, Ananda, meus olhos para que eu veja além das ilusões de Mara. Acalma meu coração envolto na falaciosa teia dos devaneios. Abre o caminho insondável para o que sou e deita minha cabeça em teu colo quando a cegueira se fizer incandescente, atiçada pelas brasas da minha ignorância. Que a minha boca professe as palavras do teu cântico. Que a minha mão siga a tua e os meus passos caminhem após os teus pelos caminhos verdejantes aonde a minha alma vem te visitar por entre os ipês de agosto. Espelha o rio que traz as águas desta torrente de Verdade da qual tem sede a minha alma. Tocai a cítara durante meu sono para que meu coração se reconheça no dedilhar singelo do poema dos teus dedos. Ananda, Ananda, dá-me saber quem sou nesta Alma infrangível refém desta matéria que o tempo corrói em memórias tão curtas, em enganos infindos, neste contumaz adormecer. Ananda, concede-me a estrela que a minha Alma aprisionada é, como ela, Fulgor de Luz, Grito Fremente, Pulsação e Semente. Se fora da mente nada existe dá-me vivenciar a sabedoria e o grande Amor que em mim vivem como a flor que desabrocha e suas cinco pétalas começam a brotar. Dá-me a luz do sol para afastar a escuridão dos meus olhos e a luz que vem de ti para afastar a escuridão da minha Alma cativa desta matéria que, como o galho ressequido pela intempérie, cai ao chão e putrefa para nutrir o solo e gerar outras vidas tão sequiosas quanto a minha da tua voz e do teu olhar. Que a minha Alma eterna saiba das noites o tempo, saiba dos dias o frescor e a aragem que vem das matas e da completude do mar. Que a minha Alma saiba que os sentimentos bons ou ruins nascem em mim e eu sou eles nestes momentos. Ananda, dá-me clareza para identificar o supérfluo do essencial. Que eu reconheça em mim a tua dócil Sabedoria e este Saber suplante em mim o fogo intenso das vaidades. Que o meu coração seja cheio de ti. Faz do silêncio a minha voz mais alta. Que eu possa perdoar meu semelhante no momento em que sou raiva e arrogância e a mágoa tinge meu coração de tristeza e rancor. Namastê! (Curvo-me perante ti)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ano "novo" será do jeito que a gente o fizer


um dia faz-se de um segundo
depois de outro segundo
fluindo...
enquanto a terra gira
sobre si mesma a uma velocidade de 1.666 Km/h

uma semana faz-se de um segundo
depois de outro segundo
que vão fazendo os dias
depois outro dia
sóis e noites manando no céu
antes mesmo de o tempo ser tempo

um mês faz-se de um segundo
depois de outro segundo
que vão fazendo os dias
depois outro dia
que vão fazendo as semanas
depois outra semana
depois...
luas sem nome demoram-se
em lunações
o tempo de serem fases

um ano faz-se de um segundo
e de outro segundo
que faz um dia
depois outro dia
originando as semanas
depois outra semana
advindo um mês
depois outro mês
depois...
o gosto da estações
calores
folhas secas e luz, muita luz
o vento frio olhando pela janela
cores flores perfumes
a vida chegando do ar
manando seres e sons
o que alegra e o que dói
girando ao redor do sol
a 107.000 quilômetros por hora
e a um milhão de quilômetros por hora
com relação ao centro da galáxia

a todo segundo a vida demanda escolhas e ações
                                                            (omissões?)

o ano não é novo nem velho
o ano que se diz novo é mera
continuação daquele que se diz velho
que, por sua vez, é a continuação
da continuação, da continuação,
de todos os anos passados desde o Éon Hadeano

o ano que se inicia está impregnado
de passado
e o vir a ser é uma semente
sensações para continuar a poesia
ou faze-la diferente
conforme a alma deslinda-se
enquanto a poesia se faz com  sonho
e as palavras que brotam da mesma terra
onde repousam a certeza da morte
e a impermanência da vida
entre a vida e a morte há sonhos sem nome
o sonho maior deveria ser o de ser gente
há tempos aguardamos o SER HUMANO,
entre mentiras e alaridos

o ano que se inicia não é novo em si
o ano que se inicia é promessa
o ano que se inicia é devir
que pode não se cumprir

um ano não se faz novo
nós nos fazemos novos
com um gesto novo
depois de outro gesto
de atitudes e escolhas
novas ousadas diferentes
do cantochão e do ramerrão
contidos nos velhos atos e discursos
da sede antes da água
do escuros antes da luz
do imponderável
do insaciável
do inesgotável
do enigma
de uma fome infinita
do sonho e da sombra
da semente antes da flor
da palavra se escondendo antes do verso
do esconso silêncio antes do amor

o ano,
esta discriminação humana,
quando ele for,
caminho ou escada
matéria frugal, gás ou vapor
segredo primordial
pergunta banal
será do jeito e da feição que nós o fizermos

FORÇA A TODOS PARA QUE POSSAMOS
SER SERES HUMANOS MELHORES 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O caminho que anda sob os meus pés

 
O prólogo de Zaratustra

Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:

“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho".

Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bem dizíamos-te.

Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel.

Necessito mãos que se estendam para mim.

Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.

Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.

Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.

Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!

Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!

Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem.

Assim principiou o caso de Zaratustra.


Friedrich Wilhelm Nietzsche.
In Assim falou Zaratustra.



Como Zaratustra ia eu no caminho e me perguntava: que caminho é este que eu tomei onde as sombras não dormem à espreita de que eu caia e elas me assaltem a alma. Que caminho é este onde o sol, por vezes, esplende e brilha tanto que incandesce e me ofusca o espírito. Não encontro ninguém que ouça e entenda a noite. Passaram-se tantos anos e os vales ainda guardavam a queda. Os bosques são de cinzas e o vento escorre por entre os troncos tisnados. Ardem. Por vezes não encontro água que beba. Por vezes não encontro sono que durma. Minha alma vagueia.

de quando em quando respiro
enquanto percorro e deslindo este caminho
que anda sob meus pés
tenho o hábito de, vez por outra, voltar o olhar para trás
assim como quem espera um possível companheiro
para juntos caminharmos pra longe da escuridão

tantos já percorreram este caminho que ora percorro
talvez não os encontre ali na frente
após uma das curvas do caminho
após o silêncio preso aos meus passos
talvez estejam alguns, ou mesmo todos, aqui comigo agora
se não de quem seriam estas vozes que clamam tanto em meu peito?
estas partes de mim que vêm recolher a minha noite?
enquanto aguardo o luar vestir-me de prata e âmbar

talvez, naqueles tempos de cada um
houvesse luas flutuando hesitantes
mais estrelas cheirando a rios de cor no céu pendoado
no dia também morasse o escuro
e as noites se incendiassem de tanto sol
talvez, alguns dias, a dor fosse tanta
e o caminho fosse a veia aberta e latejante
na têmpora de um mundo insone
que só dormisse no colo do amor incondicional

talvez os dias fossem fogueiras que a noite apagava
que à noite também houvesse um céu para os pássaros dormirem
e mares por onde só se andava de candeia na mão
talvez, naqueles tempos, na bifurcação da estrada,
flores brancas e negras brotassem
umas entremeadas das outras
flores atravessadas pelo vento e pelo silêncio da paisagem
flores se abrindo para os olhos de ontem

talvez um rio nadasse nas águas das chuvas cheias de solidão
a poesia estremecesse ao sair das minhas mãos
talvez a pedra já estivesse no caminho
e sentisse e pensasse e sonhasse
e adormecesse em soluços como o menino que fui
talvez houvesse, entre as pessoas, algumas de olhos azuis,
outras com olhos verdes, muitas de olhos castanhos e negros
e todas olhassem com o mesmo pasmo o firmamento

talvez o caminho seja esta noite inquieta e rumorosa
talvez, de tanto cruzar a solidão da grande ponte
e ouvir a voz dolente das águas soluçando
confrangidas pelas margens do rio
meus passos se esquecem a andar sozinhos e ligeiros
em direção à tempestade

talvez!

talvez o mundo fosse um mistério maior do que as suas ruínas
talvez a consciência ouvisse mais a alma e a criança que espera
talvez o que se disse e fizesse do mundo e do homem fizesse mais sentido

o abismo sempre esteve, sempre estará lá
fendendo o caminho
impuro
escuro
sorvedouro
sem margens
ou memória
de amor ou ódio

talvez eu encontre as chaves da minha cela nesta prisão
talvez não

meu coração se encanta
com a tessitura e o aroma das palavras
que amam os dias
se entregam às madrugadas
que recendem à poesias
e têm, na essência, o silêncio dos timbales
e dos olhos a lê-las

minha alma se espanta
esquece
para em seguida recordar
as noites ao meio dia
o vento varrendo os desertos
e as planícies
derrubando o perfume das folhas
num mundo onde o sol quando se apaga toca o chão
e cheio de chuva e rios e cheio de dor não demora a esfriar

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os outros que há em mim


o que é que eu falo para estes outros que há em mim?
como mostrar a eles que as escolhas estão erradas,
que os caminhos escolhidos não andam nem levam a nada?
andam a tatear tristes mundos
lancinantes noites
dias profanos
cada um com seu atavio
cada um com sua algaravia
cada um exigindo precedência

"há vozes no meu quarto
que pedem mais do que posso sonhar"

diz Mia Couto
e assim me calo
e assim ouço a eternidade

a lua que vejo agora não é igual a da última vez
quando meus olhos choravam a minha ignorância
a flor que toco é lá na infância
onde borboletas voavam sem asas
e eu, ignorante, as tinha nas minhas mãos
ainda hoje tenho presa a minha alma por um cordão

o que é que eu falo para estes outros em mim?
que mentem
enganam
adulam
dizem que sou o que não quero ser
e não sou
e nunca são
se não desespero e dor
imploram carinho, atenção
se despem e se prostituem por qualquer meia dúzia de palavras vãs
de frívolos sorrisos

comem as migalhas que caem das mesas e das camas
regurgitam o destino

despertam e sonham o pecado
tonteiam-me
olham a tropeçar na infinita cegueira

que direi a estes outros?
para que acordem do sono
do sonho fútil que devora a vida
do engano
que veste de desejos o mundo
se quem sonha sonhos cativantes não deseja ser acordado

que dizer a eles?
que olham para não ver
que pouco ou nada dão a vida
mas, que tudo querem ter
duas palavras, salamaleques e um mimo
compram a submissão
ao escravizante prazer

que dizer?
que dizer?

