
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Seráfico
os dias inábeis
lentos e opressivos
cochicham
ao passar do vento
na dolência das tardes
uns versozinhos azulados
uns versozinhos avessados
estórias irrisórias
e soluçantes
que nem sequer
desvelam a face fútil da vida
que não guardam
as areias
calendários do passado
caindo de uma âmbula
a outra
os dia inábeis
caem
choram
e levantam-se
esquecem-se
nas miríades
de espelhos
esfumados pela ilusão
lacônica de frívolas
personas ensimesmadas
para quem a sombra e o reflexo
são a iconografia deslindando
o Ser dissoluto e póstumo
imagem imprecisa
dentro do tempo
que acaba de passar
diletante e longo
pela rua desprendida e deserta de si
corroendo a aragem
que desce com os riachos
que escorre
imperceptivelmente
das incandescências
do horizonte cinábrio
que faz da vida
um punhal de aço
vagaroso e tênue
uma antiga e nostálgica
sucessão de amealhados
instantes
imenso passado
de vidas por acabar
de sonhos por acabar
de coisas por esquecer
em seráficos luares
em rútilas horas
intangíveis
como os céus
evanescentes
como um final de tarde lilás
terça-feira, 12 de maio de 2015
Enredo
para a paz diáfana do dia há solos de pássaros
ecoando no ar de uma manhã nublada de novembro
na paz do canto dos pássaros
há lembranças e lamentos
lamentos de quem?
lembranças de quê?
de uma rosa vermelha esplendendo junto ao muro
dando cor ao mavioso canto da chuva
que soa tão de mansinho fingir-se de ar?
de um pássaro origami
levantando voo da dobra da vida?
dos felinos olhos negros de Pingo?
da embriagues de uma carícia numa tarde boba
de bobos sonhos e amores bobos e eternos?
lembrança de quem, meu Deus?
lamentos de quê?
conspícuos lamentos
olhares chorosos olhando de si para si
um ponto a ser posto no texto
sem saber-se se é de interrogação
exclamação
ponto final
vozes trêmulas silabando os olhares do passado
numa manhã nublada de um novembro
debruada pelo gorjeio dos pássaros invisíveis
dos quais só se houve o canto
e que o canto nos baste
apoiado no sonho me basto
e me imolo para algum deus da eternidade
afinal, se tudo foi só um momento fora do tempo
quando a vida, anacronicamente
abandonou-se à sandice
e à fantasia
tudo o que veio depois foi poesia
Utopia
para a utopia há a dialética
feita de noites e solidões
feita de marulho de mar
de sonhos dentro do Todo
há a utopia da nostalgia
que contagia o momento
e compõe a canção do dia
há a utopia do tanto de um gosto
travo, ácido e impossível
de deglutir
há a utopia das mãos vazando o escuro
e dos pés descalços
(os passos prontos para galgar as nuvens)
aptos para seguir
há a utopia da fome
da sede
do revirar-se na rede
jogando o vazio no estômago
de lá para cá
de cá para lá
há utopia nos olhos
no céu da boca
no nariz
há a utopia
da hora
de ser feliz
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Os soldados marcham
Os soldados marcham,
sem olhos,
sob um ideal caduco
marcham o medo
dentro das agruras
dos desertos
entorpecidos
marcham
sem remorsos
sem deixar sombras que os sigam
degustando ódios e estigmas
amestrados que são
sem nunca terem sido
testados nos fundamentos da ação
no dilema de suprimir vidas
algozes do mundo
com seus atos mesquinhos
tão pequenos
aa vida virada do avesso em 16 segundos
,
não têm mães?
não têm namoradas?
não têm têm irmãos?
não têm parentes?
