
quinta-feira, 7 de maio de 2015
As cigarras regressam
após anos de terra e sombra as cigarras regressam
aos troncos sem tempo das árvores
entre nuvens baixas explicando as chuvas e seus perfumes
num solilóquio escuso
no céu é janeiro
o dia trouxe o cantochão inesperado
e estridente das cigarras
as crianças soluçando alegrias
seguem o rumor das cigarras
esperam
lata na mão
pés descalços
rindo-se da festa nesta terra vazia de tudo
aguardam que dona cigarra embeveça-se com a sua própria cantilena
lembrando finas tristezas,
açodando cantos repletos de amor e de amar
chamado ao entrelaço do namoro
fechando os olhos para o tempo e para a morte
aguardam sem nome o balbucio imóvel
esperam o momento maduro
o cheiro das cores lampejantes no vento
acoitam-se para pega-las
com as latas vazias de momentos inocentes
e cheias de claridade
encharcadas de sol
rodopiando ao vento
giros de inutilidade
assimétricos
geômetras solenes embalados pelo alvoroço
da imagem vermelha e trêmula das cigarras
indiferentes à vida de quem canta
esta sonata de paixão e de enleio
que a natureza sussurrante pôs a amadurecer
num verão que veio com o giro do mundo
como frutas maduras,
como vagalumes acendendo as noites de verde
a vida começando onde começa o mar
as vozes começando nos quintais coloridos esperando os ventos
que descem pelos telhados
tocam o chão, e divertem-se fazendo rodamoinhos
trazendo uma brisa que não se escuta devido ao som das cigarras
mimetizadas contra o tronco das árvores
desmanchadas em sons para o acasalamento
quem luta contra a sede da procriação
quem desconhece a sede só saciada com o ato da procriação
mesmo que a próxima palavra a ser dita é "morte"?
o mundo é pequeniníssimo para o vocativo dos instintos
nas tardes quentes de janeiro
o vento, ouvindo o uivo clamante
e a narrativa estridente das cigarras,
reverbera o chamado e a voz vermelha e inviolável
em redor da inelutável natureza
nas horas brancas e brandas do dia
o vento sopra poeira nos olhos ingênuos das crianças
que voltam-se para trás numa falsa despedida
desvelam, serenamente, uma ponta de choro
um desinquieto abandono
e a algaravia do alarido das vozes
já esquecidas da poeira e do choro
voltam ao canto ininterrupto das cigarras
que vai na longa barca do dia
navega na garganta inteira das sombras
e na cadência das cores andantes do som orvalhadas
estremece no que ainda há pouco era só solidão
paisagem sem caminhos
palavras mareadas e sem ilusão
as cigarras cantam... cantam... cantam...
cantam... até procriar e morrer
a tarde passa leve e distraída da azáfama
que a tinge de cores tão desconhecidas
quanto os versos que o poeta semeia
e não sabe se germinará no campo verde
dos teus olhos
no campo semeado do teu colo
de versos não lidos
versos doridos
no campo trêmulo do teu ventre estiolado
onde as letras semeadas brotam como antigamente
amor e gesto e ternura
e, muita vez, esquecimento
a tarde apreende-se da morte do dia
no mar os ventos caminham irisados pelo sol
as cigarras saem do seu ciclo de cria
do seu designío de imiscuir-se
cantam seu canto estrepitoso
buscando na cantiga antiga
a cigarra mimética da memória copular
as cigarras tornam maiores o canto
tornam maiores a solidão e o sortilégio das horas
o dia embaraça-se às lentas paredes de inaudíveis silêncios
as crianças compensam o ciciar das cigarras
prisioneira abstrata do próprio canto
com o silêncio repleto e oculto nas latas vazias nas mãos
por entre as folhas de flandres das árvores de barro
insinua-se o hálito quente do verão
o canto penetrante e ruidoso que supera o desatino
de um canto mais que fino
sustentado pela atração, cópula e morte
no ano seguinte a mansuetude mirando as árvores
girando nos antigos e longuíssimos braços do mundo
o dia sustentados,
suspenso por cordéis de marionete
trará de volta as cigarras
por ora tão esquecidas
para acasalarem e morrerem
por que este é o Pensamento de Deus
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Antes que a sombra nos leve
nós vimos uns aos outros envelhecermos
enquanto o medo usurpava nossos sonhos
a servil submissão nos manteve cativos
e envelhecemos enquanto a vida esplendia
compraram por trinta moedas os nossos melhores dias
e, a partir de então, já não tinha mais pôr do sol
as tardes longas e graves
doíam ante a noite repentina
a luz esbatendo-se
sorvida por um antigo céu alheio
às formas, às cores e às águas
trazendo-nos à noite para a casa fechada
