sábado, 18 de outubro de 2014

Flores e alfaias

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde dos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade.
In Poesia.
Rosto Editora - Modo de ler, 2011.



rumores de outubro no céu da noite antiga
o vento passa e com ele
a primavera flana por entre as flores
inadiável, aspiro o perfume da rosa
na respiração da noite,
na brisa inocente
ou nos versos 
onde banho as minhas lágrimas
e queimo o mistério 
que traz a aurora
embora a madrugada
ainda procure e traga, enternecida,
a lua posta no céu para ti

olha que a tarde goteja o verde dos pinhais,
inelutáveis
o poeta deslindou tanta palavra
e tanto signo
e ouviu anjos
e as canções que vinham com as manhãs
e recriou a criação do demiurgo
para ti,
só para ti

de que matéria poderia o poeta criar rosas
e lhes dar perfume
se não da tua meiguice 
do teu corpo desnudo 
e banhado nos sonhos 
que adormecem em teu silêncio

para ti são os ribeiros e a lua
e o dia amanhecendo
entre os ramos e o orvalho
derrubado pelo vento fatigado
de percorrer a noite azul
dando perfume aos roseirais

a última estrela ainda brilha
a cidade suspira dorminhoca e sonolenta
o céu inacabado e sem contornos
aos poucos se revela e sangra lentamente
enquanto a luz vacilante discorre cores
fulvas no crepúsculo da manhã cinza opalescente
o dia espia as sombras se dissolvendo
e se diluindo ante os olhos negros da madrugada
o dia desperta e afaga as flores
com extrema ternura
trinam os pássaros
o mar cintila purpúreo
sob o azul aonde começa o céu
o dia nasce
                  a luz frágil da aurora alumia as rosas
                     é tua a manhã que se deita devagar
                                                    por sobre o mar
 foi pra ti que se fizeram doces os lábios ternos da poesia

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Inquietação

CIDADEZINHA QUALQUER
 
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar
 
Um homem vai devagar
Um burro vai devagar
Devagar... as janelas olham.
 
Eta vida besta, meu Deus
 
 
Carlos Drummond de Andrade.
In Antologia poética.
Editora Record, 2008.
 
 
 
A vida exauria-se indiferente
a ter ou não ter sentido
Sob a luz fraca e amorfa do dia havia este tédio
Havia estas palavras sem ato
Sombras escondidas pelos vãos
O tempo escorrendo pelas mãos
Dia após dia
a vida carecia de liame
e da greda primordial
A vida era um cansaço só
O vento era um cansaço só
A chuva caminhava desfazendo o barro,
deixando um perfume doce
de ausência
e de um insonte desespero
A dor que erra e me perde
em meio ao arrastar do dia
carreava figuras tão nobres,
na lama empapada das poças
e nos claustros onde se arredam
os passos vários da infância
e este silêncio tão comovido,
irreversível e inadiável
Resta da lama esta escória
de viventes cansados e indigentes,
tão pobres,
para o indecifrável mistério desta vida vazia
Ainda que a existência
seja toda graça e expiação
ouve-me, Senhor,
eis que sou,
todo mágoa em meu coração
Ouve-me,
que a sombra do silêncio
projeta-se sobre o cotidiano frangível
e sobre toda esta vida besta derruída de significação


Sentimentos insontes

ARTE-FINAL
 
Não basta um grande amor
para fazer poemas
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
 
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
 
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
 
- quem toma uma por outra
confunde e mente.
 
Affonso Romano de Sant'Anna.
In Que país é este?
Rocco, 2010.
 