algo que os prenda à terra
algum valor humano
algum sentimento que sonhe com tudo quieto
que o tempo para a vida e para a morte
seja marcado pelo ritmo do coração
os soldados marcham
conversando com o passado e o medo
num silêncio onde só se houve a aragem
ininteligível
camuflada
camuflando o que se é
têm ganas de lutar
não importa por que
não importa por quem
não importa aonde
o sangue faz o cheiro do sangue
o vento traz o cheiro de sangue
é pra lá que se vai
traçar uma nova guerra
tragar a antiga guerra
a morte a aliciar-lhes os dedos
o cheiro de sangue a açular-lhes os instintos
o gosto da dor a atiçar-lhes os dentes
a intolerância a salivar-lhes a raiva
trazendo de longe o odor dos cadáveres exangues
num triste mundo plasmado pela ignorância
e o medo
a sombra não vai com os mortos
amalgama-se ao solo adunco e infértil
nascerão flores de flandres sobre o solo
onde caíram os mortos
um sol magenta secará o sangue derramado
e a neblina das manhãs turvará a visão
e umedecerá a crosta de sangue nas mãos
dos ignaros soldados que marcham
seguindo medos espectrais
fantoches sem se quer saber quem são
sem se questionarem por que arrancam
das trevas o sumo da escuridão
a guerra é inexplicável
e a vida é esta monotonia besta
seguindo as vestutas sombras andejas da morte
saboreando o sádico gosto de sangue
o insondável e irrestrito monólogo
da estupidez maniqueísta
da intolerância atávica
onde antes havia teogonia
hoje há somente a insegura intenção de um deus
de olhos cerrados
de moucos ouvidos
estupefato
ante a incapacidade
do gesto que redimiria o homem enfarado
e o homem cuja grande batalha é viver
é ser
e não tem outra mais premente
o momento presente entregue à lenta letargia
que lhes sufoca o ar
e evola-se a cada respiração
devagar
como se do barro vieras
como se para o barro voltarás
e entre a vinda e a ida (indestrutível)
e entre a vida e a morte ( inabalável, posto que é essência)
a frase dita num esgar
que os soldados que marcham sem olhos
seguindo as boçalidades do homem só
são incapazes de ouvir
só entendem a palavra dura
tartamudeada
vociferada, pela boca umbrática do vil senhor
ei-los sós
sentados à pedra
fumando um cigarro
tragando a alegoria da morte
caindo com as cinzas
pernas, troncos e mãos
amontoados no chão
sopram os ventos vermelhos e estanques
insensíveis à consciência
estão surdos e cegos e em frenesi
de tão fascinados que estão
pelo estalar dos ossos partidos
pelo desatino
e pelos gritos e as faces crestadas de dor
desembarcando aos pedaços na tela do computador
e tudo fica parado cambaleante de ironia
do contraste
da dor do medo
do medo da dor
a madrugada recolhe os mortos
e teima em fazer poesia
só pó e sia
domingo, 10 de maio de 2015
Quieta
quieta
a vida se embalou no suave silêncio
que a brisa trouxe como o instante
envolvendo a tarde na ilha e as sombras das árvores
onde só se ouvia o melífluo canto dos pássaros
quieta
a vida espera
a brisa toda passar
e o passarinho calar as suas solidões
e o tempo dizer todos os seus espantos
quieta
a vida arrebanha matizes
e suspiros ingênuos
brancos aromas
no jardim onde o passado fugaz
oculta anjos
de mãos mui delicadas
de olhos tão azuis como
o vento embalando céu
passando pela manhã
e a música esquecida no mar
o vento embalando céu
passando pela manhã
e a música esquecida no mar
e lábios doces e rubros
num rosto emoldurado
por cabelos cor de trigo pendoado
quieta
a vida permeia
a ternura em meio a dança
bailarina vestida de aragens
nos lábios fogo carmesim
espera quieta espera
as nuvens redefinirem o mundo
num mangá feito a nanquim
quieta
a vida flutua nos caminhos louçãos
nas quais se reconhece no vento
e pelo calor que se dissolve no ar
são sete vidas agora
e sete botas de sete léguas
com passos de borzeguim
quando a vida me chamar
com ou sem motivo
com ou sem motivo
percebendo-me lasso
diante do meu cansaço
me dê a vida
o meu fim
por que nada sou
na impermanência
na impermanência
além do desespero
à espreita
da Verdade que há em mim'
sábado, 9 de maio de 2015
Servidão
o homem, atado ao cais do passado,
escutando somente a balburdia que lhe revolve a alma
mas não o impele para a luta e para o novo
se irritando com tanto mistério
plange a derribada do sol de encontro ao mar
vermelho pastoso, sangue venoso
que já não nutre o bulício das estrelas
que não lhe corre nas veias
nem o canto
nem a tinta
instáveis e dispersos
