
terça-feira, 13 de novembro de 2018
Madrugada
acordei em meio à noite
tenho medo
chora lá fora a madrugada
não sei bem o que fazer
está tão desamparada
longe o dia por nascer
vou cantar pra madrugada
até ela adormecer
domingo, 11 de novembro de 2018
A vida
a vida apreendo ao atirar a pedra
estilhaçando a luz do sol
vendo o escuro que a noite medra
vendo a cor vermelha do arrebol
vendo o poema que escorre
como o canto que morre
no mais escuro de mim
escorre sem não ter fim
a vida apreendo imerso nesta ingente solidão
quando a noite faz-se outro dia
das areias da escuridão
numa infindável alegoria
como se o sol em seu trono
acordasse de um longo sono
dissolvendo a mais densa madrugada
onde uma gaivota passa voando para o nada
a vida apreendo numa ignota solidão
como se tudo estivesse fugindo
como se tudo dissesse não
para um tempo que vai sumindo
escoando num antigo labirinto
é tão antigo tudo que sinto
tão antiga minha emoção
somente é mais antigo o meu roto coração
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Preciso te dizer
preciso te dizer da manhã que nasce em tons de laranja
por detrás dos morros verdes
o céu cinza escorre em sombras
por sobre os jardins bebendo as sedes
por sobre o povo que caminha ao longe
seus passos soluçantes e sangrando
seguidos pela própria sombra
atirada contra o nevoeiro
preciso te dizer dos pássaros que passam em voo leve
parecem tão livres
mas tu sabes
a noite ainda dorme dentro de mim
meus olhos embaraçam-se ao dia
dizem brisas transparentes
sonham versos
respiram fantasia
preciso te dizer da minha melancolia
para que saibas que cada palavra tem seu rumor
cada palavra tem sua dor
ou seu riso
e correm sôfregas do sentimento à mão
impiedosas com um rio que se vai
por não poder ficar
preciso te dizer do sonho procurando um grão de areia
para dormir
para que saibas
da impossibilidade do silêncio
que não há
nunca existiu
e do segredo
contido nas palavras ouvidas na madrugada
hesitante e álgida
preciso te dizer da solidão flutuando na cidade
na areia branca das praias
nas esquinas
nos meus olhos povoados de neve
e de uma lágrima
que não cai por ser tão leve
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Cativos mundos
sou vulcão de lábios roxos
por vezes lago silente
o vento sibila premente
como o piar escuro dos mochos
lágrima que ainda vai nascer
nos olhos cinzas da neblina
o tempo passa mofina
carregando o anoitecer
trazendo de cativos mundos
os olhos negros das flores
o aroma rosa de amores
amores, os mais profundos
O vento sibila segredos
o vento sibila segredos
esconsas memórias
neste inverno infrangível
a bruma ingente da manhã
cobre a vida de mistérios
enche o dia de degredos
medos
o dia teima em ser escuro
modorrando sua luz
por detrás do muro
onde verdes ramos brotam
alheios à insone espera
meus olhos
que já não sabem chorar
as lágrimas dessentidas
secas em meu rosto
são dois sóis mansos
caminhando para a tarde
no crepúsculo que vem do mar
trazendo histórias soltas
que apanhou em terras muito distantes
no silêncio de algum lugar
domingo, 2 de setembro de 2018
A casa dorme
a casa dorme
a madrugada
caminhando para o dia
é fria
a mulher dorme
confessando sua meiguice
o filho dorme em seu quarto
confessando sua presença
dormem os teus olhos
dentro do meu olhar
confessando todos os teus segredos
os barcos dormem
na tessitura das águas insontes
pássaros passam
levando sossegos e estrelas
dizendo nostalgias
a noite dança lá fora
por sob o céu e os penhascos
as sombras perfumam os copos dos lírios
a lua passa
por entre os seios da mulher sozinha
eu me inquieto
buscando-me no pânico da noite
sopram os ventos
a canção encontra lembranças
encanta sonhos e momentos
na madrugada em meu peito
tudo é abandono e silêncio
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Enternece
escorrendo pela janela
a luz devoluta e intocada,
morosa,
levantando-se da noite onividente
rompendo o escuro do mundo inocultável
lançando instantes
sombras nitentes
e gestos concisos
incendiando o ar frio e surdo do inverno
enternece ouvir os pássaros cantando
na manhã que se levanta retentiva
lentamente
inconclusa
intangível
encharcando o ar repleto de perguntas
enternece ouvir o silêncio dormindo junto ao teu corpo
recitando a madrugada
acalentando a solidão que invento
para os teus olhos escuros
como a noite que saciou o nosso amor
morte desfeita no inconsolável gozo
prelúdio da vida nascida entre as tuas coxas
rumor de pele arfante
o beijo aquietado em teus lábios
o desejo derramado
em tuas mãos espalmadas
enternece ver o amor
dormitando em teus braços nus
poemas sem rimas
reinos sem rei
tecendo eternidades
entrelaçando o cansaço dos amantes
falando sussurros ao teu ouvido
despindo o perfume dos nossos instantes
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