em frente à televisão
falcatruas, polícia, ladrão
todo dia um fanfarrão
alude à corrupção
como se isso fosse alguma novidade
como se o homem não fosse o que é
desde a sua aparição
mas, em que pese os otimistas, envelhecemos
ouvindo sempre o mesmo ramerrão
nada de original na (d)existência humana
será que ninguém se apercebe
que para comer o pão nosso de cada dia
penhora-se a alma ao cão
todavia, envelhecemos
e da semente primordial
restou um minuto pra vida
que é o que temos pra hoje
antes que a sombra nos abata
e nos leve o que nos resta
dos lábios a palavra,
da boca o gosto vermelho das tardes,
das mãos o gesto inquieto,
do olhar a ternura,
dos ouvidos a brisa ao entardecer,
da alma a poesia
e a estesia inefável
quando a lua vaza o céu
e abre as portas para as estrelas
antes que a sombra nos leve
da pele a "de(r)mocracia"
da essência a solidão,
buril das minhas perguntas
e nos resta tão pouca coisa
que a sombra um dia nos leve
nos leve a imagem do espelho
e sua inenarrável fadiga
nos leve a memória da flor
nos leve este jeito de amar
e o sossego do amor
ternuras de pássaros rente ao chão
nos leve o sussurro do vento passando
nas velas do barco que (a)morosamente
vai pela tarde quando o sol fecunda a ilha
que a sombra me leve
a antiquíssima necessidade de ser útil
estou cansado de ser útil
cansei de ser útil
Eu quero a prerrogativa
e a sabedoria de ser infatigavelmente inútil!
terça-feira, 5 de maio de 2015
Foge o céu
foge o céu
num vento anônimo que arrasta nuvens
e ainda derruba folhas num final de inverno
as flores de setembro já espiam
pelas frestas entreabertas das estações
os prelúdios da primavera
a noite vem vindo lá do fim da rua
acendendo lampiões
fogo amarelo roubado
a ignescentes deuses
respira-se a fumaça preta
enquanto a luz bruxuleante
estende-se no vazio entre o ar e o ar
antes de morrer
impregnando as paredes com sombras
flutuantes como a leveza da folha
no ar silabado de agosto
criando imagens que se desmancham
ao vento que oscila a leveza imponderável
dos ideogramas de um haicai que se dissipa no ar
antes que o haijin possa deslindar os primeiros significados
cessa a sombra cediça
sem véus que a ocultem
desnuda-se ante o átimo de tempo
que separa o movimento e o som da luz
o inverno desembarca na ilha
traz espelhos, contas coloridas
e berloques
para aliciar os nativos
restos que sobrou do carnaval
despe-se de cortesias
as noites são longas e frias
como um inverno de segunda mão
um inverno fosco
pairando lá adiante onde um dia a infância foi feliz
sopra, do mar para a terra, um vento pálido,
timorato
tremeluzindo a luz dos lampiões,
a chama oscila,
respira devagar e insontemente,
estremece na noite infrangível
e sua pequena morte incruel
adormece a brisa e os devaneios
uma mariposa deixa-se seduzir pela luz
saracoteia em volta da lâmpada
entregando-se à foto prisão
girando,
esvoaçando,
dançando danças ignotas
assediada infrangivelmente
pelo artifício da luz artificial
sem atinar com qualquer outra possibilidade
que não o de rodear o cansaço e a morte
de um foco de luz que lhe falseia a vida
sem sequer notar o frenesi coruscante
e a liberdade negra e estonteante
que esplende lá fora
e a pequena travessia que faria
da artificialidade cativa da luz
ao bulício e inquietação que sustentam a noite
e tudo o mais que da penumbra consta
rabisco a noite
me perco no rumor da escuridão
com passos de tabaréu
esqueço o poema e o tempo que me trouxeram até aqui
alguém me chama pelo nome
não atendo
meu nome não sou eu
de meu tenho somente a alma
há um preclaro descompasso entre o que estou
e o que a minha alma é
o fim da mariposa acossada pelo engano me desconfortou
o pensamento não sabe o que é luz o que é escuridão
cativeiro, liberdade
vagueio por entre estrelas
super novas
nada velhas
galáxias
se tudo pode ser poesia
crer na luz até morrer,
sem meandros,
sem emendas,
nem dúvidas
é a maneira mais afortunada de se auto poematizar
alguém acende o círio indubitável e perene do sol
o dia nasce derramando cores
o sol vaza a memória das copas das árvores
pela janela aberta a algaravia do sol me ofusca
tropeço,
caio,
e rolo
pela borda do céu
de testemunha somente
a imanência do pássaro
que entrou na outra poesia
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Cigarras
a vida
vazia de sentido
cheia de pedras nos caminhos
sem Drummond para nos alertar
com moinhos de vento e quimeras
e Quixotes a enfrenta-los
onde cada um se reconhece...