aos meus outros viciados
arrivistas
prostitutos da existência

que dizer ao Divino que em mim habita
e que é o meu verdadeiro Eu?
que dizer para a vida que envelhece dentro do espelho?
que dizer para o rio onde minha sombra se banha?
para a ingenuidade extasiante da flor na janela?
como abrir as portas sem que o escuro não entre?
que dizer para o tempo que me espreita?
que dizer para a mulher que comigo se deita
para atendermos ao rogo da luxúria,
para preenchermos o vazio sem gesto,
o insuportável nada
e tentar elidir
e esquecer o medo?
poderia usar qualquer droga,
se tudo fosse tão pouco
poderia ficar louco
dissolver a Divindade no caos
rasgar a alma em pedaços
rasgar o mundo vidente
e os mundos duvidentes que desconheço
pôr para correr os demônios
correr, tropeçar, rastejar
cansado
na sede beber cicuta
chorar o infinito
depois inspirar fundo
enraizar o corpo na terra
fazer a eterna guerra
até deixar de existir
motivos para chorar

qual a palavra indizível,
alheia e tão semelhante a minha voz,
que possa iniciar o indispensável diálogo entre nós?

Tão longe é aqui

         

          Tão longe é aqui
(Título do filme de Eliza Capai)


lá fora os ventos são só silêncios
incessantes
amoráveis
a alma é ausência
o sentir é dormência
os olhos ainda não se acostumaram ao escuro
o mundo se olha cego
nada se vê do veludo negro da noite
estrelas viajam nos céus
encruzilhada de mim

chove

uma chuva vermelho-carmim
dentro dos pingos lembranças
de você
lembranças de mim

em um segundo a desatada distância
entre eu e você
entre você e você
entre eu e eu
entre eu e aquele que vejo e que me olha do espelho

entre eu e você há caminhos que saem daqui às 22:39 horas
pontualmente
todas as noites
caminhos que vão para o passado
regresso à sombra que não deixa nascer a manhã
assim como a estrela traz o passado na luz
que só agora se vê
beleza de milhões de anos atrás

tão longe o que sou
tenho que nascer outra vez
e outras (se preciso for)
para viver o amor
mas, eu não quero viver
o meu, o teu amor
a ilusão da carne
a escravidão da carne
eu quero viver o amor incondicional
eu quer aprender das lágrimas o gosto do sal

não há caminhos em mim
há chuvas convulsas
há pedras caídas do tempo
interpondo-se no caminho
que haveria, mas não há
há sonhos que se arreliam
há um menino chorando,
comendo a parede de barro
há poeira,
muita poeira
e grandes redemoinhos
quando tento voltar para casa
o vento joga poeira nos meus olhos
sozinhos
não consigo encontrar o caminho
erro
vivo das migalhas que caem no chão
tantas vezes
morri em busca do caminho
mas, caminho não há
tão longe é aqui

sábado, 27 de dezembro de 2014

Honey

 
A LINGUA LAMBE
 
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
 
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
 
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
 
Carlos Drummond de Andrade.
In O amor ao natural, pag. 49, Editora Record, 2011. 
 
 
 
honey, você tem que me dizer
se tá bom, se tá ruim
meu beijo, assim, em você
se você não fala nada
a mágica pode não acontecer
a poesia pode se esconder
e não vai ter varinha nem fada
que faça você flutuar
Minha menina pequena, se você não fala nada
eu posso errar os caminhos
eu posso me errar nos carinhos
mesmo querendo acertar
a minha língua procura
teu mel, honey, a tua doçura
busca onde mora em ti a eternidade
o tempo em suspensão
a suposição da morte
a indecência e a castidade
a imersão fremente na vida
toda a tua pele despida
tudo de propósito pra te encantar
E a chuva prenunciada
só o vento lépido e cálido pode trazer
Docinho, cicia, sussurra,
fala a linguagem das mãos,
me diz como quer
me diz se quer
que eu vá abaixando ou subindo,
mais lento ou mais rápido,
se é o beijo molhado
se é o lambe da língua
se é o roçar açodado dos meus lábios
nos lábios da tua flor
que faz você me molhar
honey, flor da açucena, o teu corpo fala,
mas fala palavra pequena
e eu posso me enganar
flor da açucena, amorzinho, tem dó de mim
tem pena
que enlouqueço, perco o juízo
no teu gosto álacre e conciso
na tua flor namorada
na tua flor ensopada
que eu bebo eu babo eu deslizo
honey, meu mel, minha abelha rainha,
quando eu te beijar,
minha boca na tua boquinha,
me prenda a cabeça com as coxas
me solte só quando gozar