segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Toca o terror


A fábrica de fazer malucos está funcionando a pleno vapor

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

acordo de manhã
ligo o rádio
me dizem que o país está se acabando
o ar está empestado de nefasto bando
chama Orson Welles para ir narrando
a invasão fulgurante dos sacripantas
corrupção
as viúvas do mensalão
o passado na televisão
tramando a insurreição
omissão
escândalos de segunda mão
o diabo de mãos dadas com o cão
inflação
desesperança
tem ladrão saindo pelo ladrão
investiga!!!
pega ladrão! pega ladrão!
não pega, não! não pega, não
se pegar todos vai faltar prisão
além do que ladrão que rouba ladrão
tem cem anos de perdão
assim tá todo mundo redimido
até a próxima encarnação

a presidenta bambeia
fica no vai, mas não vai
a presidenta agora, cai, agora cai?
ainda não é desta vez, ainda não é desta vez

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

a extração do dente vai ser com dor ou sem dor?
com  dor é mais caro
se abanca aí, índio véio, e nem geme
por que se gemer é mais caro
por que com dor é mais caro
inflação de consumo
inflação sem consumo
inflação de insumo
economia sem rumo
só se sabe que a inflação nos consome
não sabemos donde vem a fera
nem lhe sabemos o nome
é tanta da "informação"
que uma hora dessas me consumo e sumo
como uma alma penada e pelada
ao léu, sem norte, nem prumo

a presidenta que cai?
agora vai! agora vai!
ainda não
vai ter que apertar só mais um tantinho
mais um bucadinho

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

dizem que o emprego foi pro espaço
do salário no final do mês só sobra o cansaço
e agora o que é que eu faço?
estou comendo só os talos do maço
da xepa que eu arranjei
alguém aí acorda o rei
que a fome mata primeiro a grei
dos sem teto, sem terra, sem vida
dos párias à margem da lei
dos sem tudo, sem comida
dos com medo, com bebida
dizem que tudo tá uma merda
e que a lesma está cada vez mais lerda
que um dia o petróleo foi nosso
agora o petróleo é um troço
agora me lanho e me coço
para abastecer o carrinho
para andar sempre no mesmo caminho
agora invejo o vizinho
que ri acompanhado ou sozinho
eu queria saber rir só um pouquinho
nem que fosse o riso mesquinho
dos que não sabem guardar os dentes na boca

a presidenta que cai?
agora vai! agora vai!
ainda não, ainda não

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

agora o petróleo é um nervo exposto
na CPI do desgosto
na bolsa cai a ação
na rua sobe e clama o missão
sobe a litania da rejeição
sobe o desejo de danação

Canta a massa na quase primaveril festa junina:

"Cai, cai balão
Cai, cai balão
e queima a urna da votação 
Não vou lá, não vou lá, não vou lá
estou ficando com medo de eleição"

e a presidenta pode caí, pode caí?
e a manada muge: é isso aí, é isso aí

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

matam-se as esperanças
os ideais
matam-se os sonhos
quase sempre em definitivo
só o descalabro continua forte e vivo

TOCA O TERROR! TOCA O TERROR!

domingo, 6 de setembro de 2015

Um poema e um momento

 
A árvore lamenta
esboroa-se
cravada de dor
engolida e vergada pelas sombras
que vestem,
lentamente,
a noite carregada de segredos
e ainda impregnada do calor do dia
e do cheiro crasso e penetrante da lua que se anuncia
sondando a voz do tempo insustentável
que só existe quando eu penso nele
e lhe dou atributos de ser
engastado nas luzes e sombras
corroído pela ferrugem
levado pelos passos escapando
rumo às fogueiras correndo diante dos olhos meninos
e as águas do rio que a noite vai desmanchando
estrelas se aborrecendo
querendo ser cometa Halley
a eternidade morrendo pelo nosso punhal
lanhado de erros
e pelos olhos cegos,
pelos ciscos nos ventos que por aqui andam muitos,
que não diferem o essencial do acidental

sábado, 5 de setembro de 2015

E assim eu vou vivendo...