ou não
a vida cochila
na tarde que discorre como uma queixa
pelo fragoroso engodo do tempo
por onde penetra e amolda-se um céu difuso
na agonia do dia
enquanto a cigarra entoa
num "pout pourri" monótono
solfejando melodias lancinantes
toda a sua cantoria
lépida e incessante
entoa a cigarra seu recital cantochão
o anti silêncio do instante
reverberando no quintal
um repertório quase todo nacional
a vida assim parece este cantar infindo
este poema gutural e imperfeito
por que canta tanta solidão?
por que canta, tão lenta e longamente, afinal,
nestes prelúdios de verão?
por que canta, quase sempre no mesmo tom,
se os ódios e as guerras
teimam em não acabarem e não morrerem
e a vida se repete consoante à
incivilidade, a inconsciência
e o arrivismo, sem limites,
do homo que se auto intitula sapiens?
nada ou pouco sabemos/meditamos do inefável amor
que está presente na árvore
e na cigarra
e na perfeição da cantoria da sua vida curta de cigarra
e que a leva a cantar até morrer
por que ser cigarra é ser assim
este é o seu sonho
que é anterior à cigarra primordial
o canto da cigarra é o mesmo canto das estrelas
e dos astros aliciando o infinito sem fim
de um Universo que é Pensamento
e que viu todos os seres
serem
a perfeição
domingo, 3 de maio de 2015
Noite de chuva
noite de chuva
o vento passa mordendo as sombras
das estrelas pendentes dos beirais da noite
arrasta a lua, os astros, um deus do medo
o céu e seus infrangíveis segredos
ressuma cores nas pétalas da flor
e na palavra mortiça e dolente
imponderável como a sina
de nascer e viver morrendo
noite de chuva
as sombras dessentidas
geram a madrugada
no espaço esquecido pela luz
inoculável
como a intrigante magia
de morrer e nascer todo dia
noite de chuva
esta chuva buliceira caindo devagarinho
misturando-se à lagrima que demora
no meu rosto
enquanto teus passos te levam nua
pelos caminhos dos rios
intocáveis
como a luz dos astros refletida no mar
que dá cor ao engodo ao que seja a morte e a vida
noite de chuva
que amadurece
o inverno e prenuncia
na chuva que ora cai
mais uma outra primavera
e burila na maciez do barro
o esboço
de uma lua crescente
refletida num pequeno lago
em uma noite pequena
jogo de cintilação e espelhos
suspensa nos astros
indecifrável
como a angústia do bem e do mal
e a panaceia da morte para a vida de medos
que se vive afinal
sábado, 2 de maio de 2015
Dentista
tento escrever,
mas a visita ao dentista não me sai da cabeça
- pode sentar, por favor...
estende a mão em direção à minha boca
- abre... grande... vira, morde...
examina,
examina,
examina...
olha os dentes com a mão
e olha com todo o ser a farta ausência de dentes
murmura pra si
suspira,
como se a falta de dentes fosse nele e não em mim
arrima os olhos com o espelhinho
a raiz exposta
que bosta
findo o exame
calcula,
calcula,
calcula...
no computador
sem puta dor me diz:
nada que dez mil reais não dê jeito
SUSTO MOLDADO EM RESINA!!!