********************************************************* 
Entre a letra e o amor
Entre o amor e o ato
Entre a pele e o tato
Entre o ritmo e a rima
Ficou tanto sentimento
no carinho e no sonho que não acorda,
no segredo que não se esconde,
mas se sente neste gosto de ternura
                                   que não se acaba
                                   e mais se apura
Ficou em um nome da infância
Ficou nos intervalos de um tempo,
                                       beijos inquietos,
                                       revolvendo a memória, amiúde
Ficou nos momentos e tardes...
a música tocando num rádio
esperando os meus lábios dizerem poesias aos teus,
esperando que as nossas mãos escrevam os poemas
aos quais um grande amor não baste
E tudo em ti foi carícia
e todos teus foram os meus instantes
Foi tua a música tocando no rádio
num tempo em que amar era o silêncio dos dedos
deslizando nas tuas costas,
era o gesto de abrir as manhãs (tímidas),
como são as manhãs ao despertar
Ficou do amor esta sensação inexprimível
de uma atemporal eternidade
Ficou do (no) amor teus olhos negros
como a canção das noites,
como o verso espontâneo das noites
                                          entrelaçado aos teus braços
Alguém poderá dizer: De tanto amor ficou tão pouco!
Pode ser...
Pode ser que seja pouco
Mas este pouco é tudo e é tanto que continua existindo
"Não basta um grande amor
para fazer poemas,"
nem basta um grande amor para dizer segredos e saudades,
para ouvir a pausa e o silêncio dos corpos insontes,
mas basta um pequeno poema feito para um amor
que se enrodilha no nosso colo
para que o tempo viva para sempre
e me procure
num mundo de faz de conta
onde teu cheiro e teu gosto
misto de suor saliva e chiclete
espalham nas noites estes momentos
enquanto o tempo passava lento distante
sem dizer palavra ou verso
sem buscar a rima negra que teus olhos pedem
para que eu fizesse um poema, sujo que fosse,
poema que mesmo diante de tão grande amor
eu não sei fazer
No céu as nuvens caminham nos ventos,
nuas de águas e inúteis tempos,
propondo enigmas,
elucubrando ilusões
do que a vida foi sem ter sido

sábado, 11 de outubro de 2014

Tenho medo e invento...



há sempre um dia em que não se morre
porque morrer seria redundância
e reduzida à sua essência mais secreta
a vida continua pulsando porque seria
mais difícil estanca-la que continuar
assim, a seco, coração anoitecido
pela sombra e a soma de todos os desencantos,
[sem rumo algum pelo/sem sentido de todas as coisas]*
 
há sempre um dia em que se tem vontade
de expor aos passantes a chaga aberta,
como os mendigos expõem feridas nas calçadas,
chapéu ao lado, para que nos joguem moedas,
olhares de pena, desprezo ou simplesmente nojo
mas tão difícil mostrar as cicatrizes quando a vida
foi ensinando, lenta, o jogo necessário de escondê-las.
 
há sempre um dia em que  nos perguntamos
fui eu quem me fez assim ou me fizeram?
e a resposta importa pouco, importa nada;
seja qual for, não voltará jamais o que perdeste
em alguma esquina do caminho, não sabes onde,
não sabemos como, e mesmo o choro então é pouco para
[tua dor
E ainda que compres rosas ou vás ao cinema ou cantes
uma canção qualquer, o que persiste é a morte
com seu roteiro de vermes e distâncias.
 
no dia seguinte ao dia em que não morremos,
iniciados na tarefa de tecer o inútil
trocamos os lençóis, lavamos o rosto, arrumamos a casa e
partimos para a rua
sem que ninguém perceba o epitáfio sobre a fronte.
 
*No original constam as duas possibilidades
 
Caio Fernando Abreu.
In Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu.
Record, 2012.
 
