domingo, 30 de novembro de 2014

Espiral

Não tenho tantas certezas
Tão pouco tantas verdades
Não tenho dogmas
ou doutrinas
que não possa tremer de encanto,
espanto e medo
diante da inexorabilidade da morte,
diante da imponderabilidade da vida
Por onde é que se começa a destrinchar e mastigar a vida?
Em que ponto do banquete se começa a deglutir a morte?
nesta festa de canibais embriagados e ególatras
onde brincamos de deuses descrentes, padecentes, quem sabe?
A morte fusionando a vida,
consumindo a vida irresoluta,
atada a um fio de esperança
e um novelo de solidão
E ninguém vê
Todo mundo quer ir por céu,
mas ninguém quer morrer
Só o outro morre,
por que a vida é mesquinha, assim
Me diga onde é que é vida?
Onde é que é morte?
Quem é que sabe o segredo, a mentira destes mundos?
Quem sabe se tem outra vez
entre tantos nunca mais?
Destino sem denotação alguma
Quando menos se espera a morte bate à porta
e se não abrimos, ela, com intimidade,
pega a chave embaixo do capacho
antes que possa
cumprir a jornada dos dias úteis (útil pra quem patrão?)
bater ponto o mês inteiro
confundir-se ao dinheiro e à ganância ingente
descolar um amor descolado
pra depois do expediente
quando a noite já cansada
adormece para o amanhã
Amanhã...
Um dia pra ser feliz
Lá adiante
Bem pra frente
Quanto tempo ainda
para que a sombra se deite sobre a luz
e os ponteiros do tempo
sirvam de cravos a nos pregarem na cruz

Me comovo
Guardo o milagre
nos lagos cintilantes onde o sol flutuou,
ígneo alcobaça cobrindo as águas com o brasil do fim de tarde
deslindando a alma encarcerada
na parábola e no  mistério,
mestre e discípula
a alma suscita lembranças
da flor antes mesmo da flor ser flor
da última expiração
precedendo a primeira inspiração
vida e morte
noite e dia
luz e sombra
yin e yang
acendendo e apagando mundos
Tem vidas (e cada vida é um mundo)
que duram milionésimos de um segundo
e também são pra toda vida
como toda vida é pra toda vida
Cientistas,
misturando teorias e pitacos a bilhões de dólares,
hão de encucar,
ruminar e deitar farolices
para quem quiser ler ou ouvir
sandices desatando nós
Hão de arguir, quando o sol esfriar,
quem somos,
donde viemos,
pra onde vamos,
gênese e apocalipse da vida
A vida, sem explicação, é para toda a vida
até que uma nova estrela, já morta, nos deixe ver sua luz
transformando em energia o que era agônica consumação
num cosmos de bilhões de anos

Fecho os olhos e aspiro o perfume da flor
adubada a estrume
A vida, por um momento, se explica,
faz sentido
quieta e sem luz
como um útero primordial
pulsando a noite que desprendeu o dia

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