BÊBADO DE SUSTO!!!
pasmo diante do imponderável
indeciso,
penso com o siso que não tenho
e nem juízo também
coisa parecida só no "Inferno de Dante"
falta-me a noção da mais-valia dentária
R$ 10.000,00???
uma dor imprecisa,
que não me permite fechar a boca
cada vez mais aberta
cada vez mais imensa
cada vez mais só queixo
como que para entender o valor
do sorriso imensurável e gaio
sorrio,
banguelamente
um sorriso amarelo cigarro
no espaço da sala uma súbita falta de ar
no bolso a usual falta de grana
evidencia a silenciosa
a insopitável
a anti estética falta de dentes
o gosto viscoso e translúcido
da saliva seca
misturou-se ao gosto que o vil metal
deixou no sangue azinhavrado na boca
*********************************
Eu vi, outro dia,
um carro ofertado por R$ 2.500,00
Olhando, assim, o binômio
carro/dente
concluo que o meu sorriso sem dente
que era fácil e contente
entra, indubitavelmente,
como bem a se inventariar
para o meu ativo permanente
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Quando olho no espelho
Quando olho no espelho
me soa estranha a figura
que me olha, enigmática,
do outro lado
e que quando eu lhe aponto o dedo
ela me aponta de volta o dedo carregado
de tristes repreensões
e me evoca sem dizer palavra
Indeciso, não atendo
A vida é só esta máscara?
Esta persona?
Este anacoluto escrito por uma sina?
Só este anacoreta extraviado no espelho?
Quem é a figura dentro do espelho?
A sombra de um mamulengo?
Tanto pode ser eu como o outro
se for o outro é o inferno
e se o inferno não for o outro?
e se o inferno estiver do lado de cá do espelho?
e se o outro for o espelho?
Daqui vislumbro o fim
O fim não começa lá fora
O fim lateja dentro de mim
e é o inferno de agora
e de Dante(s)
O fim carcome a vida em silêncio
que entre nós dois coabita
por detrás da cortina de vidro
Será realmente eu o vulto que se desdobra no espelho?
E aquela imagem de ontem quem era?
Foi embora
calcinada pelo fogo bruxuleante
da inelutável oxidação,
da friável vida
E a imagem de amanhã, quem será?
Ai de quem tem espelho em casa!
Quando menos se espera,
o tempo passando
um vulgo suspeito
do outro lado do espelho
as marcas de expressão se expressando
sem grana pra comprar um protetor Fodex
que merda!!!
envelheci e nem percebi
tartamudeia o meu lado de fora
alguma coisa a ser dita
pelo meu lado de dentro
talvez uma balada lenta e dolente
talvez a sentença extrema
a exegese derradeira
mas não aqui nem agora
me soa estranha a figura
que me olha, enigmática,
do outro lado
e que quando eu lhe aponto o dedo
ela me aponta de volta o dedo carregado
de tristes repreensões
e me evoca sem dizer palavra
Indeciso, não atendo
A vida é só esta máscara?
Esta persona?
Este anacoluto escrito por uma sina?
Só este anacoreta extraviado no espelho?
Quem é a figura dentro do espelho?
A sombra de um mamulengo?
Tanto pode ser eu como o outro
se for o outro é o inferno
e se o inferno não for o outro?
e se o inferno estiver do lado de cá do espelho?
e se o outro for o espelho?
Daqui vislumbro o fim
O fim não começa lá fora
O fim lateja dentro de mim
e é o inferno de agora
e de Dante(s)
O fim carcome a vida em silêncio
que entre nós dois coabita
por detrás da cortina de vidro
Será realmente eu o vulto que se desdobra no espelho?
E aquela imagem de ontem quem era?
Foi embora
calcinada pelo fogo bruxuleante
da inelutável oxidação,
da friável vida
E a imagem de amanhã, quem será?
Ai de quem tem espelho em casa!
Quando menos se espera,
o tempo passando
um vulgo suspeito
do outro lado do espelho
as marcas de expressão se expressando
sem grana pra comprar um protetor Fodex
que merda!!!
envelheci e nem percebi
tartamudeia o meu lado de fora
alguma coisa a ser dita
pelo meu lado de dentro
talvez uma balada lenta e dolente
talvez a sentença extrema
a exegese derradeira
mas não aqui nem agora
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