*************
Tenho medo e... 


invento este silêncio tonitruante,
indecifrável imaginário
Invento horas e dias me manietando à prisão
Invento o escuro da noite
para o sono dos meus olhos cansados
Invento janelas oblongas e vazias
sem floreiras nem beirais,
sem paisagens ao longe
Invento jardins sem flores
Invento flores sem cores,
sem perfume,
a flor cheirando a estrume
Invento a sede de respostas,
por pequenas que sejam,
mas que sejam verdadeiras
Invento a rede
para embalar um poema
Invento a tarde
esconsa pelas sombras
que se deitam pelos cantos
Invento um céu sem estrelas
Invento estrelas sem céu
Invento o vento passando,
derrubando meu chapéu
Invento um mar origami
para os meus barcos de papel
Invento um sol álgido e escuro
Invento a lua pardacenta e fatal
Invento a sombra subindo pelo muro
Para que peses e ponderes
invento o bem e o mal
Invento a pedra sensível
Invento a dor autofágica
e palatável
Invento a culpa,
o grito
Invento um Deus arrivista
Invento o papa anarquista,
meio proteu,
meio artista
Invento o tempo macambúzio
Invento olhos vazados para não ver
Invento a fome e o dente
para mastigar lentamente
os restos que caem das mesas
Invento a dúvida
e desdigo tantas certezas
Invento esta côdea mendiga e mofada
Invento a personagem que vos fala
sem dizer nada
que vos toca,
que vos mente,
tão vil e sinceramente
A personagem indolente,
imarcescível,
demente
Em contra partida
a vida me inventa incognoscível,
maniqueísta,
dual,
entre o claro e o escuro,
sem lastro sem porto seguro,
entre a sombra e a luz,
infame
A vida e suas garras de pus,
A vida rampeira,
indecente,
traz consigo este gosto afogado de mar,
esta razia de opostos
traz o inferno sulfúreo
e sob a névoa a euforia bipolar

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Fragmentos

Gazel fluviante
 
Enquanto dormes, fico a contar
as cores do teu rosto, o fluvial
corpo levíssimo no sono, chilreando
as pernas verdejantes, fogo,fogo
que vai plantando o inverno. Enquanto
dormes, fico a discorrer as falas
da tua imóvel boca. Cabisbaixos
os pés apenas tocam, os lençóis,
e a alma toda, um corpo, somos nós.
 
Carlos Nejar.
In Poesia reunida II, jovem eternidade.
Novo Século, 2009.

 
 
Enquanto dormes dedilho as cordas do teu sonho
ressoando junto ao que em mim falta de ti,
junto à espera e às mãos em silêncio
cúmplices anônimas das florações
que dão cores ao dia,
dão perfume à flor que brota nos jardins desta vida compassada
e voz ao canto alegre das crianças
Dão ao dia vislumbres de eternidade
e recriam a aurora consoante a face de ébano da madrugada,
e a ternura imanente ao gesto intangível 
que transforma o teu nome
na ilusão indelével e ausente que ficou
meigamente enternecida no pouco que sei de mim
Foi tanto medo
e um inverno de cores densas
O amor que suplicava à noite que não se fosse
e suavemente sentia o sopro da brisa da manhã bruxuleando a luz das estrelas
Teu nome que a brisa sussurrava entre as acácias e os instantes tímidos do dia
E que os meus lábios espreitavam
sem se atreverem a dize-lo
posto que tudo foi fantasia
Fantasia o que não teve fim,
fantasia o que sempre foi noite
resvalando das inconsúteis lembranças que se derramaram de jarros antigos, 
entre verdades e mentiras
e tantos véus turvando a visão e esboroando sonhos
 
Amanhece, e as boninas ousam ser
mais amarelas e vermelhas
do que o sol que se alça de chama em chama
aos teus suspiros, somente 
A noite desperta cansada de ser escura, e se esconde,
enquanto a luz da manhã flutua
inocente em teus cabelos
e brinca travessa com a eternidade fugaz da manhã azul,
efêmera e diáfana
Bela, quando ao passar lá fora faz caminhar as sombras
e girar os girassóis

Amanhece,
e o dia vai deslindando-se pouco a pouquinho
Intemente, rabisca o crepúsculo
sangrando o sol,
avermelhando o mar,
rolando os seixos,
suspirando alcovas,
arrastando folhas magoadas pelo ar,
enquanto o orvalho soluça deslizando nas folhas geladas e quietas
e a vida espera em silêncio um linimento para o "nonsense" da existência,

