quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Amigos

Os amigos, separados pelo tempo abstrato,
pelos caminhos de argila,
pelos rios e suas pontes ligando a saudade
à impressentida nostagia da ausência
enquanto em todo o céu é primaveras,
relembram estes ínicios de novembros
onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras,
pequeninas flores interropendo
a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado
a encher de presságios a vida e a alma

Girando sobre as folhas soltas do outono
a silhueta do vento derruba a gota de orvalho
e pousa no poema
e cria a lágrima
nos olhos verdes da solidão

O poema nasce assim, sem luz, sem nome
por enquanto somente esta lágrima da solidão
rio sem sementes,
sem momentos,
um sonho que fosse
um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora
estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua
embalam a noite no ar
brotam saudades do chão
e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome

Enquanto os amigos se esperam
Enquanto o vento gira
Enquanto o poema nasce
um pouco de nós fica nesta ausência
gestos,
risos,
vozes
e as mãos cheias de nada

Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza
Fica, apesar de tudo, estes novos poemas
e a janela das Luas Antigas
onde me debruço a olhar a vida e o mundo
com olhos distraídos de artesão de estrelas
e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério

São tantos os momentos que fogem
e calam no gesto de demora das flores
São tantos os momentos de indagação
dos barcos rumo ao porto
São tantos os silêncios,
que quase ninguém ouve
São tantas as esperas
que a areia escorre da mão
fluída como a vida em grão

Os amigos relembram o primeiro segundo,
a última hora de tantos novembros
a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão,
bosque ou jardim,
ausência amorável
como o perfume da rosa
como um dia que amanhece
sob o encanto do dia que o precedeu

A brisa caminha em tempos e sonhos
que a chuva deixou no jardim
insinuando tardes brandas
e paisagens convidando à nostalgia,
abrindo a porta das gaiolas
para que fujamos todos...
um dia

Marulho do mar
O silvo do vento passando pela fresta da janela
Houve um tempo
em que o vento despenteava o meu cabelo
e secava a lágrima que, às vezes, caía
só e silente
como a única verdade de um instante
Na distância, o rumor do vento soprando,
secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim

A vida esquece-se no rio
deixa-se levar
tecendo os fios da urdidura
enquanto nas margens
os amigos se esperam

Esperam o momento dúbio
de um possível reencontro
em outras primaveras onde as flores são abandonos,
outros outonos?
inumeráveis verões,
nas noites estreladas de um inverno
onde as saudades são quentes e ternas
Esperam, os amigos,
assim esperam
cativos de tantos outros dias

E a vida, assim, torna-se indispensável

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