E assim eu vou vivendo...

buscando ignorar os dias de inelutáveis e puídas melancolias
tentando reaver os passos e os sonhos que ficaram
do outro lado do rio,
águas fugindo,
barcos aflitos,
inundação

Minha vida já não sabe de mim
tornei-me enredo,
segredo,
degredo,
moita de medo,
cantiga antiga
janela vazia

Ninguém lembra

Só eu cantarolo dentro da noite
para espantar a solidão dos retratos dentro do quarto
assombrado da mente

Assim, nu de mim,
vou invejando no outro o tanto que deixei de viver
sombras de um gesto inamovível e vago
escorrendo pelas grotas do abismo que vai passando
rumo ao passado
sinto-me inabitável
fogo e água
quase vida,
quase fim

Quem é este que me arrosta desde este passado interdito
cego para tanta escuridão?
o passado,
ilha monótona,
chuva rumorejando na penumbra do telhado
não explica a minha vida
vária e insondável
o passado é nostalgia
ave fugidia pousada nos silêncios que,
de tão cansados,
dormem apoiados nas mãos
sonhando saudades inacabadas e um destino abnegado
uma infância sem rio e sem mar onde eu pudesse afogar
o deserto que habitava a casa miúda,
as poeiras vermelhas,
e as memórias bojudas
intumescidas de cansaços e remorsos

O passado não passa,
perpassa
quem passa, sou eu?

Relógios e calendários retalham e mastigam o Tempo infrangível
cospem agonias

A noite indecifrável coloca estrelas e emboscadas na poesia
e lirismo no firmamento
o passado continua aqui,
carrossel,
roda-gigante
circo de  lona rasgada
algodão-doce
quintal
segredos embaixo da escada
rumores dentro da solidão dos dias insólitos
a me esperar
há séculos
na contagem irreal dos calendários friáveis
tão humanamente equivocados
olhando pelos meus olhos antigos e descrentes
a elegia das areias paradas
miragem de imorredouras ilusões
de estranho brilho fulgurando
sob a lua prateando e pranteando os sem nome
que nunca dormem

Das areias paradas vem o vento
soprando pela ilha sussurro mofino
vem uma lágrima a escorrer pelo céu
tocando à nostalgia de inefável pureza
cantarolando em mim as minhas canções de menino

E assim eu vou vivendo...

a minha luta eu luto sozinho
morrendo horas e medos
o resto mais é o insopitável Destino

Imagem: Christian Schloe

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Quando a gente vê... a gente já deu

 
ele chega
com voz de cama desfeita
com sua lábia de mascate do sexo
cachorro seguindo cio
trazendo no sussurro o grito
de êxtase
pegando na mão dela
o que diz roçando o infinito
mordiscando os bicos dos seios
dizendo coisas tão quentes
prementes
as palavras pubescentes
acordando palavras dormentes
promessas de gozo e arquejo
a mente e o espírito dizendo não
a pele dizendo sim
querendo ir até o fim

a cama guardada para o amor verdadeiro
para uma amor companheiro
já não enxerga o pecado
carola, da boca pra fora
promessas de inferno
e de danação
mundos inteiros de aflição
os peitos, a vulva, a bunda...
que sejam tocados e fiquem imundos
até a próxima confissão
a coerência e a fé esquecidas
esfregando-se ao Divino Espírito Santo
tudo apagando-se em errantes promessas
vazias de sentido e conteúdo
as tessituras do corpo cedendo ao desejo
quebranto
sonhos pueris
moleza
um sem sentido

a vontade,
lânguida e luxuriosa,
já deitando entre moitas,
se encostando aos muros,
roçando em lentos segredos
esfregando-se na penumbra
fraca e manca

a calcinha
molhadinha de suspiros
deslizando dissolvida
descendo
em arrepios incontida
os flancos à mostra
a vida fugindo da vida
a língua molhando a saliva
o clitóris arquejando ais indefesos
esquecendo de tudo que ela se promete
para entregar-se ao momento sem memória

ele diz as coisas que ela quer ouvir
mesmo que sejam
sortilégios
meias verdades
mentiras inteiras
ditas com suavidade e malícia
com gosto de gozo e delicia

morrendo serena e consentidamente
quem já não morreu?

ele pede sem dizer
despetalando cada pétala do seu intento
lenta e carinhosamente
o mundo se derrete e escorrega
por entre as pernas febris
mudo orgasmo
o mundo,
antes esférica prisão aos céus
e aos santos atada
dos céus e dos santos já se esqueceu
e diz,
o gesto nu e pequeno saindo da cama
entre o prazer e o pecado:
quando a gente vê, a gente já deu