O poeta, com sua alma ébria e antiga,
escreve verdades e mentiras e cata cacos e fragmentos de solidão,
pespega estórias banais
e se reconhece
nas merencórias e mal traçadas linhas
de extraviadas e esquecidas cartas de amor,
naquilo que o amor, redivivo, chamou de sonho,
naquilo que a vida, diletantemente, chamou de dor

domingo, 5 de outubro de 2014

O tempo está morto

Passou o tempo
Passei eu
Passamos todos nós
Passaram as árvores na estrada
que vai de lugar nenhum a nada
Passaram as minhas estórias nas noites que dormem nos livros,
na folha seca amarela-dourada do outono à espera das borboletas,
na folha cônsona ao sono,
na insidiosa e consabida agonia
Passou o aroma da flor na brisa azul da razia fria do dia
Passaram as cores do dia nas flores da cerejeira
Passou a essência do sândalo
nos lençóis postos de lado com os pés,
carinhos esquecidos sob fronhas de linho e organdi,
sussurros murmurados tão docemente,
miragens de um amor que já não comove
Passaram as pedras seculares dos caminhos,
das torres açodando os céus
que amanheciam entre a neblina e as gotas de orvalho
solitárias caindo com o vento no chão da manhã
Passaremos muitas vezes, sondando o que veio antes,
prenunciando a ilusão do futuro,
e nos perderemos ao nos percebermos sozinhos,
inelutavelmente sozinhos,
tentando descobrir da onde vimos
para onde vamos
Aonde estão as arcádias para nossa moradia?
Passou a vida,
pequena demais,
fugaz demais,
frívola demais
A caliça da existência pretensamente eterna,
incomensuravelmente friável
Passou o tempo,
criando séculos, histórias e estórias,
a adaga esquecida da memória
O tempo exaurido e asceta tartamudeia preces
aos Deuses silentes
criando e recriando pétreos mundos,
eis que basta o pó para que haja estrelas e planetas
e galáxias tão distantes para aonde irei pra me encontrar,
como o filho e a dor do filho ausente que um dia volta ao lar
O tempo avaro manquadra sobre o que te digo sem saber,
sobre o poeta que não sou,
conciso,
esboroado,
ausente e deposto
Lavo com as lágrimas o meu rosto
e rego a flor da melancolia
O tempo não passou...
                                   ...o tempo está morto
Donde vem esta agonia?

domingo, 28 de setembro de 2014

Hora de ir embora

Na tarde morna e languida
sob um céu vermelho que transpassa
os jardins
a flor floresce
na praça
distraída de quem passa

O dia caminha para a ilusão do fim
Aperto o passo para que o fim
(ilusório e atemporal)
não chegue antes de mim
ao destino fatal
que desconheço

Entro em casa deixando as reentrâncias
da vida lá fora onde o mar marulha
Refugio-me na ilha dentro da ilha
Refugio-me nos meus livros
Meus livros
eu os abro como cortinas de teatro
Sinto-lhes o cheiro inefável do papiro impresso
Sinto a maciez da sua alma branca
Alumbro a minha alma no que eles têm pra me dizer
Ouço-os,
arrebatado por este ajuntamento de "as" e "os"
e arrasto meus dedos pelas páginas,
meus olhos indagam o porquê da lágrima
e a palavra me encanta, me enternece,
abre chagas, me revolta o coração
Me calo, sou solidão

Amadurece a noite na ilha
prelibando os sonhos que nos séculos aguardam por mim
Uma mariposa se debate na tela da tv,
fascinada pela luz,
cansada de procurar a janela por onde entrou,
mas impendente ao fascínio da luz,
presa ao engano da luz,
morrerá supondo que só a luz é caminho
e ignorando a escura e múltipla liberdade lá fora

Enquanto a noite amadurece,
enquanto à sorrelfa a lua acontece
o eco e a estesia delirante das palavras
lembrando um melancólico blues me traz
dois ou três amores inenarráveis,
o beijo terno e longo,
o cárcere de uns olhos negros,
a música vindo de um rádio,
e um amor de menino que era a minha achação

E vou caminhando caminhos solertes,
hora lento,
hora célere
Por vezes altivo e garboso,
por vezes olhos no chão
olhando de soslaio a miséria
enquanto dilacero meu pão
E quando menos se espera
sem aviso, pressentimento ou demora
já é hora de ir embora

Os dias caminham para a ilusão do fim
Aperto o passo para que o fim
(ilusório e atemporal)
não chegue antes de mim
ao destino fatal
que desconheço:
quando eu nasci
nasceu o dia comigo
quando eu morrer
anoiteço