
domingo, 4 de março de 2018
O que eu fui dorme nos tempos
o que eu fui dorme nos tempos,
sem respostas,
espera no instante despojado e entristecido que me olha longamente
e tem a minha alma naufragada em sensações
na sucessão de sombras
e gestos
e medos
que os olhos escuros da noite traz
no silêncio incriado dos cansaços
no acalanto e na solidão de tantos braços
na vida sedenta
gritando renúncias
neste momento de ausência e de prenúncios
nestes dias insaciáveis e transitórios
lentamente intermináveis
de intocados silêncios quebradiços
e macerados pelo labirinto do tempo machucado
e pela melancolia devoluta e intocada
que ressuma as memórias dos meus dias
de repente
sábado, 9 de dezembro de 2017
Enquanto aprendo a morrer
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
pensamento
eterna memória
passado
o grito na margem abandonado
o enredo ou soluço das naus sucumbidas
a luz acendendo o porto na tarde devagar
o silêncio e a sombra amoldável
tudo sufocado
sendo só
sendo só
enquanto se aprende a morrer
com o limo verde dos rios
com o gesto noturno da flor desfeita na espera
com a canção doída do mar a solfejar nos rochedos
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
nuanças e sussurros das águas mastigadas
ah! se houvesse a noite inconsolável
o prelúdio do lamento de tudo que não esqueci
a tarde incendiada
pelos perfis amarelos e ardorosos dos girassóis
a lua nova num céu intrínseco e túrgido
o ritmo suave dos meus versos intocados
lembranças de quando eu era criança
as mudas inquietudes das noites tocando em mim
o choro e o soluço sufocante
os seios róseos de Pingo
duas rimas de poesia
me ensinando a morrer
dois versos a cada dia
ah! se houvesse a noite inconsolável
e depois do rumor da noite a morte se fazendo
redimida e arfante
quando eu aprender a morrer
e de tanta melancolia
a morte se faria
nua e vã
como se faz poesia
rascunho escrito no cerne da areia
palavras atravessando o destino
esperando o momento dilatado
do sonho do sonho de ser menino
desenhado no espelho
cubo de vento
caminhos gélidos de fogo
e segredos
estou só
nesta vida emprestada
o tempo passou
e o que é de meu é coisa alguma
é a trapaça do tempo dizendo nada
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Amor e poesia
sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
suavemente
inventa as asas brancas do dia
faz-se as ilusões das noites encantadas
por onde caminham os meus passos
silentes
e esquecidos
rumo aos teus braços nus
e indefinidos
sonho contigo
e a vida se faz
amor e poesia
por onde olham os meus olhos
no doído segredo da tua ausência
inacabada e premente
em tempos indevassáveis
em sonhos acordados
momentos inelutáveis
efêmeros
como todo sonho que inventa
e embebeda nas horas das noites
atentas
vígis
trementes
os brandos poemas
reinos sem rei
poemas sem rimas
e que o amor seja só poesia
quando eu estiver só
junto ao mar
amor
junto ao mar
junto à sombra perecível
e vermelha da rosa
na qual me envolvo e me perco
e me pego, assim, encantado
a sonhar contigo
a vida tecendo gritos
coloridos de paixão
nas madrugadas de amor,
eternidades,
teu corpo, poema na minha mão
Imagem: Clovis Graciano
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Chove sobre os lirios
não a chuva que chovia
sobre tudo
sobre os círculos concêntricos
dos mamilos dos teus seios
sobre as ígneas gaiolas
dos pássaros abertos da tua infância
entoando no telhado
um som complacente e ritmado dos pingos
que vazavam sobre as bordas dos telhados
hoje a chuva não escorre em prantos
pelos caminhos incandescentes dos telhados acesos
não deixa no ar o olor ameno e quente
da terra molhada
não molha minhas mãos
enquanto em barro me multiplico
e me repito na angustia de ser a mesma sombra,
a mesma mágoa
não molha os canteiros exauridos
não toca as cúmplices flores e seus tempos incertos
nem cria tramas e cores indevassáveis
onde vicejava a eternidade
onde plasmavam-se sonhos
e estrelas
acordando as vozes
com as quais ainda teço e digo teu nome
confessando a ambivalência das madrugadas
domingo, 29 de outubro de 2017
Vai
vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim
deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Nada
nada
é tão negro quanto o negro inatingível dos teus olhos
e esta sensação de encantamento que reverbera
pelo tempo efêmero e sincopado
do caminho todo escuro e contemplativo
quando olho no teu olhar
e, então, a densa noite nos teus olhos dança
e, coleante, põe-me a sonhar
domingo, 22 de outubro de 2017
Miséria e fome
viestes nos procurar
a mim e a este cão que atende pelo nome de Fome
trouxestes alento para as nossas lágrimas
trouxestes o cântaro cheio da Tua Verdade
e da Tua comiseração
da latência das Tuas palavras
inventa-se a paciência e/ou o desespero
escorrem os momentos para o fim
e o fim é a catedral onde a neblina apagará os círios
que consomem os dias e as noites
inelutavelmente
o homem deglutindo a fome
o cão salivando a fome
a criança aprendendo a fome
subsistem por imposição da vida
crianças faminta arrostando a vida
crianças no lixão mimetizando-se com os urubus
crianças carcomidas pela estultice dos discursos vãos
crianças apedrejadas pelo egoísmo inaudito
crianças pedindo nos semáforos
crianças na prostituição
Dizei, Oh! Senhores,
chefes das nações que sendo várias deveriam ser uma
que almoçam e que jantam e arrotam e jogam o sobejo fora
o campo semeado e a colheita são insuficientes?
a semente, se mente e não vinga e se vinga e se morre?
a miséria é algo tão distante, insólito e obscuro
sem direito sequer a um osso para o cão,
a um pão duro para o dono?
um dia, sentados diante da emoção incomensurável da mansidão de uma aurora
molhada pelo sereno que o vento traz e acordados pelo sussurro dos deuses,
olhando para o que acumulamos,
um dia pressentiremos (será)
que morrer de fome, na miséria é a quinta-essência da indiferença
açodando os círios acesos para que se apaguem mais celeremente todos os dias
sem atentar que tudo que é é eternidade
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