Imagem: Christian Schloe

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O outono


o outono
entre soluços do orvalho
e as folhas amareladas do poema
sustidas nas árvores
ameniza as cores dos dias
atentos à paleta do sol
tinge o lago de dourado
derruba sombras e folhas
e escreve versos
com mãos de jardineiro
e as folhas caídas nas águas
quebram o silêncio timorato da tarde

os raios de sol
debicados pelos pássaros
lentamente engolfados pela montanha
encostam a face no horizonte
e acendem o escuro da noite
acendem as estrelas
e a lua no céu
tonteiam os ninhos
a enganar os últimos pássaros
escorrem dos telhados para os muros
rolando devagar pelas ruas
até desaparecem aonde ninguém pode escutá-los
enrolam-se nos jardins sonolentos
e ardem nos rios
até se acabarem
e deixam no mar
rumores de prata
e frios desertos
despertos pelos ventos
semeando canções
às vezes terno prelúdio
às vezes alegros exasperados
e só você pode ouvir
do  modo como você ouvirá
só você
ninguém mais

Imagem: Charles Louis La Salle

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dos sonhos eu quero os mais maduros


Te vejo
quieto como o sol suspenso lá fora
como o tigre que começa em tua boca
como a ave que ainda não te conhece
e se demora
a olhar tua beleza
como a face vermelha ao perguntar o teu nome
como o barco costeando rumo ao farol dos teus seios

Como não olhar
quando te vejo?
se as palavras com as quais eu te prevejo
com as quais te falaria
se extraviam
absortas
insondáveis
quando vens caminhando
como os versos caminham para o poema

Imagino teus olhos
não os vejo
negros olhos?
noites calmas?
onde começam?
onde terminam?
sonhos negros?
imagino teus olhos,
dona do tempo,
e espero
você inteira passar

Quem é você
morena, linda e leve
sonho, miragem, ilusão
surgindo,
trazendo fogo,
para o inverno do salão
quando vens caminhando segredos?
caminhas como quem dança
o passo lento do vento
as chuvas bebendo o verão
fazendo de ti
flor de laranjeira
pólen
favos de mel
pela tua morenice açucarados
nos teus lábios onde o beijo pousa
e as abelhas sorvem os dias
para te entregar

Há um mar entornado e inacabado entre mim e ti
mordo o tempo
o dia passa tão lento
esperando o outro dia
para eu te ver outra vez
vou sentar no mesmo lugar
para você logo me achar
e onde meus olhos te alcancem
para eu poder te acompanhar
passo após passo vindo
como quem viesse
de dentro das pedras da rua
na minha direção
e do meu encanto
a manhã te esperando
flor a ser colhida
saudade a ser bebida pela sede
menina morena
meus olhos, incompletos,
se completam quando te veem
meus olhos vão aonde a tua ausência vai
meus olhos vão não sei onde quando sais

Dos sonhos quero os sonhos mais maduros
suculentos
quero os sonhos mais maduros
quando te vir outra vez
quero o silêncio dos teus passos
que ouço quando chegas
trazendo ritmo e graça
e a pergunta nos teus cabelos
dos sonhos que despertam
em tantas carícias supostas
quero o sonho suculento
escorrendo sumo in natura
quero a candura
inebriante dos versos silentes das tuas costas

O silêncio fala de nós
ancorado à inocência do mar
o silêncio diz que eu não devia
te olhar como eu te olho
mas meus olhos olham,
logo que chegas,
para a ausência que deixarás
e, então, meus olhos já são só saudades
embaraçando-se no levitar dos teus passos
envolvendo-se na tua beleza de terra e rios
instante eterno e sozinho dentro do poema
que eu nunca esquecerei
nunca esquecerei
do enlevo desta candura que me toca
e deste poema que jamais te enviarei

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Andar sozinho é o caminho que me deram


"Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia"





A madrugada passando...
negro arco distendido
setas mirando agosto
lua cheia
roda d'água que ninguém vê
só eu e você
a madrugada não é rasa nem funda
a madrugada é tímida, rotunda
pé na poça da infância
fogueiras de estrelas
friozinho disfarçando o que sinto