no vazio que rói a existência só há solidão
e incoerentes muralhas de argila cinzelada
e o friável dos sonhos mansamente transidos
no exílio inelutável das veredas e dos rios
rumo ao vermelho viscoso do sol no mar
onde pássaros singulares levam nas asas
a aurora de novos dias
de antigos e imarcesciveis sonhos
a voz da Verdade e da Sabedoria sussurrou
durante a noite o que a alma anseia
desde tempos imemoriais
enquanto as horas corriam lépidas e sonoras
junto com as sombras, devorando tempos
a sombra, nascida da luz, esteve em toda parte,
nem dormiu
pela manhã,
flores brotando no jardim
flores abertas
traçadas no espaço
pelos esquadros e compassos da Vida
ardente e ardendo
desenhadas com coloridos nanquins
vestindo cores e encantos
flores caídas sendo o começo no fim
morre o cansaço da flor
e o mistério, sereno, transforma-a em alimento
para a outra flor que vai vir
ébrio de si lá vai o homem arrancado ao barro
sombra fosca sem rumo
sonho usurpado
lhe fazem crer que não é o que é
que a sorte nem lhe viu e nem lhe vê
lhe fazem crer que foi sempre assim
que a luta é coisa vã e sublevação
lá vai o homem tão docemente triste
tão docemente nada
tão docemente servo e servil
na carteira um fotografia 3X4 amarelada
de um homem que fisicamente mudou
mas que internamente ainda guarda os sonhos da infância
momento a momento das lutas que não lutou
o coração diz palavras de um passado que ainda não passou
o homem cego de si anda em linha reta
para uma morte concreta floreada de frustrações
sombrio
quieto
andar de poeta
pintor
músico
jardineiro
escritor
ator
o que o seu ser,
sua essência diz que ele é
menos isto que lhe disseram ser
e que ele acreditou
com seu sonho embaixo do braço
embalado no jornal do mês passado
passos perdidos na Vida que não acontece
Vede o homem
rastejando sua docilidade impudente em degredo
sempre um passo antes da porta aberta e seu vigia
sempre uma agonia antes do mar e do golpe rude do vento
sempre a mesma letargia em frente aos senhores
e aos mistérios dos jardins que esplendem tontos de aves
nunca a pressentida alegria silenciosa das borboletas,
que morrem como morrem os pensamentos
de liberdade e vocação e evocação
moídos pela engrenagem azeitada e exata
que rói o homem arrancado ao barro
parece que pra ser ninguém
na tarde que poderia ter seu nome
e não a do infame embuste frio e arrivista
antes que a flor, também, seja roída inopinadamente
de ambos fica a semente e a essência divina que não se corrói
nem se destrói nas teias da consumação
no caminho, o vento passa sozinho
contando histórias de antigamente
de barcos
de reis
e de réus
do sussurro das folhagens
que o outono derrubou
das águas poéticas do lago
onde ondinhas veem bater às bordas
do enfretamento com os galhos
da espera das cigarras
do canto morno e terno das primeiras horas do dia
servo entre os servos
atado ao passado
e à crença introjetada da
subserviência
numa submissão calada
lá vai o homem
mudo e sozinho
olhos postos e a serviço
dos vermes no chão
sem que se pergunte de per si o porquê?
descendo os degraus do tempo infrangível
aviltado por todos e,
principalmente,
pela memória caustica
que o impele contra as paredes de si mesmo
onde o homem nem começa
e já termina
sem saber que nunca foi
sem saber que poderia ter sido
mais que ruína
ruminando impropérios
e o visceral medo do final dos seus dias
sexta-feira, 8 de maio de 2015
O barco, o vento e o mar
vês o barco
que atravessa
o solitário mar
levado pelos ventos em fuga
acossado pelo tempo infrangível
e que nas sendas
de setembro
acompanha
a migração das aves
neste final de inverno?
ela olhou para mim,
olhos de madrugada dormindo,
e disse que via
ela disse que via o barco
e completou:
dizes, se sabes,
onde começa o barco?
e o mar?
onde começa o mar?
onde começa o vento?
disse-lhe, então:
sem que te apercebas
o Demiurgo que há em ti
risca na areia
com gravetos cortados à noite
o esboço daquilo que vem a ser
traça arabescos
em papiros surreais
dobra origamis nas quimeras dos papéis,
no silêncio do sopro primordial
concebe formas
dá-lhes existência
dá-lhes um nome
e compõe haicais onde
a ideia e o devir do barco
do mar
e do vento afloram
em essência
e é dentro de ti
somente dentro de ti
que o barco
o mar
e o vento começam
indelevelmente
na estesia da tua alma
fora de ti nada há
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