sábado, 10 de março de 2012

Ania

Te encontrar
Entre tantas palavras de acalanto
Neste silêncio negro do meu teclado
Do teu segredo
Espiando teus olhos
Como quem olha o céu procurando a lua
E só acha uma estrela tão brilhante
Como devem ser os olhos de Ania
E pressente dentro da noite
Estrelinhas quebradiças dançando na sua rua
Quem é
Ania?
A voz do anjo que me fala as coisas mais bonitas
As coisas encantadas
A pipilar no coração da gente
Meu dia te procurou
O mais desnudo dos meus dias te procurou
Vertendo luzes andarilhas
Nos caminhos que desconheço
Revirando flores
Enovelando ventos
Interpretando os suspiros que corriam para o mar
verde azul demorado
Olhando as frestas das portas entreabertas
Por estas mãos macias a escutar
E a apagar os meus passos malbaratados
Sem métrica
Sem rima
Poemas inacabados
Poemas mortos
Olhos de um anjo dormindo no teu sonho
A triste sina de ser poeta
E não encontrar a palavra que se escreve com a tule das nuvens
Não encontrar o gesto entre o nevoeiro na noite funda e sozinha
Na noite que abraça o mundo
E faz os girassóis dormirem em teu quarto, Ania
Não te encontrei neste luar antigo
Nem nesta noite menina
Criança
Que cresceu, escura, em volta destas estrelinhas tirante à azuis
Acho que tu te pareces com as cantigas de ninar
Canta, Ania, uma cantiga pra mim
Só pra eu confirmar, quase adormecido,
que é tua a voz que me põe a dormir todas as noites
cantando lendas de príncipes e princesas do reino das poesias falantes
Ania, tuas palavras me entrelaçaram
Fitas azuis e calmas
Felizes
Como este teu jeito encantador de dizer que sou poeta
Poeta...
Folheio tuas palavras,
Releio
Procuro um sentido
Uma finalidade
Poeta...
O que será que você quis dizer com isto?
Poeta é azul
Como as fitas calmas
Assim como são rubros e doces os teus lábios, Ania

(...)

A noite tem som de folhas secas
Já há estrelas a fremir de sono
A lua, idolente, diz poesias a perambular

(...)

Que bom, Ania,
que você veio.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Eternamente

Eternamente
é
ter
na
mente
o amor
que acordou nas madrugadas
nas noites de ausência
nas noites de espera
que foi passando
acariciando
meu coração
pelos tempos
atemporais
pelos instantes
inexoráveis
carícia
como
recordar o ar dançando
num jardim tranqüilo
enquanto um passarinho
toma banho de  poeira
na tarde que recita as frases
de amor ainda não ditas
vogais adormecidas
canções solúveis
perfumando
o jardim
com
a hora
de chegares
como
o mimo
de um dia
te ler num poema
onde uma palavra  miúda
te faz surgir por inteira
como um dia
solto no tempo
marcado
para
te
encontrar
e te
amar
e eu nunca estou
quando o amor vem
e, então, fica esta saudade
de mim
e de ninguém
uma saudade
eterna
mente
terna
mente
eternamente
é terna
como um poema livre
brincando com palavras
prestes a desabar
e
ter
na
mente
e acabar

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toada do amanhecer

Segue pela aléia de tílias marchetadas
entoa tua voz
para que ela polvilhe
a neblina espessa do antigo espelho
solitário
avivando as imagens dos poemas no devir
Espera a tarde que zumbe
as cores delirantes do crepúsculo
como um sol tombado
morrendo sob o manto da noite
amarrado aos passos ébrios
do dia que escorre pelas vidraças como um regato
úmido de brancos e carmins
Segue teu caminho de pedras laceradas pela aspereza dos teus nãos
Abranda teu olhar no amor
no grito da vida
na canção flamante da ternura
Acalenta a lua semeando o momento anterior
erguendo-se antiga sobre a vida ressequida
num céu de nuvens rotas
descosidas
Amealha para ti os astros da noite que te velam à beira do caminho
Acolhe a solidão imanente das estrelas
e seus mistérios cintilantes
e seus prantos lívidos
coruscando seus olhinhos silenciosos e profundos sobre ti
Cria teus mundos como se ainda fosses o anjo cálido que habita o teu coração
Segue o sonho que a tua poesia te sugere
assim como um girassol curva-se e segue a luz que o anima
E, então, a aurora dissolverá os véus da noite
que se desmanchará
apertando contra o peito o renascer da Eternidade
sem se ver
olhos fechados
jardim de estrelas tiritantes
réstias de luzes entregando-se ao azul do dia
sideral
oirado pelas luzes da manhã
acordando os nenúfares
sussurrando o vosso olhar
bebendo a escuridão nostálgica
tateando o perfume dos sândalos
entre os afrescos do dia que amanhece
sem gestos e sem palavras
alheio ao vosso espanto
ou a vossa indiferença
o dia
simplesmente acontece
junto com a brisa rubra soprando barcarolas
e o pé marcando contente
o ritmo do dia que amanhece
na vida que vai passando (sozinha)