Ao longe um relógio mentiroso,
ofegante,
sufocado pela neblina,
mente as horas
telhados antigos sabem os tempos,
mas nada dizem nem impõem,
a não ser a palavra escura que os recobre

Final de agosto ao redor da casa
sem que, no entanto, a ordem da vida se altere
o sol, insonte, nascerá todos os dias
trazendo os dias
soprando ventos
flores ao acaso
à tarde a noite se levantará do horizonte
dizendo metáforas vermelhas, laranjas,
cinzas ou lilases
engolindo o dia inelutavelmente
seja agosto ou seja abril
ou o nome que se dê ao transcorrer dos momentos
como sempre aconteceu
como sempre acontecerá
diante dos nossos olhos amestrados e desfeitos para enxergar
ou até que alguém,
entediado e boçal,
exploda a bomba em nome da paz mundial
ou até o sol convulsamente se apagar
daqui a bilhões de anos
para que serve o tempo, então,
se não para fazer redemoinhos no olhar
e nos cegar para a vida inefável e indefesa
que nos deram para sonhar?

Cachorros latem e lançam alvoroços no ar
que desaparecem
na capenga solidão dos morros
e das marras
nas vielas funiculares
em tantos outro lugares
onde a vida passa vazia e efêmera
a vida passa por passar

Pássaros trinam risonhos
ainda cochilam a noite
cochicham
indagam
ensaiam a melodia
que cantarão durante o dia
oculto nas folhas e nos galhos
das árvores do passeio em frente
filhotes no ninho
mamãe pulsando o inefável afeto
o mundo é um carinho quente

Os jardins dormem molhados
pela aspersão do sereno
liquefazendo a madrugada
despindo perfumes e o tempo
e seu segredo moreno

Um carro passa
levando consigo o instante
outros carros passam
intermitentes
buscam a manhã ainda longe e distante
deixando arruaças e fingidas negaças

No ar músicas cantam e cantam e cantam carências
sons afogadiços
onde ouvir o silêncio?
onde o silêncio andará de pantufas
onde andará o silêncio sem nem ao menos respirar?
(se houvesse o silêncio, mas o silêncio não há)
onde quer que se esteja crepitam sons
a cidade é um ser sangrando sons
antecipando-se à palpitação do coração
reverberando em mim
estranho refúgio sem memória
rebotalho de fantasias
um pote para as tristezas
mil ânforas para as alegrias
a cidade cochila preguiças
parolagens
futricas
enchendo o ar de sombras sonantes

As luzes dos postes amarelam a vida
olanzapínica e carbolítica
como os amarelos que amarelavam
meus pés descalços e o mormaço do sertão

A madrugada
a gaiola
aonde aprisiono e se debatem os meus poemas
que não são nada, não são nada, não são nada...
sentimentos fazendo burburinhos,
imagens flutuam na madrugada
metáfora e arremedo dos medos de um mundo antigo e vário
onde um segundo tem todo o tempo do mundo
onde o mundo pode estar por um segundo
por segundas intenções
por um apertar lento e digressivo de um botão

De vagar não se chega a lugar nenhum
onde as palavras fogem e retinem
esquecidas nas pontas dos dedos
nas teclas do computador
com puta dor
esquecidas simplesmente na dor lancinante
do verso que não se completa
transpassando o gesto e a ausência

Estou só
aqui nesta madrugada que me tirou da cama
e me chama
docemente
para falar de solidões e dos caminhos

Sou só
aqui nesta vida que me tirou de algum lugar
para onde ainda mandam cartas

Há tempos me desgarrei de tantos braços emudecidos
dos falsos sorrisos
das vozes meladas
da insídia e seus enredos
e ando sozinho
por que andar sozinho é o caminho
que me deram
quando atravessei a ponte
e o chão amalgamou-se aos meus pés
e me levou pelas estradas inamovíveis
e incognoscíveis do destino
solitárias e crepusculares
e o nome das coisas eu vou vendo devagar
a divagar distraído
acho quase tudo tão sem sentido
quanta coisa que eu não entendo
quanta coisa me dizendo o que sou
ou o que eu deveria ser
às vezes em sussurros
às vezes aos murros
às vezes em marulhos aflitos
às vezes em culpas
muitas das vezes aos gritos

Imagem: Christian Schloe