terça-feira, 6 de março de 2012

Grano salis

Quando vieres da argila
e te puseres a vagar no mundo
em eterna fuga
olhos fechados
pelo níveo medo
coberto com os véus do silêncio
que se arroja em teu peito
véus que perpassam
o poente e a estrela
ecoando estranhos sons vazios
ouve a voz que te feriu
Semeia teu campo de
Amor
Sonho
Liberdade
e o infinito de tudo o mais
que pressentistes
O que procuras fora de ti
ó, homem?
se os passos do teu irmão
se as flores
as águas
os pássaros
os jardins repletos de luz
o céu
as estrelas
tua morte
são como tua Alma os vê
Contempla a vida
os enigmas e seus fantoches
encobertos pelo destino
embriagado
em esplêndidos vaticínios
Pousa teus olhos encarcerados
na fronte esguia do sol
que volteia as sombras do dia
e, junto com ele, arranca o vermelho
às baionetas e aos báculos
e faz de ti
a forja de um novo amor
que soa, ardente,
como o crepitar mudo
da Noite desnuda
sobre o peito da manhã

domingo, 4 de março de 2012

Indistinto

A tarde
Nem existia
Dentro dos dias escuros
Só havia laivos de claridade
Dentro do sortilégio das palavras escusas
Perplexas
Engolindo a luz
E o homem
Sem cores para acordar o dia
Procura entre o chão e a lua (que não via)
A sombra
Mesmo que diminuta
Dos dos sons que, em volta, ouvia
Quem é este homem
Que tateia
Em busca da lucidez?
As mãos molhadas pelas lágrimas
Na noite eterna
Que a ignorância fez
Quem é este homem que
Tateia despedaçando
O negro poço mudo?
Tateia só o medo
Dilacerado das guerras
Tateia somente o aço
De fio indistinto e sombrio
E só se apercebe
Do reflexo de si mesmo
Esquecimento 
E nostalgia
Correm rios
Esplendem flores
Voam pássaros 
Na tua noite
E não os verás
Não há olhos antigos,
Piedade,
Compaixão
Só vagos ruidos na escuridão
Em meio à noite caligem
Não há sorte
Somente o pranto
Dormitando triste
Em seus olhos de bronze
Em algum lugar fora da noite
Crepitam, trêmulas,
As chamas de um fogo
Ecoam
Ternura e vida
A brincarem
Nas espumas castas e surdas
Do dia que não veio

sábado, 3 de março de 2012

Soluços

Amiga,
talvez a minha voz
não te diga os poemas
que já não amanhecerão
ou se calarão mergulhados em suas próprias sílabas
borboletas voando nos espelhos das manhãs
sílfide dos dias etéreos flutuando na luz do mar
Talvez o tempo não traga palavras nos lábios
talvez o tempo seja só emoção
tremelicando na noite estrelada de um verão esvoaçante
ardem os céus em seus sonhos absortos
os sonhos não seriam os poemas do lado de dentro da noite das muralhas?
Amiga minha,
vê que agora já me visto de passados
e os próprios gestos são o rosto da solidão?
vê que te trago o pássaro de sangue e de plumagem febril
e que meus olhos aguardam pelo teu silêncio?
A intensidade das mãos atravessa a memória da palavra acre
que se esconde no temor molhado da boca
A palavra incandescente
através da qual a escuridão modula a harmonia precária da vida
a harmonia dos dias úmidos
réstias de sonhos
recendendo à tardes de domingo
à lua que atravessou a rua
deixando no destino um soluço
deixando no amar o repetitivo impossível
e a certeza da triste dor de viver
Vê, amiga minha,
que falo de dor como quem desentende o sentido das palavras
roubando de mim um tempo de ser feliz?
E a tarde toda passo assim:
perguntas esguias e vorazes
buscando um sentido em tudo à minha volta
esquecendo o ruído oco dentro de mim
Tenho medo de esquecer o caminho sincopado
assim como quem ama esquece
a vontade de ser mais
e os rituais dos dias
perpetuamente
calcinados
pelo amor

quinta-feira, 1 de março de 2012

Caminhante


"Caminante, no hay camino,
  se hace camino al andar"
      (Antonio Machado)

Caminhante, não há caminhos de terra
que os teus passos possam andar
Não há caminhos na noite inabalável
que os teus passos cansados
pisando a finitude do mar
pisando em sóis e estrelas
pisando a seiva que fez a tua dor e os teus medos
possam num assomo alcançar
Os cães ladram à proximidade dos teus passos
augúrios esquecidos no ar confundido
aos ventos da manhã ardendo
Lá fora o dia
nasce dessedento
e já inicia a morrer
Caminhante, o caminho se faz de mansinho
ao pé da sabedoria imanente
da velhice
que os teus passos te deram
na cadência da terra firme e dura
das estradas gentis que passastes
Claras nascentes
rios escuros
Alguém ouviu os teus passos nas águas
e retornou
silêncio no peito esboroado
as mãos tateando o ar da tarde antiga e sossegada
que os ventos ouviam
singelos
sementes do rumor do hálito dos rios
Aquele que ouviu teus passos nas águas espera
tocado pela cegueira
dos olhos fechados ao silêncio
das ruas ocres e vagarosas
Caminhante, não há caminho
só há teus passos na miragem da estrada que surge em frente
e que um dia se apagarão
Ouve?
Ouve as imagens do passado?
É a voz do Tempo
bricando com as areias que pisas
e com a memória
dos teus passos que escorrem pelas sendas das ilusões